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Vanise Lima e Silva Cavalheiro

Artigo de Opinião

É professora universitária, advogada, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais e doutoranda em Estudos de Gênero pela Universidade de Lisboa
Vanise Lima e Silva Cavalheiro

Por um amor que respeite os fins

Um amor saudável não se mede apenas pela forma como começa ou por quanto tempo dura. Ele também se revela na maneira como termina
Vanise Lima e Silva Cavalheiro
É professora universitária, advogada, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais e doutoranda em Estudos de Gênero pela Universidade de Lisboa

Publicado em 12 de Junho de 2026 às 15:22

Publicado em 

12 jun 2026 às 15:22

(Inspirado no texto “Felizes por enquanto”, da escritora, ativista Guarani Geni Núñez, em  "Escritos sobre outros mundos possíveis") 


Somos educadas (os) para celebrar os começos. O primeiro encontro, o pedido de namoro, o  casamento, as promessas de eternidade. A cultura do amor romântico construiu uma  verdadeira liturgia dos inícios, como se o sucesso de uma relação pudesse ser medido  exclusivamente por sua duração. Por quanto tempo você foi casada? Ficaram juntos por  quantos anos? 


Mas pouco se fala sobre os fins. 


Ninguém nos ensina a terminar, à exceção dos poetas. Como fez Vinícius de Moraes: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.” 


Não aprendemos a lidar com a despedida, com a mudança dos afetos ou com a constatação de  que algumas histórias simplesmente cumprem seu ciclo. Em vez disso, somos levados a  acreditar que o amor verdadeiro é aquele que resiste a qualquer custo, mesmo quando a  felicidade já não habita a relação. 

Divórcio; separação; rompimento; relacionamento
Fim de relacionamento
Freepik

Talvez esteja aí uma das armadilhas mais perigosas do imaginário amoroso: a ideia de que  acabar significa fracassar. 


No entanto, nem todo término é uma derrota. Há relações que terminam porque as pessoas  mudam, e mudar é uma das formas mais belas de estar vivo, pois somos seres inacabados,  atravessados pelo tempo, pelas experiências, pelos encontros e por que não também dos  desencontros? 


Outras relações terminam porque os projetos de vida seguem direções distintas. Algumas acabam porque o respeito se perdeu. Nesses casos, os limites existem para proteger nossa dignidade, nossa integridade emocional e nossa liberdade. Não se demore  onde não há respeito! 


Amar alguém não deveria significar possuir. Tampouco deveria significar exigir permanência  quando o desejo de estar junto já não existe.


Essa reflexão é especialmente importante em uma sociedade que ainda naturaliza  comportamentos de controle e posse, muitas vezes confundidos com demonstrações de afeto.  Quantas vezes o fim de uma relação é tratado como uma afronta? Quantas mulheres são  perseguidas, ameaçadas, agredidas e até assassinadas por parceiros incapazes de aceitar uma  separação? 


Ciúme excessivo, monitoramento constante e vigilância sobre amizades, roupas ou rotinas são comportamentos abusivos. Não romantize frases como: “Tenho ciúmes porque te amo”,  “Só quero te proteger” ou “Ninguém vai gostar de você como eu”. Não é sobre amor, é sobre  controle. 


Os dados sobre violência contra as mulheres mostram que os momentos de ruptura estão  entre os mais perigosos de uma relação. Isso revela uma questão inquietante: talvez algumas  pessoas não sofram apenas pelo término em si, mas pela perda do poder que acreditavam  exercer sobre o outro. 


Um amor saudável não se mede apenas pela forma como começa ou por quanto tempo dura.  Ele também se revela na maneira como termina. 


Respeitar os fins é reconhecer a autonomia do outro. É compreender que ninguém nos  pertence. É aceitar que o afeto não pode ser mantido por obrigação, culpa, medo ou  insistência. 

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Isso não significa romantizar a dor da despedida. Términos doem. Como bem disse o poeta  Luís de Camões: 


“Amor é fogo que arde sem se ver; 

é ferida que dói e não se sente; 

é um contentamento descontente; 

é dor que desatina sem doer.” 


Despedidas deixam marcas. Há lutos que levam tempo para serem elaborados. Mas existe  uma diferença fundamental entre sofrer uma perda e transformar essa perda em  ressentimento, perseguição ou violência.


Talvez a maturidade afetiva consista justamente em compreender que algumas pessoas foram  importantes em determinada etapa da nossa vida e que isso, por si só, já possui valor. Nem  toda história precisa durar para sempre para ter sido significativa. 


Como tão lindamente nos ensina o poeta ensinou Gilberto Gil em “Drão”: O amor da gente é  como um grão/ Uma semente de ilusão/ Tem que morrer pra germinar/ Plantar nalgum lugar,  ressuscitar no chão/ Nossa semeadura/ [...] Quem poderá fazer aquele amor morrer/ Se o  amor é como um grão/ Morre, nasce trigo/ Vive, morre pão.”

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