Entre 2015 e 2017, o Espírito Santo enfrentou uma gravíssima seca. Uma das piores da história. Até então, o Estado, população e atividades econômicas, eram extremamente dependentes da água corrente ofertada pelos rios. Quando a chuva diminuiu, a vazão foi lá para baixo e houve racionamento para a população e, claro, a indústria e o agronegócio sofreram bastante. De lá para cá, houve uma mudança profunda, principalmente no campo. Os produtores perceberam que tinham de reservar água para os períodos mais secos e que tinham de ser mais eficientes no uso do recurso. O trabalho de formiga dos últimos dez anos passará por um teste de fogo nos próximos meses, no pico do El Niño. O território capixaba já está em estado de alerta, a boa notícia é de que as perspectivas são mais positivas.
Pelas contas da Secretaria de Estado da Agricultura, o Espírito Santo tem, hoje, entre 60 mil e 70 mil barragens particulares, três vezes mais do que o registrado há duas décadas. Uma verdadeira revolução. Além disso, são 30 estruturas maiores, que pertencem ao Estado, com capacidade para 16,8 milhões de metros cúbicos, espalhadas por 21 municípios, que têm a missão de regularem as vazões dos rios. Outras três estão em construção.
"Os produtores passaram a observar com mais atenção a questão da segurança hídrica após a seca de 2015. Foi um marco importante. Entenderam que era possível, por meio das próprias barragens, ter uma atuação direta para solucionar o problema. O governo também passou a incentivar, com uma legislação mais simples e com financiamento subsidiado. Um conjunto de fatores provocou toda a mudança", explicou o secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli.
Vejamos a situação atual. O El Niño, caso venha em sua pior versão, provocará eventos climáticos mais extremos: temperaturas mais altas, secas mais prolongadas e chuvas, quando vierem, mais pesadas. Em outros tempos, a seca seria o pior dos pesadelos, mas o jogo mudou. O maior dos riscos, por ora, são as altas temperaturas, principalmente no momento de floração e enchimento do café. "É claro que o estado é de atenção, o produtor deve usar o recurso com atenção e parcimônia, não sabemos o que virá nos próximos meses, mas os reservatórios estão em bom nível. A grande preocupação é com as altas temperaturas, não há como se defender", explicou Bergoli.
O secretário ainda chamou atenção para o avanço da irrigação de alta eficiência. "Os sistemas melhoraram muito. A aspersão deu lugar ao gotejamento e à microaspersão. São operações muito mais eficientes, que gastam menos água e energia. Em 2017, 43% das propriedades capixabas eram irrigadas. Hoje, calculamos estar entre 55% e 60% das propriedades. É um volume muito elevado, que contribui para o uso mais adequado da água".
Há, entretanto, preocupações. Tanto as barragens como os sistemas de irrigação estão muito concentrados nas propriedades do Norte e Noroeste do Espírito Santo. No caso da irrigação, a região Serrana também tem sua força. O Sul do Estado encontra-se em situação de maior fragilidade e vai precisar de mais atenção no decorrer do El Niño e, claro, depois que o fenômeno acabar.
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