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Economia

Segurança e soberania alimentar no Brasil: uma questão de dignidade

A crescente produção brasileira do agronegócio está voltada para alimentar processos especulativos com estoques ao invés de levar comida a preços compatíveis para parcelas crescentes da população

Publicado em 08 de Setembro de 2022 às 00:10

Públicado em 

08 set 2022 às 00:10
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

arlindo.villaschi@gmail.com

Em diversas versões, todas as culturas desde sempre pregam o "economizar em tempo de vacas gordas para ter quando o das vacas magras chegar". Com a chegada do agronegócio em tempos de globalização, apologistas de ambos prometeram que vacas magras aqui podem ser compensadas por vacas gordas em outros lugares do mundo e que o mercado faria automaticamente encontro de carências e abundâncias. Lamentavelmente mais um promessa descumprida pelo neoliberalismo.
Por quê? Porque a liberdade total de mercado leva à concentração do poder econômico de poucos produtores ou intermediários. No caso de alimentos isso significa que os quatro maiores negociadores de grãos intermedeiam há décadas mais de 70% do que é produzido e consumido no mundo. O resultado são lucros crescentes dessas poucas multinacionais mesmo quando os consumidores têm dificuldades financeiras para comprar alimentos.
Lucros advindos de processos especulativos com estoques controlados por poucas empresas. Resultado: mais de 345 milhões de pessoas no mundo passam por severa insegurança alimentar. Mais do que o dobro dos que se alimentavam de forma precária antes da Covid-19.
A especulação sempre se aproveita de toda e qualquer oportunidade para ampliar ganhos financeiros de quem efetivamente exerce o controle de estoques de alimentos no mundo atual: os especuladores. Redução de safra provocada por mudanças climáticas é uma oportunidade. A guerra na Ucrânia é outra. Nenhuma surpresa, portanto, que diante de momentos de fome crescente no mundo, esses infortúnios transformem oportunidades para lucros crescentes de oligopolistas atuando no mercado de alimentos.
A passividade de governos, de maneira geral, diante dessa situação é incompreensível. Ela se torna um absurdo quando se trata do governo brasileiro. Absurdo porque o Brasil é dos maiores produtores mundiais de grande número de alimentos e ainda assim o número de pessoas em insegurança alimentar aumenta ano a ano desde 2016, e esse aumento se acelerou desde 2019.
Absurdo porque a crescente produção brasileira do agronegócio está voltada para alimentar processos especulativos com estoques ao invés de levar comida a preços compatíveis para parcelas crescentes da população. A omissão governamental diante desse paradoxo só se explica pelo exagerado apego que governantes do Brasil têm aos dogmas do neoliberalismo.
Dogmas que naturalizam o empobrecimento da maioria e o enriquecimentos de poucos. Que imobilizam a ação governamental diante das possibilidades de agregar de valor ao que é produzido no país antes de exportar. Que pratica a política de porteira aberta à importação de insumos, máquinas, equipamentos e tecnologia que podem ser produzidas no país aumentando renda e trabalho. Que despreza políticas públicas de financiamento e apoio técnico à produção da agricultura familiar em todos os níveis, inclusive o estadual e municipal.
Dogmas que dobram o país aos interesses de poucos produtores de agrotóxicos que transformam em veneno alimentos produzidos com sua utilização. Que desconsideram o potencial do Brasil de produzir comida saudável - para consumo interno e exportação - a partir de sementes crioulas e outras que utilizem conhecimentos desenvolvidos em diversas partes do país com reconhecidas competências de universidades, institutos de pesquisa sob a coordenação da Embrapa.
Práticas do neoliberalismo encastelado em diversas instâncias governamentais no Brasil que priorizam a exportação de commodities em detrimento da segurança alimentar da população e de produção e manejo sustentáveis. Que pelo descaso com a riqueza de nossa biodiversidade e com práticas agrícolas seculares de povos das florestas e quilombolas tornam o Brasil cada vez menos soberano na produção de alimentos; cada vez mais predador de solos e de águas.
Mais do que uma questão econômica, assegurar alimentos de qualidade a todos a partir de práticas de produção que utilizem tecnologia e insumos produzidos majoritariamente no país precisa passar a ser uma questão de dignidade para o Brasil e sua gente.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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