Um estudo rigoroso do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), conduzido pela economista brasileira Isadora A. Frankenthal, acaba de produzir uma das conclusões mais contundentes — e mais incômodas — do debate público contemporâneo: a expansão do iFood reduziu a criminalidade em São Paulo.
Não é opinião, não é ideologia, não é narrativa. É ciência aplicada com dados georreferenciados, eventos escalonados, modelos robustos e o universo de registros criminais do estado analisado por quase uma década. O estudo examinou a entrada do iFood nos municípios paulistas entre 2011 e 2019 e encontrou um efeito cristalino: queda de 13,9% nos crimes contra o patrimônio por habitante, equivalente a 529 delitos a menos por município ao ano. Poucas políticas públicas na história recente do país produziram algo parecido. Um aplicativo conseguiu.
Nos bairros mais pobres — aqueles que registram 50% mais criminalidade do que a média — a redução foi ainda mais intensa: 17 pontos percentuais, chegando a 26,7% nos crimes violentos. É extraordinário. É como se a presença de uma plataforma tivesse corrigido, ainda que parcialmente, décadas de omissão estatal.
O mecanismo identificado pelo MIT é simples e devastador para quem tenta negar a realidade: o iFood aumenta o custo de oportunidade do crime. O entregador médio — 95% homens, 29 anos, metade sem ensino médio — tem o mesmo perfil socioeconômico do autor típico de furtos e roubos. Mas agora ele tem uma alternativa real, imediata e financeiramente superior: ganha 65% mais por hora que nas ocupações tradicionais disponíveis para esse grupo, e recebe o pagamento na hora. Não é teoria: é incentivo econômico na veia.
O dado mais impressionante do estudo é quase brutal em sua clareza: nos horários de pico — almoço e jantar —, quando a remuneração explode, os roubos violentos despencam 19,1%. Quando o ganho potencial é menor, o crime cai menos, mas cai. A curva de remuneração do trabalho espelha a curva de queda da criminalidade. É a economia explicando a violência com precisão cirúrgica.
E o mito persistente de que o delivery “transfere” crime para outros lugares? O MIT derruba sem esforço. Não houve qualquer deslocamento de criminalidade. Não migrou para bairros ricos. Não migrou para cidades vizinhas sem iFood. Não aumentou nas regiões de maior circulação de entregadores. O crime simplesmente diminuiu — principalmente onde sempre foi mais alto.
Entre 2015 e 2020, o número de entregadores associados ao iFood saltou 984%, atingindo 537.964 trabalhadores em 2020. Em 2022, o número total de motoristas e entregadores de aplicativos no país chegou a aproximadamente 1,5 milhão. A gig economy, longe das caricaturas ideológicas, tornou-se uma das maiores plataformas espontâneas de inclusão produtiva do Brasil moderno — e agora sabemos que é também uma das mais eficientes políticas de redução de criminalidade, sem exigir gasto público, sem criar estruturas artificiais, sem depender do Estado.
Diante de evidências tão robustas, resta uma pergunta moral que não pode mais ser adiada:
Quem, por dogmatismo, insiste em atacar ou restringir a gig economy está disposto a assumir a responsabilidade pelo aumento da criminalidade que inevitavelmente decorre da ausência dessas oportunidades? Está preparado para carregar nas próprias mãos a mancha de sangue de crimes que poderiam ser evitados?
O debate sobre trabalho por aplicativo não é sobre romantizar dificuldades. É sobre reconhecer que, para milhões de brasileiros, liberdade, autonomia e renda imediata são as únicas alternativas reais ao mercado informal — ou ao crime.
O MIT apenas confirmou, com método, aquilo que muitos fingem não ver: quando a oportunidade chega, o crime recua. E quando a liberdade econômica se impõe, vidas são salvas.