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Saúde mental

Depressão: o corpo fala e dá sinais de que algo não está caminhando como deveria

Ou nos debruçamos sobre esse problema que, a despeito de se manifestar de modo individual, é um problema de saúde pública, ou continuaremos a ser surpreendidos, cada vez com mais frequência, com notícias que nos provocam dor e sofrimento
Elda Bussinguer

Publicado em 

02 dez 2025 às 03:00

Publicado em 02 de Dezembro de 2025 às 06:00

Os números da depressão e do suicídio continuam a crescer no país e no mundo, nos levando a constatar que existe uma verdadeira epidemia silenciosa, sobre a qual não possuímos qualquer tipo de controle nem é possível esclarecer exclusivamente com o arcabouço teórico da ciência moderna, todo ele baseado em uma racionalidade instrumental dependente de explicações que se sustentam em uma relação cartesiana de causa e efeito que nem sempre se aplicam ao caso concreto.
De um modo geral, nos colocamos, quase sempre, no lugar inatingível de pessoas que se julgam imunes a essa condição, associada, quase sempre, e equivocadamente, a uma fragilidade psíquica e emocional. Na realidade, o problema está mais perto de nós do que podemos imaginar.
Além de todas as razões de natureza química, ligadas a quantidades insuficientes de neurotransmissores, que banham nossos neurônios, tais como serotonina, dopamina, temos ainda muitas outras razões que se interconectam, produzindo interações altamente complexas, geradoras de depressão.
Não há como desconsiderar que fatores genéticos, hormonais, estilo de vida, baseado no estresse, no cansaço, na incapacidade de dar conta de uma sociedade hiperinformada, hipercompetitiva e hiperconectada, também podem se constituir elementos desencadeadores de desequilíbrios psíquicos.
A ruptura de laços familiares e o distanciamento com a natureza e com os outros seres vivos nos levam muitas vezes a viver envolvidos em atividades que giram em torno de nós mesmos, sem as interações necessárias e virtuosas dos encontros pessoa a pessoa, olhos nos olhos, que nos fortalecem criando redes de apoio e de afetos que nos permitem resistir e superar momentos de crise.
Isolados que estamos em nossas redes sociais e em um mundo de virtualidade radical, nos perdemos de nós mesmos e do próprio sentido da vida.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, cerca de 5,8% da população brasileira sofre de depressão, o que equivale a 11,7 milhões de pessoas. Em estudo realizado pelo Ministério da Saúde, esses números podem chegar, nos próximos anos, a 15,5% da população brasileira. A desigualdade social, eventos adversos — como doenças, desastres ambientais, desemprego, doenças crônicas, exposição a violências múltiplas, vulnerabilidades em geral — a falta de políticas públicas direcionadas, o preconceito que adia o diagnóstico, o estigma que causa vergonha e faz com que o problema seja escondido de familiares e nos locais de trabalho, dentre outros que se somam à carência de profissionais especializados, têm contribuído para o agravamento do problema no Brasil. Mulheres, em razão de questões de natureza hormonal e de exposição a violências e maior carga de trabalho, estão mais suscetíveis.
Ou nos debruçamos sobre esse problema que, a despeito de se manifestar de modo individual, é um problema de saúde pública, ou continuaremos a ser surpreendidos, cada vez com mais frequência, com notícias que nos provocam dor e sofrimento, como depressões profundas e incapacitantes do exercício mínimo da vida profissional e pessoal, suicídios, demissões, separações, entre outros.
Não dá para fechar os olhos e ignorar os sinais que parecem nos avisar que já passou da hora de nos movimentarmos para o enfrentamento deste que é, hoje, um dos maiores problemas que a humanidade já enfrentou. É de conhecimento geral as dificuldades encontradas para agendamento de médicos psiquiatras nos serviços públicos e nos planos de saúde no Brasil. De acordo com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil temos apenas 6,69 psiquiatras por 100 mil habitantes, a terceira menor taxa dentre os países analisados, sendo que a maioria está concentrada no Sul e no Sudeste.
Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), existem apenas 19 psicólogos para cada 100 mil habitantes no SUS, o que inviabiliza totalmente a efetivação do Direito Fundamental à Saúde Mental no país. O problema da formação profissional na área da saúde mental exige política pública específica para esse fim.
Saúde mental, depressão, burnout, estresse no trabalho
Saúde mental Crédito: Freepik
É preciso admitir que avançamos de forma extraordinária na inovação tecnológica, mas nosso físico e nossa psiquê não acompanharam de modo compatível e equilibrado todo esse avanço que fomos capazes de produzir na sociedade da 4ª Revolução Industrial.
O corpo fala e dá sinais de que algo não está caminhando como deveria. Entretanto, se não estivermos atentos e preparados para ler esses sinais, que às vezes se mostram de formas sutis, não conseguiremos ajudar como poderíamos aqueles que sofrem.
As escolas precisam abrir espaços de reflexão e debate sobre o tema. Há pessoas ainda jovens sofrendo solitariamente, completamente sozinhas e sem entender o que está acontecendo com elas. Sabem que estão sentindo uma dor profunda, contínua, associada à falta de força, de interesse e de coragem para enfrentar os problemas cotidianos, mas não entendem o que é isso, e não percebem que precisam de ajuda e, por esse motivo, não a pedem.
Vejo pais e mães desesperados, angustiados, perdidos, sem saber o que fazer e como agir. Os mais avantajados economicamente conseguem tratamentos medicamentosos que amenizam o problema, mas não o resolvem. Os mais vulneráveis nem a isso têm acesso e ficam abandonados pelo poder público que ainda não tem políticas de acolhimento inclusivas e suficientes para dar conta de problema tão complexo.
É preciso abrir espaço para o debate qualificado do tema, com estratégias de acolhimento da dor e do sofrimento que a depressão produz. Falar sobre ela é desmistificar o que é, muitas vezes, jogado para debaixo do tapete, nos tornando mais sensíveis, mais compreensivos e mais eficazes em nossas estratégias de enfrentamento.
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