É uma fraude em que criminosos se passam por médicos ou funcionários de hospitais públicos ou privados para cobrar valores de familiares de pacientes internados. No entanto, nenhum hospital pede pagamento de emergência via Pix ou transferência por ligação ou por WhatsApp.
Devido à sua recorrência, em vários estados do Brasil hospitais e instituições de saúde costumam apresentar nas suas dependências cartazes alertando para o golpe e divulgam o alerta nas redes sociais (veja abaixo).
O objetivo do golpe é extorquir dinheiro rapidamente de familiares de pacientes internados, aproveitando-se da vulnerabilidade do momento. Em casos investigados recentemente pela Polícia Civil em Santa Bárbara d’Oeste (SP), criminosos chegaram a obter previamente informações sobre pacientes e seus tratamentos, o que permitiu tornar a abordagem mais convincente.
Como os golpistas abordam as pessoas e que táticas usam para chamar a atenção: Em geral, os golpistas entram em contato com as vítimas por telefone ou WhatsApp se passando por médicos ou outros funcionários do hospital. Os criminosos inventam alguma mudança no quadro clínico do paciente ou uma complicação de última hora que exige um exame ou procedimento adicional que não seria coberto pelo plano de saúde do indivíduo ou pelo SUS.
Como já alertou o Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em outras abordagens, os criminosos vão à residência da vítima e pedem pagamento antecipado, enviam documentos para serem assinados ou tentam receber dinheiro em espécie ou através de pagamento via cartão de crédito/débito. Assim, para liberar o procedimento, pedem a transferência de dinheiro para contas de terceiros.
Para dar credibilidade à sua abordagem, os golpistas usam informações reais vazadas ou obtidas ilicitamente do prontuário (como nome completo, CPF, histórico médico e o setor onde o paciente está internado, geralmente a UTI).
Como os dados podem ser vazados: Entre janeiro e o início de setembro de 2026, foram registradas no país 43 comunicações formais de incidentes de segurança no setor de saúde, de acordo com o painel de acompanhamento da Coordenação-Geral de Incidentes de Segurança da Agência Nacional de Proteção de Dados (CGIS-ANPD).
Dados do painel apontam que desse total, dez incidentes foram casos de roubo de credenciais, outros oito foram de acesso não autorizado a sistemas de informação, sete de divulgação indevida de dados pessoais e cinco de sequestro de dados. Os números mostram ainda que 88% dos incidentes ocorreram no setor privado.
De acordo com informações da ANPD ao Comprova, os chamados “vazamentos” podem ocorrer em algumas circunstâncias ligadas à exposição ou acesso indevido a dados pessoais de saúde. As mais comuns são:
- Roubo ou vazamento de credenciais/engenharia social: uso de senhas de funcionários que foram roubadas ou compartilhadas de forma inadequada;
- Acesso e compartilhamento não autorizados: quando pessoas que têm acesso autorizado aos sistemas do hospital visualizam ou repassam dados sem necessidade (sem uma razão profissional para isso) ou autorização legal;
- Divulgação indevida de dados pessoais;
- Falhas e vulnerabilidades nos sistemas: falhas de segurança nos softwares do hospital que o expõe a atividades maliciosas.
Além disso, para evitar novos casos, a Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) informou que os hospitais associados vêm continuamente aprimorando seus mecanismos de proteção e segurança de dados. A entidade reforça que a proteção das informações envolve também cuidados dos por parte dos pacientes, que devem evitar compartilhar seus dados pessoais desnecessariamente e ter atenção ao descarte de documentos e identificadores utilizados durante o atendimento.
Como saber se é golpe: A Anahp orienta desconfiar de cobranças não previstas e confirmar diretamente com a instituição, por seus canais oficiais, qualquer solicitação de pagamento. Também é importante não fornecer dados pessoais ou financeiros sem verificar a identidade do solicitante e conferir atentamente os valores antes de qualquer transação.
Além disso, uma das maiores pistas para saber se um pedido do tipo é golpe é o pedido de Pix ou transferência urgente. Os hospitais privados ou do SUS não cobram por procedimentos, medicamentos ou exames por telefone ou WhatsApp.
É necessário que o indivíduo fique atento à conta bancária de destino. Se quem o contatou pedir para fazer um Pix ou depósito em nome de um indivíduo (CPF) em vez do CNPJ oficial do hospital, é golpe. Os golpistas usam termos técnicos e dizem que o paciente “vai piorar” ou que a “cirurgia será cancelada” se o pagamento não for imediato, fazendo com que o paciente pague e deixe de verificar a veracidade da informação.
Por usar informações vazadas, os golpistas também costumam saber o nome do paciente, do médico e o motivo da internação. Na dúvida, o paciente deve ir pessoalmente até a recepção do hospital ou ligar para o número oficial que está no folheto de internação, no site oficial ou na recepção. Não deve ligar de volta para o número que o contatou.
O paciente também pode falar com a Ouvidoria ou Serviço Social. Todo hospital tem um setor responsável para orientar as famílias e confirmar se alguma cobrança (em caso de hospitais particulares) é legítima e como ela deve ser paga administrativamente.
Orientações dos hospitais: Diversos hospitais brasileiros já divulgaram comunicados em seus sites oficiais alertando sobre o golpe. Em um comunicado oficial, o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, afirmou que só entra em contato com os pacientes por “por telefone, e-mail ou conta verificada no WhatsApp”.
Já o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, reforçou que “não realiza negociações, não solicita depósitos bancários ou faz cobranças relativas a pagamentos por via telefônica”. Além disso, o Hospital Aliança Centro Médico, em Barreiras, na Bahia, afirmou que “em caso de qualquer contato suspeito” o indivíduo pode contatar a instituição através dos canais oficiais.
A quem denunciar: Se você ou um familiar foi vítima do golpe do falso médico em um ambiente hospitalar, pode pedir a “reparação dos prejuízos sofridos ao hospital e ao plano de saúde”, conforme o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). O artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) orienta que, nesse caso, o hospital e a operadora do plano de saúde respondem “independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços”.
Se o hospital ou o plano de saúde se recusarem a ressarcir os valores roubados, o consumidor pode registrar uma denúncia no Procon e/ou site consumidor.gov.br, do Ministério da Justiça. Também é possível registrar um Boletim de Ocorrência por estelionato na Polícia Civil, o que pode ser feito presencialmente ou de forma online.
Também é possível realizar uma denúncia ao presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) ou à sua Corregedoria. Ela deve ser assinada “pelo denunciante, seu representante legal ou por procurador devidamente constituído, de forma analógica ou digital”.
Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: O Comprova já realizou verificações relacionadas a golpes de números desconhecidos ou por mensagens de texto, abordagens do golpe do hospital. As atividades dos criminosos também foram identificadas por diferentes veículos jornalísticos como o G1 e GZH.
Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.
Investigação e verificação
Investigado por: A Gazeta, Correio de Carajás, GZH e Programa de Residência do Projeto Comprova
Texto verificado por: Estadão, NSC e Programa de Residência do Projeto Comprova
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