Há uma epidemia em ascensão no Brasil e ela precisa ser estancada de forma radical e urgente. Segundo o Mapa Nacional de Violência de Gênero, somente no primeiro semestre de 2025, 718 mulheres foram assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Nesse ritmo, até o final do ano, chegaremos, certa e infelizmente, a 1500.
Essa investigação, realizada pelo Observatório da Mulher Contra a Violência, do Senado Federal, indicou que, no mesmo período, foram registrados 33.999 estupros contra mulheres no país o que representa uma média de 187 estupros por dia. Em 2024 foram 71.892 registros de estupro.
Segundo dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, em pesquisa realizada em parceria com o Observatório, 21,4 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão no último ano e 3,7 milhões sofreram violência doméstica, isso considerando, exclusivamente, os dados que chegam a conhecimento público, seja por pesquisas, seja por registros oficiais, e que passam a fazer parte das estatísticas.
A sociedade, de alguma forma, por comodismo, por medo ou por naturalização da violência, assiste impassível aos atos praticados por homens que violam a dignidade das mulheres, que as humilham, ferem, maltratam e matam. Os dados são assustadores.
Segundo a pesquisa do DataSenado, cerca de 71% das violências cometidas por homens contra mulheres são praticadas na presença de outras pessoas, filhos ou adultos, sendo que desses adultos que presenciaram a violência quase a metade, 40%, não agiu no sentido de impedir a agressão e ajudar a mulher que estava sofrendo a violência.
Para além disso, a subnotificação é uma realidade. Milhares de meninas e mulheres são estupradas todos os dias em nosso país e ninguém fica sabendo. Segundo dados do Unicef, uma em cada 8 mulheres sofreu estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. Se incluirmos nessa estatística as violências virtuais e verbais, esse número sobe, chegando a uma em cada 5 meninas. Essas meninas estão ao nosso redor, no seu e no meu entorno, e nós não sabemos da dor que habita aquele corpo, comprometendo o futuro e uma vida digna.
A cultura do silenciamento, da vergonha e da culpa introjetada nas mulheres desde muito cedo atua no sentido de que elas sofram caladas, preservando homens nojentos que deveriam estar na cadeia respondendo por seus crimes odiosos e hediondos e que estão por aí, circulando livremente, vestidos da persona de homens íntegros e defensores da família, dos bons costumes e do cristianismo.
São centenas de milhares de homens que cometem crimes e continuam, nos púlpitos e nos bancos das igrejas, nos consultórios médicos, nas escolas, no parlamento, nas redes sociais, e em todos os espaços públicos, defendendo valores relacionados à família tradicional e ao cristianismo, enquanto, às escondidas, usando seu poder de autoridade religiosa, profissional, de pais, de patrões, de professores ou de simplesmente homens e continuam a praticar violências as mais diversas contra mulheres, comprometendo a vida e a saúde física e mental de tantas que nunca mais se recuperarão do trauma sofrido.
Ninguém está livre dela. A violência contra mulheres é epidêmica, sistêmica e está institucionalizada. Ela tem potencial para destruir a vida de homens e de mulheres, ainda que em proporção e dimensões muito diferentes. Se você homem não se mobilizar, ela chegará até você, a sua casa e as mulheres que vocês, homens, dizem amar, proteger e querer bem.
Se não for por justiça, por caráter humanitário, por consciência, por defesa dos direitos humanos, que sua mobilização seja por inteligência e capacidade de analisar o cenário e ver que as consequências dessa violência comprometem toda a sociedade. A violência contra as mulheres está aumentando e ela não ficará restrita àquelas mulheres que estão distantes de você e que serão estupradas sem que você nem ao menos tome conhecimento.
Na velocidade em que a violência avança, ela chegará, mais rápido do que você imagina, à sua filha, por mais que você venha a protegê-la, construindo uma redoma de vidro blindado no entorno dela. Ela chegará à sua esposa, que você considera só sua, objeto do seu prazer e deleite. Poderá chegar à sua mãe, que você diz amar acima de tudo e de todos. Ela chegará a sua irmã e a todas as mulheres que você afirma amar.
Ela poderá chegar ao seu filho, homem como você, criado a sua imagem e semelhança, forjado em uma cultura patriarcal e machista, que mesmo sendo um bom menino, educado, inteligente e carinhoso, se deixará levar pelo sentimento de superioridade introjetado pela naturalização da condição de inferiorização e objetificação das mulheres, e agredirá namorada, esposa ou amiga. Começando pela violência psicológica, patrimonial e física até o limite da morte de uma mulher. Você poderá ter que visitá-lo na cadeia, ainda que o cárcere esteja, no Brasil, injustamente destinado apenas a pobres e pretos.
Ainda que você não fique sabendo, a violência chegará, e talvez já tenha chegado, às mulheres de sua igreja, que você considera santas e puras, e que provavelmente são, mas que realizaram abortos normalmente inseguros, porque tiveram vergonha de dizer que foram estupradas dentro ou fora de casa, ou da igreja.
Segundo as estatísticas, 70% dos abortos no Brasil foram cometidos por mulheres que se declaram cristãs e que continuam a frequentar as igrejas, enquanto seus maridos repetem ladainhas violentas contra aquelas que defendem o aborto legal.
É hora de nos engajarmos na luta contra a violência contra a mulher.
Enquanto homens se sentirem socialmente autorizados a matar e violentar mulheres, não haverá democracia em nosso país.