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Machismo

Homens trabalhando com seus filhos no colo são valorizados. Mulheres, não

A atitude machista contra a advogada que em home office amamentava seu bebê de apenas 6 meses é representativa de uma cultura que faz questão de lembrar às mulheres que o lugar delas continua a ser o trabalho doméstico

Publicado em 30 de Agosto de 2022 às 01:00

Públicado em 

30 ago 2022 às 01:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Em um mundo pensado, planejado, organizado e controlado por homens não há ainda lugar e nem direitos para as mulheres.
Enquanto o mundo gira em torno da órbita masculina, que deve irradiar luz, grandeza, sabedoria e força, às mulheres é destinado o espaço doméstico, privado, sob controle do homem que, segundo o código de “dever ser”, reproduzido e sustentado pelo patriarcado, deve ser amado e cuidado.
O lar, preparado para receber o homem que chega da rua, do espaço público, como se herói fosse e, portanto, único detentor de direitos e desejos, é espaço feminino, locus, por excelência, graça e determinação do divino, da atuação da mulher.
É somente na casa, com seus afazeres e suas tarefas repetitivas, monótonas e muitas vezes desinteressantes, que as mulheres devem permanecer, de forma tranquila, felizes, serenas, resignadas e sempre prontas a receber aquele que por elas “lutam e trabalham” para sustentar o lar e seus ocupantes.
Colocadas a serviço do esposo, de sua prole e dos parentes que porventura possam necessitar de algum cuidado e atenção, as mulheres sofrem as consequências da cultura machista que lhes impõe um modo de vida pelo qual não optaram, privadas de direitos e de liberdade.
Ainda que estudem e trabalhem fora de suas casas e que sejam, muitas vezes, as maiores provedoras do lar, as mulheres continuam a ser vistas e tratadas da mesma forma que antes.
Permanecem como responsáveis pela educação dos filhos, pelas tarefas domésticas, pela manutenção da ordem familiar, que inclui limpeza da casa, alimentação, lavagem e passagem de roupas, e, dentre outras, acumulando duplas e triplas jornadas de trabalho.
Em tese, avançaram. Possuem, hoje, o direito de estudar, trabalhar, votar, viajar sozinhas, comprar imóveis e tomar decisões, desde que não firam a hierarquia masculina e que não coloquem o homem em condição de subordinação ou inferioridade a elas.
Está, então, posto o problema. As mulheres podem quase tudo que desejarem, desde que permaneçam em seus lugares, caladas, servindo e reproduzindo o status quo de uma sociedade com machismo institucional e estrutural.
Por mais que as portas lhes parecem abertas e que as oportunidades de crescimento pessoal e profissional lhes pareçam disponíveis, o certo é que os mecanismos e dispositivos de controle dos corpos e manutenção do status quo continuam a construir e sustentar estereótipos e comportamentos que visam à manutenção de corpos dóceis, recatados, a serviço e disponibilidade da família e da sociedade.
Trabalhando e disputando espaços no mundo corporativo, conciliando os estudos, as obrigações profissionais e da casa, atendendo às cobranças de manutenção de corpos saudáveis e belos, torneados segundo as regras de uma estética que não lhes favorece, as mulheres, muitas vezes, não percebem a sutileza dos processos discriminatórios engendrados na cultura patriarcal, machista e misógina.
Consomem sua energia, saúde e vida em atender às múltiplas exigências modernas do modelo de perfeição feminina , pensando viverem a saborearem os privilégios da cultura de libertação e opressão das mulheres vivida pelas gerações anteriores.
Objetificadas, despersonalizadas, coisificadas, continuam, muitas vezes, colocadas a serviço dos homens, enquanto guardam sentimentos contraditórios de incômodo e culpa quando não conseguem atender aos padrões estabelecidos por uma cultura constituída para manter no mesmo lugar e patamar os direitos masculinos.
Fico a imaginar os sentimentos de vergonha, constrangimento, inferioridade e dor que devem ter se abatido sobre a jovem advogada que, após ter seu pedido de preferência na ordem das sustentações orais em razão de estar em fase de amamentação negado, foi desrespeitosamente e indignamente agredida pelo desembargador Elci Simões da 2ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Amazonas.
A atitude machista, injusta e discriminatória contra a advogada que em trabalho de home office amamentava seu bebê de apenas 6 meses é representativa de uma cultura que faz questão de lembrar às mulheres que o lugar delas continua a ser o trabalho doméstico, privado e que, caso se arvorem na “petulância” de requisitar um outro lugar no mundo da vida, sofrerão as consequências de seu atrevimento.
O lugar das mulheres, senhor desembargador, é onde elas desejarem estar e, no caso das advogadas, os atores do sistema de justiça, inclusive os juízes, deverão se acostumar e se atualizar quanto aos direitos que elas possuem, evitando exposições que mais envergonham a magistratura do que às próprias mulheres.
Contraditoriamente, mas ao mesmo tempo claramente compreensível, se considerarmos a cultura de valorização do homem e desprezo pelas mulheres, um advogado que leva o filho para uma sessão do Superior Tribunal de Justiça e afirma que não desperdiça uma chance de estar junto com ele é elogiado pelo presidente do colegiado ministro Mauro Campbell, que, além de antecipar o julgamento, para preservar o advogado e a criança, afirma que o Tribunal está honrado com a presença de Lorenzo (o pai amoroso e cuidadoso).
Em suas redes sociais, o advogado, ao tecer elogios ao STJ afirmando que “mais uma vez o STJ se prova como um tribunal da cidadania”, se esquece de que o feito e o elogio estão vinculados ao seu gênero e não à sua atitude.
Fosse você uma mulher, Lorenzo, e o STJ, ou outro órgão do sistema de justiça, talvez não se manifestasse da mesma forma e com o mesmo respeito.
Homens trabalhando com seus filhos no colo são valorizados. Mulheres são desrespeitadas. É hora dos aplicadores da justiça repensarem suas práticas, lembrando que a igualdade e justiça são valores a serem defendidos e preservados.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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