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Mudança

Sobre hábitos adquiridos na pandemia e o que se aprende com eles

É com estas pequenas observações que aprendo a aceitar e a entender o que está acontecendo e como as circunstâncias que fazem girar o universo nunca são permanentes

Publicado em 22 de Dezembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

22 dez 2020 às 05:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

blyra@uol.com.br

Pela manhã, o chamado “astro rei” brotava atrás de uma ponta de pedra
Pela manhã, o chamado “astro rei” brotava atrás de uma ponta de pedra Crédito: Guitar_Tawatchai/ Freepik
Tem coisa mais boba que ficar na janela espreitando o nascimento do Sol? Pois é o que venho fazendo nesta reclusão. Pode parecer maluquice, mas é um hábito conveniente, entre tantos outros que as pessoas adotaram no isolamento, desde que essa pandemia infernal começou. Tem quem faça pão. Tem quem se descubra poeta. Tem quem nunca bordou e comece a bordar. Tem quem, mal acorda, cheira tudo o que vê pela frente para se certificar que está livre do ataque do vírus. Vale tudo para a gente se convencer que está com saúde física e mental.
Esta minha mania começou no outono. Quando, por conta da pandemia, me enclausurei. Só me restava olhar a rua lá fora através das janelas. Pela manhã, o chamado “astro rei” brotava atrás de uma ponta de pedra, nas alturas da mata que cobre o maciço central desta Ilha. Por falar em maciço central, raro o dia em que não se enxerga uma queimada na mata dali. Primeiro é uma fumaça subindo. Depois, uma clareira. E logo vai surgindo uma casa, pendurada por dentro da vegetação outrora quase impenetrável. E, a cada noite, mais luzes de postes improvisados vão se acendendo no rumo do pico.
Mas sou versada apenas em admirar a variedade do verde, aqui e ali cortado pela coroa grená ou amarela de alguma arvorezinha que descobriu a primavera nessa imensa pedra que se abre como as asas de um anjo de guarda sobre a cidade. Então, deixo esse assunto de preservação e urbanização para quem entende, quem tem mais competência. E volto à andança horizontal do nascimento do Sol.
A cada manhã, o Sol aparece sempre um pouco mais adiante que o ponto anterior em que estava. Agora, com o solstício de verão, sobe um pouco à esquerda das torres da catedral e bate obliquamente em minhas vidraças, antes acostumadas à sua plena luz.
Uma das muitas coisas que a gente aprende na escola é aquele desenho em que uma figurinha de braços abertos em forma de cruz estende o braço direito para ensinar que o Sol nasce no leste, o norte fica à frente, o sul nas costas e o oeste na direção do braço esquerdo. Só que o leste nem sempre é o leste; o oeste nem sempre é o oeste.
Não estranhem que eu esteja a escrever observações tão pequenas, quase futilidades, deste meu hábito pandêmico forjado na espuma desses dias terríveis. Pois é com estas pequenas observações que aprendo a aceitar e a entender o que está acontecendo e como as circunstâncias que fazem girar o universo nunca são permanentes. Nem mesmo aquelas que parecem imutáveis, como o ponto cardeal de nascimento do Sol.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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