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Uso de capacete

Para quem o peão tira o chapéu: para a tradição ou para a segurança?

Duas reportagens recentes reacenderam o debate ao noticiar que fiscalizações têm exigido, com base na NR-31, a substituição do tradicional chapéu por capacete de proteção em determinadas atividades rurais, sob pena de multas às fazendas
Alberto Nemer Neto

Publicado em 

10 fev 2026 às 04:00

Publicado em 10 de Fevereiro de 2026 às 07:00

Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra do quadro clássico do programa do Raul Gil: “Para quem você tira o chapéu?”. A lógica era simples, mas potente: diante de um dilema, o convidado precisava escolher um lado — e assumir publicamente sua posição.
Pois bem. No campo brasileiro, essa pergunta voltou à moda. Só que agora não é mais sobre celebridades ou polêmicas televisivas. É sobre algo bem mais sério: o chapéu do peão ou o capacete de segurança.
Duas reportagens recentes reacenderam o debate ao noticiar que fiscalizações têm exigido, com base na NR-31, a substituição do tradicional chapéu por capacete de proteção em determinadas atividades rurais, sob pena de multas às fazendas, mesmo quando o trabalhador se recusa a utilizá-lo.
Vaqueiro, cowboy, pasto, cavalo
Trabalho no campo Crédito: Pixabay
E aí surge a pergunta inevitável: estamos protegendo vidas ou atacando a cultura?
O chapéu não é apenas um acessório. Ele carrega identidade, pertencimento e tradição. Na música sertaneja, o “cowboy” não aparece de capacete. Ele cruza estradas de terra, encara o sol forte, vive a lida bruta — sempre de chapéu na cabeça. Tirar isso de cena soa, para muitos, como apagar um símbolo.
Mas o Direito do Trabalho não se move por símbolos. Ele se move por risco.
A NR-31 é clara ao estabelecer que, havendo risco à integridade física, o uso de Equipamento de Proteção Individual adequado é obrigatório. Chapéu não é EPI. Capacete, sim. E mais: a responsabilidade é do empregador, ainda que o peão resista, reclame ou simplesmente se recuse
Lei obriga peão a trocar chapéu…
Aqui está o ponto mais sensível do debate: não se trata de proibir o chapéu, mas de reconhecer que ele não substitui proteção técnica quando há risco de impacto, queda, choque ou manejo de animais de grande porte. A fiscalização não está “cancelando” a cultura rural — está reagindo a acidentes graves e fatais que vêm se acumulando nos últimos anos.
O problema é que a lei chega, muitas vezes, sem diálogo com a realidade cultural. O resultado é resistência, insegurança jurídica e até risco de perda de mão de obra, como relatado por produtores nas próprias reportagens. O peão experiente, que aprendeu o ofício com o pai e o avô, sente que o capacete não combina com a lida. Para ele, não é só desconforto físico — é identidade.
Mas, do outro lado, o empregador sabe: descumprir não é opção. Multa, interdição, passivo trabalhista e responsabilização em caso de acidente recaem integralmente sobre a fazenda. No fim do dia, não é uma escolha romântica. É uma escolha jurídica.
Voltando ao velho quadro do Raul Gil, talvez a resposta mais honesta seja esta: o chapéu continua na cabeça da cultura, mas o capacete precisa estar na cabeça da operação.
Tradição e segurança não são inimigas. O desafio está em conciliar — com treinamento, conscientização e, sobretudo, bom senso regulatório. Porque proteger vidas não deveria soar como ataque à cultura. E preservar a cultura não pode servir de escudo para ignorar riscos reais.
Se a pergunta é “para quem você tira o chapéu?”, a resposta jurídica é clara.
Mas talvez o caminho mais inteligente seja não precisar tirá-lo — apenas saber quando trocá-lo.
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