A diversificação é uma das regras mais conhecidas do mercado financeiro: não colocar todos os ovos na mesma cesta. Para o investidor, isso significa distribuir o patrimônio entre diferentes tipos de ativos, como renda fixa, ações e fundos, de acordo com seu perfil e seus objetivos. Mas há outro tipo de concentração que também merece atenção: a instituição responsável por intermediar, administrar ou custodiar os investimentos.
O conceito pode ser resumido como “variar o galinheiro”. Mesmo que uma carteira esteja diversificada em diferentes ativos, concentrar todo o patrimônio em uma única instituição pode criar o chamado risco institucional, relacionado à própria estrutura, governança e capacidade operacional da empresa que presta o serviço ao investidor.
O tema ganhou atenção no mercado capixaba diante da recente crise envolvendo a Apex Partners. O grupo tornou-se alvo de questionamentos e passou por uma crise institucional que colocou em discussão a estrutura de suas operações. O caso, porém, também serve como ponto de partida para uma questão mais ampla: como o investidor pode reduzir riscos sem necessariamente abrir mão dos investimentos que fazem sentido para sua estratégia?
Para o economista Vaner Correa, empresas que atuam como plataformas de investimento têm justamente a função de aproximar quem tem capital de quem precisa de recursos.
O que vai gravitar em torno do patrimônio de uma empresa é o que ela consegue captar de dinheiro. Alguém que tem capital para quem precisa de capital.
Vaner Correa, economista
Segundo o economista, esse modelo exige estruturas de controle capazes de acompanhar as operações realizadas. “Esse tipo de empresa precisa ser muito bem estruturada na questão do compliance e de auditorias, bem monitorada”, afirma.
Vaner destaca que assumir riscos faz parte do funcionamento do mercado financeiro. O problema está em não conhecer ou não dimensionar adequadamente esse risco.
“Todo investimento tem rentabilidade, liquidez e segurança”, explica. Segundo ele, essas três características precisam ser analisadas conjuntamente pelo investidor.
A lógica é que, em geral, maiores possibilidades de retorno estão associadas a maiores riscos. Por isso, uma aplicação que promete ganhos muito superiores aos praticados no mercado exige atenção redobrada.
O especialista em investimentos José Márcio de Barros também recomenda cautela com promessas de rentabilidade elevada. Para ele, o investidor deve desconfiar de ofertas que apresentem ganhos muito acima das referências do mercado.
Os investidores devem sempre desconfiar daquelas promessas de retorno exorbitante.
José Márcio de Barros, especialista em investimentos
Barros ressalta que não existe retorno garantido em investimentos de renda variável e que a possibilidade de ganhos maiores vem acompanhada de maior exposição ao risco.
A primeira camada de diversificação é aquela mais conhecida: distribuir o dinheiro entre diferentes classes de ativos. Uma carteira pode, por exemplo, combinar renda fixa e renda variável, além de investimentos com diferentes prazos e níveis de risco.
José Márcio considera a diversificação um dos cuidados básicos que devem ser adotados pelo investidor.
Outra razão que também é super importante tanto quanto a primeira, de conhecer o perfil, é diversificar.
José Márcio de Barros, especialista em investimentos
Mas existe uma segunda camada: avaliar onde esses investimentos estão mantidos.
Isso não significa que o investidor precise necessariamente ter várias corretoras ou bancos. A decisão depende do tamanho e da complexidade do patrimônio, dos produtos utilizados e da estrutura das instituições. A lógica é evitar que uma única relação institucional concentre riscos que poderiam ser distribuídos.
Também é importante entender que a instituição que oferece ou assessora um investimento nem sempre é a mesma responsável pela custódia do ativo.
Uma dúvida comum quando uma corretora ou plataforma de investimentos enfrenta problemas é o que acontece com o patrimônio dos clientes. Afinal, se o investidor comprou ações por meio de uma corretora, esses papéis pertencem à empresa ou continuam vinculados ao CPF de quem fez a aplicação?
No caso das ações negociadas em bolsa, o registro é feito no CPF do próprio investidor. Segundo o especialista em investimentos Pedro Lang, as ações são registradas de forma escritural na Central Depositária da B3 (Brasil, Bolsa, Balcão), a bolsa de valores oficial do país, e não ficam em nome da corretora.
A corretora atua como intermediária da operação. É por meio dela que o investidor envia as ordens de compra e venda, mas a instituição não se torna proprietária das ações adquiridas pelo cliente. O patrimônio do investidor é segregado do patrimônio da corretora.
A ação fica no CPF do investidor, não da corretora. O sistema é totalmente escritural, registrado na Central Depositária da B3.
Pedro Lang, especialista em investimentos
A B3, por sua vez, mantém o registro central da titularidade dos ativos. O próprio investidor pode consultar suas posições pela área logada da bolsa, em “Meus Investimentos”, e comparar as informações com o extrato disponibilizado pela corretora.
Na prática, isso significa que uma eventual quebra ou falência da corretora não transforma automaticamente as ações dos clientes em patrimônio da instituição. Como estão registrados em nome do investidor, os papéis podem ser transferidos para outra corretora sem que seja necessário vender os ativos.
“Se a corretora quebra, as ações não entram na falência, pois já estão no CPF do cliente. Ele pode transferi-las para outra corretora sem vender”, afirma o investidor.
Há, porém, uma diferença importante entre os investimentos que já foram adquiridos e o dinheiro que permanece parado na conta da corretora.
As ações estão registradas e segregadas em nome do investidor. Já o dinheiro que ainda não foi aplicado permanece como saldo na conta da instituição e, segundo Lang, apresenta uma exposição diferente em uma eventual crise.
Dinheiro parado na conta é mais arriscado. Não tem garantia do FGC e pode demorar mais para ser recuperado numa crise.
Pedro Lang, especialista em investimentos
Por isso, o fato de um investimento estar vinculado ao CPF não significa que o investidor esteja protegido contra qualquer tipo de prejuízo. O registro protege a titularidade do ativo diante de problemas da corretora, mas não impede, por exemplo, que uma ação perca valor no mercado. Também não elimina riscos relacionados a fraudes, eventuais atrasos burocráticos ou às características próprias de cada investimento.
Caso o investidor decida deixar uma corretora, não é necessário vender os ativos e depois comprar tudo novamente em outra instituição. É possível solicitar a transferência de custódia.
Nesse processo, as ações e os outros ativos são transferidos para uma conta de mesma titularidade em outra corretora. O investidor, portanto, continua sendo dono dos papéis durante a mudança de instituição.
Segundo Lang, a transferência pode ser solicitada a qualquer momento, costuma ser concluída em poucos dias úteis e, em geral, não envolve custo ou imposto pela simples mudança de custódia.
A possibilidade de transferência reforça uma diferença importante para o investidor: escolher uma corretora não significa entregar a ela a propriedade das ações adquiridas. A instituição faz a intermediação da operação, enquanto a titularidade dos ativos permanece vinculada ao investidor.
Por isso, em uma estratégia de diversificação institucional, o objetivo não é necessariamente vender os investimentos que já fazem sentido para a carteira, mas também avaliar onde eles estão custodiados e se é interessante distribuir a relação com diferentes instituições.
Leia mais sobre o caso