Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Sobre leões e golfinhos

Negócio só pode ter vida longa se houver preocupação com o seu entorno

Corrigir uma falha social histórica, reduzir a desigualdade e gerar mais bem-estar coletivo são apenas a consequência. A política inclusiva aumenta o consumo e, portanto, as vendas e a sustentabilidade de longo prazo do negócio

Publicado em 29 de Setembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

29 set 2020 às 05:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

cassiomoro@gmail.com

Empresas precisam se preocupar cada vez mais com o ambiente onde está inserida
Empresas precisam se preocupar cada vez mais com o ambiente onde estão inseridas Crédito: Pixabay
Cenas típicas de nosso imaginário de infância: a primeira, um leão apresentado no picadeiro deslocando-se e rugindo conforme ordem do domador, para evitar uma chicotada; a segunda, um belo salto triplo de um golfinho que, feita a manobra, é presenteado com uma sardinha fresca.
O adestramento de animais para o show business é questionável e perturbador. O ideal é reinseri-los em seus habitats naturais, mas, como se sabe, a perda de habilidades pode dificultar a sobrevivência, o que exige alguma preparação e, ainda assim, o local deve ter algum controle e possibilidade de rápida intervenção, como ocorre nos parques de preservação.
De modo semelhante, o mercado, quando adestrado, é submetido a chicotadas ou presenteado com sardinhas. Sua forma absolutamente livre na natureza, o capitalismo selvagem, nunca funcionou muito bem, dada a tendência autofágica da acumulação de riquezas, que demonstra a inexistência de tendência ao equilíbrio, ao contrário do que ocorre nas diversas cadeias alimentares achadas em florestas e oceanos.
As chicotadas podem ser vistas como o autoritarismo da lei, que pune severamente aquele que descumprir uma obrigação. Já a sardinha seria o incentivo para a realização de algum evento. Sob ordens, inexiste vontade. Sob a promessa, o sujeito decide ser premiado ou continuar na mesma.
Paul Krugman (Nobel de Economia 2008) nos diz que o cerne da economia é a escolha individual e, dentre seus quatro princípios subjacentes, o último é que “as pessoas, em geral, respondem a incentivos, explorando as oportunidades de melhorar de situação”. Isso significa que, ao invés de simplesmente punir aqueles que agem contra os fins da sociedade, o Estado pode incentivar as boas práticas, o que permitiria maior participação volitiva da iniciativa privada que o mero cumprimento de um dever.
Como exemplo, o autor cita a ineficácia de um plano que pede a industriais a redução voluntária da poluição, enquanto o mesmo pedido acompanhado de vantagens financeiras teria muito mais chances de êxito.
Como se vê no exemplo, a função social da propriedade tem pouca aceitação entre os empresários enquanto mera obrigação jurídica. Ainda que constitucional (art. 5º, XXIII), só se cumpre por imposição, normalmente após fiscalizações administrativas ou condenação judicial. Dentro de uma nova perspectiva de mercado, todavia, tem-se encontrado o estímulo que faltava para a adoção de medidas sociais no exercício da propriedade e do empreendedorismo.
Recentemente um grupo de importantes empresas brasileiras associou-se a ONGs e governos estrangeiros para fazer pressão contra o desmatamento (Globo, 17/09/2020). O incentivo? A perda de demanda e de investimentos no país em razão da péssima imagem no exterior exigem uma postura social ativa para o retorno dos negócios.
Noutro bom exemplo, enquanto a administração pública tem o dever legal (imposição, chicote) de realizar processos de admissão reservando uma pequena cota racial, uma grande empregadora brasileira foi além e criou um programa de trainees destinado apenas a negros, o que já vem sendo replicado por seus pares (Valor, 24/09/2020).
Mas qual o estímulo, a sardinha, já que não há qualquer obrigação legal para tanto? Corrigir uma falha social histórica, reduzir a desigualdade e gerar mais bem-estar coletivo são apenas a consequência. A política inclusiva aumenta o consumo e, portanto, as vendas e a sustentabilidade de longo prazo do negócio. De quebra, eleva a imagem da marca e o valor de suas ações. Win-win, empresa e sociedade saem ganhando.
O que leva empresários a mudarem o foco, antes pautado no lucro de curto prazo, desprezando as externalidades e, agora, voltado a gestão de partes interessadas, não é um gratuito espírito altruísta, tampouco a coação legal. É a visão de que o negócio só pode ter vida longa e lucrativa, sem fragilidades nos momentos de crise, se houver preocupação com o seu entorno, traduzindo-se em políticas que melhoram as condições de seus trabalhadores, consumidores, meio ambiente e até de futuras gerações. É a mudança do shareholder capitalism para o stakeholder capitalism, com a consequente aceitação de que o princípio da função social da propriedade é vantajoso para o negócio.
Talvez este seja o caminho de reinserção do mercado ao seu habitat natural. O capitalismo de partes interessadas demonstrou que houve a devida preparação para uma conduta mais livre e menos egoísta. Ao Estado cumpre o papel de observador e incentivador, devendo reduzir a burocracia e o autoritarismo, e aumentando sua parceria e incentivos. Para as empresas, o importante, ainda, é saber escolher entre lutar pela sardinha ou não levar uma chicotada.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

As eleições presidenciais continuam em aberto: cadê a terceira via?
Aniversário de 80 anos de Nelson Ferlin
Nelson Ferlin celebra 80 anos com festa em família em Vila Velha
Unidade da Audionova inaugurada em 2024 em São Paulo
Multinacional suíça anuncia compra de empresa capixaba

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados