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João Vitor Pereira e Cândida Pereira

Artigo de Opinião

São empresários da área de Educação
João Vitor Pereira e Cândida Pereira

Mais horas na escola: a meta de 2026 e a pergunta que ela não responde

A pergunta que cada comunidade escolar precisa fazer, agora que a porta da escola fica aberta o dia inteiro, é a mais simples e a mais difícil de todas
João Vitor Pereira e Cândida Pereira
São empresários da área de Educação

Publicado em 06 de Agosto de 2026 às 11:56

Publicado em 

06 ago 2026 às 11:56

O Brasil está próximo de cravar um número simbólico: chegar a 2026 com 100% dos seus territórios oferecendo matrículas em tempo integral na educação básica. A cobertura já beira os 90%, segundo o Ministério da Educação, e em fevereiro de 2026 a pasta comemorou ter atingido "pela primeira vez na história" o maior percentual de estudantes em jornada ampliada. 


Somando todas as etapas, a educação integral saltou de 18,2% para 22,9% das matrículas entre 2022 e 2024. O motor dessa expansão é o programa Escola em Tempo Integral, criado pela Lei 14.640/2023, que mobilizou R$ 4 bilhões com a meta de gerar 3,2 milhões de matrículas. 


E o novo Plano Nacional de Educação (2026–2036) eleva a régua para a próxima década: 65% das escolas públicas em tempo integral e 50% dos alunos atendidos até 2036. Pelo critério do Inep, vale como "tempo integral" a matrícula de pelo menos sete horas diárias e cinco dias por semana, também referidas como as 35 horas semanais.

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Por que isso importa para quem não trabalha com educação? Porque tempo integral é, ao mesmo tempo, uma política educacional e uma política social das mais concretas que existem. Para uma família que depende do próprio trabalho para sobreviver, uma escola que acolhe a criança o dia inteiro não é detalhe pedagógico: é a diferença entre poder ou não aceitar um emprego, é a refeição garantida, é o filho longe de riscos no contraturno. 


E há evidência de que funciona como ferramenta de permanência: manter o jovem mais tempo na escola, com atividades que façam sentido, é uma das estratégias mais citadas para combater a evasão, sobretudo no ensino médio, onde as matrículas integrais cresceram de 20,4% para 24,2% no mesmo período. 


Não por acaso, o programa prioriza, no desenho do financiamento, os territórios mais vulneráveis e os estudantes com deficiência, quilombolas, do campo e indígenas.


Mas aqui está o ponto que a manchete da "meta batida" tende a esconder: tempo integral não é a mesma coisa que educação integral. Estender a jornada é só o primeiro passo, bem como o mais fácil de medir. A própria secretária de Educação Básica do MEC, Katia Schweickardt, foi explícita ao dizer que cumprir as sete horas é "apenas uma dimensão", e que a qualidade da vaga é a etapa seguinte. 

O Ministério da Educação (MEC) redefiniu as regras do programa que leva ensino integral, de 7 horas diárias, para escolas de ensino médio do país Marcelo Camargo/Agência Brasil

Encher o dia da criança com vivências sem propósito e direcionamento produz tédio e cansaço, não aprendizado. Educação integral, no sentido que a lei e os especialistas defendem, exige três pontos que dinheiro nenhum compra automaticamente: professores qualificados, infraestrutura de verdade e intersetorialidade, ou seja, a saúde, a cultura e o esporte assumindo o mesmo compromisso que a educação. 


A controvérsia honesta, portanto, é se o país vai expandir com qualidade ou apenas inflar uma estatística que parece boa no relatório e rasa na vida real do aluno.


No fim, a meta de 100% dos territórios é uma boa notícia que merece ser comemorada como avanço de uma política historicamente tratada como privilégio de poucos no cenário nacional. Entretando, número redondo é começo de conversa, não o fim dela. 


A pergunta que cada comunidade escolar precisa fazer, agora que a porta da escola fica aberta o dia inteiro, é a mais simples e a mais difícil de todas: o que, exatamente, está acontecendo lá dentro durante todas essas horas? Porque "mais tempo de escola" só vira "mais educação" quando a sociedade decide olhar para dentro da sala, não apenas para o relógio na parede.

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