Depois de 134 anos sendo comandado por homens, o Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo passa a ser conduzido por uma mulher, Janete Vargas Simões. A posse, realizada no Pleno do Tribunal de Justiça, com o auditório lotado, com pessoas em pé nas laterais e outras aguardando do lado de fora por não conseguirem entrar, evidenciava a importância do ato que ali se realizava.
Não era uma posse comum, uma transmissão do cargo de presidente de um Tribunal de Justiça, o que, por si só, já teria enorme relevância. O momento era histórico, de celebração, e todos os que estavam presentes sabiam avaliar a exata dimensão de sua grandeza e, nesse sentido, não queriam ficar de fora.
Momentos antes, em uma cerimônia igualmente bela e imponente, Janete Simões, ladeada pelo governador do Estado, Renato Casagrande, e pelo presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos, passa em revista a tropa. Contrastando com as roupas militares e os ternos formais e escuros das duas autoridades, Janete desfila com um vestido amarelo, discreto e elegante, com a leveza tranquila de quem sabe a seriedade e a responsabilidade do ato, mas que o faz com a dignidade e naturalidade exigida dos grandes estadistas.
O amarelo, certamente escolhido a dedo, parecia mandar uma mensagem de alegria, de otimismo, de força, de entusiasmo e de acolhimento. O final de tarde ensolarado, carregado de boas energias, parecia simbolizar o sentimento de satisfação e esperança que nos inundava a todos, especialmente às mulheres, que se viam representadas em Janete.
Sabíamos, todas, que ela não chegou ali por uma benesse de seus companheiros de Tribunal, apesar da unanimidade de votos que recebeu, ou por uma mera conjuntura que lhe foi favorável. Foram, certamente, anos de lutas por reconhecimento, por respeito, por dignidade, por credibilidade, forjando um caráter firme, pautado em uma ética irretocável, impondo-se a uma conjuntura adversa e desfavorável, toda ela direcionada para a ascensão masculina e não feminina aos lugares de poder.
Janete chegou lá porque teve coragem de lutar e de enfrentar os dissabores de ser mulher em uma sociedade machista, patriarcal e misógina. Ela chegou lá por seus méritos, que são muitos, por sinal, mas chegou lá também pelos méritos e pela coragem de tantas mulheres que, antes dela, pavimentaram o caminho para que ela pudesse ascender.
As lutas das mulheres por igualdade no casamento, por igualdade salarial, pelo direito ao voto, pela participação política, pelo acesso à educação e ao trabalho e tantas outras lutas foram determinantes para que tivéssemos, hoje, uma mulher na presidência do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.
A cerimônia de posse, formal, toda ela litúrgica, ritualística, solene, carregada de simbolismos que representam a formalidade do Direito e da Justiça, teve seu ponto alto no discurso proferido por Janete Simões, que marca que novos tempos se avizinham, tempos de esperança, de projetos virtuosos e de mais leveza.
No pronunciamento de Janete Simões, a força feminina se manifesta na delicadeza de um discurso potente, conciliador e acolhedor, carregado de mensagens denotativas do arquétipo feminino que, a partir de agora, servirá de modelagem para uma gestão do Tribunal de Justiça, comprometida com relações dialógicas, de natureza democrática, baseadas em estratégias tecnicamente estruturadas, mas fundamentalmente comprometidas com o ser autêntico que se coloca na busca por uma justiça justa e serena.
Intuição, em seu sentido fenomenológico, autenticidade, subjetividade carregada de rigor teórico metodológico, se conectaram em cada uma das abordagens feitas de forma objetiva, direta, clara e sem subterfúgios retóricos, desnecessários, diga-se de passagem, diante da grandeza do momento histórico que estávamos vivendo.
Acertou no tom, na linha argumentativa, nas mensagens diretas, não cifradas, fáceis de compreender, de acolher e de aderir. Trouxe para si o ouvinte e o convidou a seguir junto no projeto de tornar a justiça capixaba cada vez mais comprometida com a Constituição, com a democracia e com o jurisdicionado.
Se distanciou, sabiamente, da linguagem hermética, pomposa, superior, da qual muitos juristas se apropriam para se manterem em uma superioridade discursiva, desnecessária e incompatível com os tempos atuais. Colocou-se próxima e respeitosa de seus pares e dos demais servidores da casa, mostrando humildade, serenidade e competência.
A gestão não será fácil, certamente. São muitos os desafios, os percalços e os obstáculos, mas as mulheres estão acostumadas a viver, todos os dias, escalando montanhas intransponíveis, que lhes impedem de exercer plenamente suas potencialidades e sua criatividade.
Respeitosa de sua subjetividade, de seus projetos, de sua história, de sua honra, das desigualdades abissais que produzem injustiças e que precisam ser enfrentadas, também, pelo Judiciário, de seus compromissos éticos e de seus sonhos, a nova presidenta poderá fazer a diferença mostrando que as mulheres estão preparadas para alcançar níveis superiores de qualidade, eficiência e eficácia em tudo que se propuserem a fazer.
Um discurso que dignifica não apenas as mulheres, mas a própria Justiça, merece ser reconhecido e valorizado.