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Gabriel Lordello

Artigo de Opinião

É fotógrafo, jornalista e sócio da Mosaico Fotogaleria
Gabriel Lordello

Com a Inteligência Artificial, como vamos garantir a credibilidade histórica das imagens no futuro?

Diante dessa crise de credibilidade da imagem, surge um caminho institucional indispensável: a criação de uma fototeca e um museu da imagem e do som
Gabriel Lordello
É fotógrafo, jornalista e sócio da Mosaico Fotogaleria

Publicado em 13 de Junho de 2026 às 10:00

Publicado em 

13 jun 2026 às 10:00

A Inteligência Artificial pode criar uma memória artificial. Imagine uma fotografia de um navio atracado na baía de Vitória em meados dos anos 1960. À sua frente, um grupo de amigos faz um passeio em uma catraia. Logo atrás da embarcação, ergue-se o imponente morro do Penedo. O navio ostenta cordas de amarração para os dois lados: uma fixada em Vila Velha, outra em Vitória. Naquela época, a fazenda Capuaba ainda não havia se transformado no porto que conhecemos hoje.


Se essa imagem fosse publicada pela primeira vez atualmente, será que sua autenticidade não seria questionada? Será que o público não a apontaria como uma mera criação de Inteligência Artificial?


A cena descrita pertence, na verdade, ao acervo do fotógrafo Roberto Lordello. Trata-se de um registro analógico genuíno, capturado com uma câmera Flexaret utilizando um filme de médio formato 6x6 cm em preto e branco. Assim como essa fotografia do meu pai, o Espírito Santo possui acervos históricos valiosíssimos, construídos por nomes como Pedro Fonseca, Nilton Pimenta, Paulo Bonino, Rogério Medeiros, Chico Guedes, Carla Osório — para citar apenas alguns dos profissionais que documentaram a vida capixaba entre as décadas de 1940 e os anos 2000.

Navio na Baía de Vitória
Navio na Baía de Vitória em meados dos anos 1960 Roberto Lordello/Mosaico Fotogaleria

Todas essas fotografias têm matrizes tangíveis, em filmes negativos ou positivos. São suportes físicos que permitem, ainda hoje, a reprodução fiel do que foi catalogado na época. Esses acervos ajudaram a construir a identidade e a memória visual do Espírito Santo, integrando-se de forma definitiva à história do nosso Estado. Até mesmo a partir de arquivos digitais, é possível verificar a autenticidade de uma imagem por meio da sequência de fotos, arquivos “crus” que funcionam como um negativo digital.


Estamos falando de imagens capturadas há 80 anos ou mais, que refletem a realidade de uma época. É preciso deixar claro que a fotografia nunca foi e nunca será uma reprodução 100% fiel à realidade, mas sim o suporte técnico e artístico que mais se aproxima dela.


Com a popularização das Inteligências Artificias, qualquer pessoa com um celular pode criar ou adulterar imagens como quiser. Logo, paisagens e cenas cotidianas artificias são compartilhadas como uma experiência real. Até aí, tudo bem, não sou contra o acesso ou uso da IA de forma criativa. O problema é que grande parte dessas imagens circula sem qualquer indicação de que foi manipulada.Em alguns casos, chegam a ser republicadas por empresas jornalísticas, conferindo uma aparência de autenticidade a cenas que não refletem a realidade.


Recentemente, um grupo de artistas de Vila Velha protestou contra imagens de paisagens locais que circulavam nas redes sociais distorcendo a geografia da cidade. Eram representações geradas por Inteligência Artificial nas quais o Convento da Penha, maior símbolo religioso e cultural capixaba, aparecia com uma arquitetura completamente modificada, tamanho desproporcional e até em localização errada.



Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) que posiciona o Convento da Penha em local estranho à realidade
Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) que posiciona o Convento da Penha em local estranho à realidade Imagem gerada por IA

Assim como este caso, existem hoje milhares de outras imagens geradas ou massivamente alteradas por IA que distorcem cenas cotidianas. Esse fenômeno provocou uma mudança drástica e preocupante na forma como consumimos informação visual.


Atualmente, ao nos depararmos com qualquer cena minimamente interessante ou impactante, a primeira pergunta que nos vem à mente é: "Será que isso é real ou é IA?". Recentemente, me surpreendi ao ver uma campanha da Azul Linhas Aéreas em que um avião de grande porte aparecia fazendo um rasante sobre uma praia do Rio de Janeiro. Minha reação imediata foi pensar que se tratava de uma imagem criada por Inteligência Artificial. Mas, para minha surpresa, não era.


Diante dessa crise de credibilidade da imagem, surge um caminho institucional indispensável: a criação de uma fototeca e um museu da imagem e do som. Estados como Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e São Paulo já saíram na frente, conseguindo aprovar leis para a criação de fototecas estaduais, um passo primordial para a proteção desse patrimônio.


O Espírito Santo ainda carece de uma estrutura voltada especificamente para a preservação da memória fotográfica.

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A função das fototecas é vital: reconhecer, adquirir ou receber, preservar e difundir acervos fotográficos tanto públicos quanto privados. Com a sanção de uma lei estadual, o governo assume a obrigação de estruturar um espaço próprio e contratar funcionários qualificados, abrindo também a possibilidade de firmar parcerias público-privadas para viabilizar o projeto.


A ausência de um Museu da Imagem e do Som deixa uma lacuna importante nesse campo, já que uma instituição desse tipo poderia contribuir significativamente para a conservação e valorização desse patrimônio. No Brasil são mais de 10 MIS em 9 estados.


O Arquivo Público do Estado e a Midiateca Estadual já desempenham um papel relevante, mas não contam com uma estrutura dedicada exclusivamente à fotografia, o que torna o trabalho insuficiente diante da urgência da situação.


Garantir a preservação dessas coleções é também dar a devida relevância ao trabalho de muitos fotógrafos e fotógrafas que registraram a história do nosso Estado. Ao serem salvaguardados por órgãos públicos e instituições privadas, esses acervos adquirem força documental e relevância histórica incontestáveis. 


Transformam-se em guardiões da memória coletiva, ajudando a preservar, diante das transformações do tempo, a verdadeira história, a identidade e a alma de nossas cidades e de nossa gente.

Uma discussão urgente

Este é o ponto crucial da nossa época. Se hoje já navegamos em um mar de desconfiança, como será o amanhã? Daqui a 50 anos, qual imagem servirá de referência para contar a verdadeira história do nosso passado? Qual registro visual terá credibilidade suficiente para ser reconhecido legitimamente como "real"?


Essa é uma discussão urgente que vai muito além da tecnologia: trata-se da preservação da nossa memória e da própria história.


Em 1952, o Fotoclube do Espírito Santo foi declarado de utilidade pública pelos Governos Estadual (Lei 643/1952) e Municipal de Vitória (Lei 208/1951), um reconhecimento pioneiro do valor imensurável da fotografia para a nossa sociedade.  


Hoje, com o Fotoclube fechado há mais de dez anos e sem iniciativas consistentes para a preservação dos acervos fotográficos, o reconhecimento da fotografia como utilidade pública perde força na prática. Sem ações efetivas, um patrimônio fundamental para a memória coletiva segue exposto ao abandono e ao esquecimento.


Mais do que nunca, precisamos seguir exemplos bem-sucedidos e investir na criação de fototecas, museus e centros de preservação dedicados à fotografia como documento, memória e arte. Proteger esses acervos, físicos e digitais, é garantir que as futuras gerações tenham acesso a registros autênticos de quem fomos e de como vivemos. 


Em uma era marcada pela proliferação de imagens artificiais, preservar a fotografia é preservar a própria verdade da nossa história.

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