
Antônio Carlos de Medeiros*
A transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro, tem a marca da improvisação e do ensaio e erro. O desenho do ministério mais parece uma colcha de retalhos. Não tem ainda cara de reforma administrativa com alguma visão holística. Mas Bolsonaro ainda tem muita popularidade para queimar. Só precisa que o episódio do assessor do seu filho Flavio Bolsonaro seja devidamente explicado.
No fundo, o governo eleito ainda não saiu dos slogans e platitudes. A formação do ministério combina “núcleos de poder” - militares, políticos, tecnocratas e religiosos -, mas não deixa claro se vai dar liga e se vamos ter uma agenda. Talvez o discurso de posse venha a elucidar o enigma. A agenda é essencial. No dia 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, o Congresso Nacional já terá iniciado a nova Legislatura. Aí, a vaca vai tossir. O Brasil tem uma Constituição com forte viés parlamentarista.
Enquanto isto, a 1ª Cúpula Conservadora, promovida sob a liderança de Eduardo Bolsonaro, mostra traços do ideário do novo governo na área de costumes. Em defesa dos valores tradicionais, uma nova direita (direita alternativa, como nos EUA) vai para a ribalta no Brasil. Defende a escola sem partido, combate o que chama de marxismo cultural, ataca a mídia e as artes.
Se esta direita alternativa for uma corrente democrática, é bem-vinda. É positivo, para a democracia, que a direita brasileira mostre a sua cara, como em qualquer país democrático. Afinal, o contraditório é força transformadora da sociedade.
Mas o foco no debate dos costumes, com a crítica aos chamados globalistas, verbalizada por Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, não é a agenda prioritária no atual momento de crise. É um debate necessário. Mas, por enquanto, é adjetivo.
O debate substantivo, escolhido o ministério, é o da agenda com as prioridades, para responder a indagação central dos brasileiros: o que o novo grupo no poder vai fazer? Quais são as medidas para o país voltar a crescer?
Fatores estruturais perpassam esta agenda e criam um alerta preventivo ao eventual voluntarismo do presidente eleito. Ele pode muito. Mas não pode tudo. O poder é global e opera no “espaço de fluxos” (termo de Castells). A internet criou um espaço virtual de fluxos financeiros, comerciais e de capitais que é global e é politicamente incontrolável. Forças supraestatais e globais operam neste “espaço de fluxos” e conferem déficit de poder à política nacional. Há uma situação de “divórcio” entre poder (global) e política (nacional).
Isto vale tanto para Trump quanto para Bolsonaro. Podem muito, mas não podem tudo. Bolsonaro precisa apontar qual será a agenda para atender à demanda central dos brasileiros: entregas de serviços públicos. O substantivo está aí. É o feijão com arroz.
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science