Trabalho em secretaria de escola pública no Espírito Santo. Pego formulários de matrícula todo dia. E, neles, sempre a mesma coisa: um campo para "nome do pai", outro para "nome da mãe". Às vezes um terceiro campo, "responsável", tratado como exceção. E é só.
Não tem campo para a avó que assumiu a criação porque a mãe trabalha dois turnos. Não tem campo para o padrinho que busca na escola todo dia. Não tem campo para o coletivo de tias e vizinhas que se revezam quando alguém adoece. Não tem campo, muito menos, para arranjos familiares que fogem do modelo pai-mãe-filhos por qualquer razão: separação, recomposição, criação compartilhada.
A escola trata isso como detalhe de preenchimento. Eu discordo: é uma escolha política, herdada, que decide de antemão quem conta como família e quem é "situação irregular" a ser resolvida.
Também sou estudante de Pedagogia na Ufes, e tenho olhado de perto como os documentos de gestão escolar, como fichas, editais e sistemas da Secretaria de Educação do Estado (Sedu), lidam com a família. A conclusão incômoda é que esses papéis carregam um modelo específico, historicamente construído: o casal heterossexual, monogâmico, com filhos, morando junto.
Esse modelo não caiu do céu. Foi imposto pela catequese colonial: o casal monogâmico como condição para ser considerado "em ordem", primeiro pela Igreja, depois pelo Estado.
Séculos depois, ele continua sendo o único formato que a escola sabe reconhecer.
Toda criança que é cuidada por uma rede (e no Brasil real, fora do papel, isso é regra, não exceção) precisa "encaixar" essa rede em duas linhas de formulário, ou simplesmente desaparecer dos registros como se não existisse quem a cria.
Não é só burocracia chata. Como mostra Vitor Paro, pesquisador da gestão democrática: democratização não se sustenta se for só "delegada" pelo Estado. Precisa de participação real de quem vive a comunidade daquela criança.
Se a escola só enxerga pai e mãe, ela só chama pai e mãe para reunião, só responsabiliza pai e mãe, só constrói vínculo com pai e mãe. A avó que faz tudo, muitas vezes, fica invisível para a escola. E uma rede de apoio invisível é uma rede que a escola não consegue fortalecer, mesmo quando é dela que a criança depende para continuar estudando.
Isso é ainda mais grave em famílias negras e periféricas, onde redes de cuidado compartilhado (entre parentes, vizinhos, comunidade) são estratégia de sobrevivência com raízes que vêm de muito antes da escola existir. Antônio Bispo dos Santos mostra como essas redes quilombolas de cuidado coletivo são tecnologia social, não ausência de estrutura. Tratar isso como anomalia a ser corrigida no campo "responsável" é, no mínimo, um desperdício. No limite, é continuar apagando, com uma ficha de papel, o que a colonização já tentou apagar antes.
O que eu acho, e o que proponho, é sobre gestão: de como a escola registra quem cuida de quem, e do que ela faz com essa informação.
Existe algo simples de enunciar e difícil de fazer: documentos escolares que consigam registrar redes de apoio como elas realmente são, e não como o modelo colonial-cristão insiste que deveriam ser. Um campo a mais no formulário não resolve um problema estrutural sozinho, mas é o tipo de detalhe onde a mudança de verdade começa, porque é ali que a escola decide, na prática, quem ela enxerga como família de uma criança.
Enquanto a ficha de matrícula continuar sabendo só de pai e mãe, a escola vai continuar sendo mais estreita do que a vida das crianças que ela recebe todos os dias.
A escola da sua cidade sabe quem realmente cria as crianças, ou só preenche formulário?