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Maria Luiza Fontenelle

Artigo de Opinião

É advogada especialista em Direito Empresarial e Direito de Família e Sucessões. É idealizadora do sistema +Jus e coordenadora do MBA de Direito Corporativo da FDV
Maria Luiza Fontenelle

"Até a máfia tem ética"

A ética da máfia é a omertà: silêncio para fora, lealdade para dentro, pertencimento acima do fato
Maria Luiza Fontenelle
É advogada especialista em Direito Empresarial e Direito de Família e Sucessões. É idealizadora do sistema +Jus e coordenadora do MBA de Direito Corporativo da FDV

Publicado em 17 de Setembro de 2026 às 10:00

Publicado em 

17 set 2026 às 10:00

A frase é do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, na sessão de 15 de setembro: "Até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta assim." O argumento era que não se expõe um colega, ainda que envolvido. Nenhuma frase daquela manhã diz tanto.


A ética da máfia é a omertà: silêncio para fora, lealdade para dentro, pertencimento acima do fato. É o contrário do que a Constituição exige de um tribunal, que delibera em sessão pública, fundamenta por escrito e responde à sociedade. Quando o decano oferece o código do crime organizado como régua de conduta entre pares, não descreve um deslize, descreve uma cultura.


A lição tinha destinatário: o ministro André Mendonça, relator do caso, acusado de agir com "viés político-eleitoral". Se a acusação tem fundamento, o regimento oferece o caminho: suspeição, questão de ordem, redistribuição. Nada disso foi usado. 

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Mendonça foi chamado em plenário de sujeito com "sentimento policialesco", ouviu que era "de uma desfaçatez de fazer corar um frade de pedra" e respondeu: "não aponte o dedo para mim, respeite este tribunal". A decência cobrada em tese não durou dez minutos.


O ministro Alexandre de Moraes votou na questão de ordem sobre os pedidos de apuração dirigidos a ele próprio. Nenhuma construção hermenêutica supera a regra elementar: ninguém julga em causa própria. Impedimento não humilha magistrado, protege a jurisdição.


O ministro Flávio Dino votou, retirou o voto e pediu vista, congelando por até noventa dias, prazo da Emenda Regimental 58/2022, um julgamento que corria dividido. Minutos antes, dissera que a Corte não tinha condições de deliberar.

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosinei Coutinho/STF

Restou uma voz. A ministra Cármen Lúcia declarou-se envergonhada, afirmou que "o Poder Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade" e pediu desculpas ao povo brasileiro.


Na véspera, a Quaest mediu 56% de desconfiança no STF, dez pontos acima de agosto. A menos de vinte dias de uma eleição geral, o país passou a manhã vendo o tribunal discutir a si mesmo.


Um tribunal não se legitima pelo poder que exerce, mas pelas regras a que se submete antes de julgar os outros. Em 15 de setembro essa ordem foi invertida: cobrou-se lealdade de clã e dispensou-se o rito. 


Enquanto for assim, a desconfiança do brasileiro não é crise de comunicação, é diagnóstico. O caminho de volta foi apontado na própria sessão, pela ministra que teve a coragem de se dizer envergonhada.

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