Todo ciclo eleitoral brasileiro traz consigo uma dose extra de ruído, e o momento atual não é exceção. Entre um resultado eleitoral que segue incerto e a sucessão de escândalos institucionais que têm ocupado as manchetes, é natural que o investidor sinta um impulso de cautela redobrada.
A pergunta que realmente importa, no entanto, não é se devemos reagir a esse cenário, mas como fazê-lo sem cair em decisões que, historicamente, custam caro.
Quando as manchetes ficam carregadas de incerteza, a reação mais comum é migrar tudo para o que parece seguro, e no Brasil isso quase sempre significa reforçar posições em CDBs e outras aplicações de renda fixa pós-fixada. Não há nada de errado em buscar segurança. O problema está na palavra "tudo".
Os juros altos no país são, de fato, um fenômeno notável em perspectiva global, mas essa notoriedade esconde uma armadilha silenciosa: a sensação de que renda fixa brasileira resolve tudo pode levar o investidor a ignorar riscos que vão além da rentabilidade nominal.
Um CDB carrega risco de crédito da instituição emissora, e mais importante, qualquer alocação inteiramente doméstica carrega uma exposição concentrada ao risco institucional do país, o risco de que decisões políticas ou fiscais afetem simultaneamente todos os ativos da carteira, justamente no momento em que mais se precisaria de estabilidade.
Existe também uma tentação recorrente entre investidores brasileiros, a de comparar tudo ao CDI e tratar isso como a métrica suprema de sucesso. Essa mentalidade ignora a dimensão do risco assumido para obter aquele retorno e ignora a importância de diversificar as fontes desse risco.
Um portfólio que bate o CDI, mas está inteiramente exposto ao mesmo conjunto de riscos macroeconômicos e institucionais de um único país, não é necessariamente um portfólio bem construído. É, na melhor das hipóteses, uma carteira concentrada que teve sorte no período observado.
O acesso do investidor brasileiro a produtos internacionais mudou de forma significativa nos últimos anos. Hoje, diversas estruturas permitem alocar parte do patrimônio fora do país com relativa simplicidade. Essa diversificação não deve ser vista como uma aposta contra o Brasil, mas como uma forma de gestão de risco.
Ao alocar parte do patrimônio em ativos ligados a outras moedas e a outros regimes institucionais, o investidor reduz sua dependência de um único conjunto de decisões políticas e econômicas, algo especialmente relevante em períodos como o atual, quando a incerteza eleitoral tende a elevar a correlação entre os ativos domésticos, justamente o oposto do que se busca ao diversificar.
Vale reforçar que diversificação internacional não significa abandonar o mercado doméstico, tampouco correr riscos desnecessários. Significa reconhecer que retorno e segurança são conceitos multidimensionais, e que a moeda e a jurisdição em que um ativo está denominado são, elas mesmas, uma fonte de risco, ou de proteção, que merece atenção deliberada.
Cenários de incerteza institucional e eleitoral vêm e vão. O Brasil já atravessou vários, e provavelmente atravessará outros. O que diferencia o investidor que preserva e constrói patrimônio ao longo do tempo não é a capacidade de prever o resultado de uma eleição, mas a disciplina de manter uma estrutura de carteira que já contempla essa incerteza como parte natural do processo, não como uma exceção a ser evitada a qualquer custo.
A pergunta que vale a pena fazer não é como me proteger desta eleição específica, mas se a carteira está estruturada para lidar bem com incerteza, seja ela qual for.