2025 termina com a marca do ano da escalada dos conflitos das elites, do caos político em Brasília e do retorno da sensação de que o Brasil volta a entrar em processo de entropia.
Desde 2013, esse processo vai e volta. Outro dia, também Fernando Gabeira registrou a entropia como fato de realidade. Diz ele que é “no sentido de que algo está se decompondo, como uma barra de gelo”.
Diz também, se referindo à crise entre os Três Poderes: “O governo em crise com o Congresso em crise com o Supremo parece ter entrado num labirinto assustador”. É realmente um panorama de caos político.
Com efeito, já há muitos anos, a política brasileira fecunda e é fecundada por um processo entrópico de causação circular. A fragilidade crescente do centro de poder desencadeia vestígios marcantes de anomia social, que retroalimenta a fragilidade e instabilidade do centro de poder.
Já registrei aqui que o movimento de causação circular esgarça e desorganiza a coalizão de poder politicamente dominante – vale dizer, o bloco no poder. O ciclo político entra em ocaso e vai retirando da política o exercício da sua função primordial de articulação e agregação de interesses.
No caldeirão acelerado da causação circular, aprofunda-se o horizonte de entropia, exacerba-se a anomia. Tudo temperado por uma vertigem generalizada no conjunto das lideranças políticas relevantes. Resultando em ausência de capacidade convocatória para o diálogo da busca do horizonte.
A resultante (maligna) da conjunção de crises – política, econômica, social, cultural e de legitimidade – é o pessimismo e a ausência de expectativa de futuro na sociedade. Caldo de cultura da involução e regressão. Está em curso uma diáspora gradual de jovens brasileiros.
Paradoxalmente, só a política pode achar e construir uma saída, que implica em fazer duras escolhas. Nos últimos anos, o nosso Leviatã (o Estado brasileiro) cresceu muito, com a retomada e fortalecimento do patrimonialismo dos Três Poderes da República. Há um conjunto de privilégios adquiridos. Cada vez mais objetos de críticas e repulsas da sociedade.
A democracia brasileira permanece de pé. As algaravias do ambiente político conflagrado e tensionado ainda não conseguiram derrubá-la. Mas ela (a democracia) ainda é “devedora” das entregas prometidas à sociedade brasileira. Esse “déficit” de entregas impulsiona o populismo, que por sua vez impulsiona o patrimonialismo.
Desde a Constituição de 1988, a democracia deu passagem a organização, manifestação, circunscrição e aceitação de demandas e interesses dos mais diversos setores sociais, que geraram direitos legítimos, mas também privilégios adquiridos.
Nesse específico sentido, a democracia, com a explosão de demandas e pressões de uma miríade de grupos de interesses, parece responsável legítima pelo inchaço do Estado e do governo. O efeito perverso foi o fantasma permanente de crise fiscal e escassez.
A escassez, por sua vez, gera uma contradição em termos, uma disfuncionalidade: a democracia sobrecarregou-se de obrigações e distorceu-se em nome do atendimento de interesses específicos, ao mesmo tempo em que diminuiu a capacidade de entrega do Estado e do governo. O Estado sobrecarregado deslegitimou a ordem restaurada lá atrás com a Nova República de 1988.
Fim de ciclo. A explosão da dívida pública não permite mais o modelo de crescimento com endividamento e a estratégia de remar e "pedalar para a frente”. A bicicleta pode cair outra vez em 2027. O Estado não cabe no PIB. Com repercussão negativa para os jovens de hoje, gerações futuras.
E daí? Daí que está na hora de mudar a agenda. Para estancar a entropia política, a anomia social e a possibilidade – sempre latente – de exacerbação da tensão social (como em 2013).
Já agora, passada a pausa política de janeiro e, logo depois, o carnaval. Pois que as águas de março vão trazer, agora para valer, o início do ciclo político-eleitoral de 2026. Novo ciclo, novas eleições gerais. Ambiente propício para debater a revisão da agenda.
O Leviatã brasileiro (leia-se os Três Poderes da República) contém contradições paralisantes que produzem o vírus da deslegitimação do Estado e dos governos e da própria ameaça à democracia. É preciso quebrar esse círculo vicioso.
Tenho registrado também que, sendo historicamente uma nação adolescente, o Brasil precisa passar por uma restauração que advenha de novas escolhas e novos caminhos históricos, para além da algaravia de Brasília. Restauração com reformas políticas e institucionais.
Dialogar, em 2026 e depois, para construir capacidade convocatória na direção de uma nova agenda nacional. Capacidade convocatória do novo presidente da República e do novo Congresso Nacional – eleitos em 2026 – para a efetiva ação de dialogar com as forças políticas, sociais e empresariais que poderão configurar um novo bloco de poder.
É esse o nome do jogo: novo bloco de poder. Com novo ambiente e nova estrutura político-institucional.