O nascimento de Jesus, que comemoramos no Natal, representa o advento do cristianismo e deveria ser, por isso mesmo, a festa do amor e do acolhimento, qualificadores representativos do Cristo, o Deus menino que se fez carne e habitou entre nós.
Amar, ainda que possa ser, de alguma forma, manifestado no ato de presentear, não está nele contido, sendo dele dependente. O amor, esse selo indicativo que demarca o cristianismo autêntico, princípio considerado mandamento norteador, explicitado no amor de Deus pela humanidade e no amor sacrificial de Jesus por nós, precisa ser representado por atos que envolvam a todos, de alguma forma, por meio de atitudes e palavras responsáveis, compromissadas e indicativas do compromisso maior com o Deus que queremos representar.
O amor deveria assumir assim a centralidade da vida dos cristãos, não apenas nos discursos proferidos dos lábios que se manifestam com discursos religiosos dos que se afirmam ser seguidores do Cristo, mas nos atos praticados todos os dias, no cotidiano de uma vida comprometida com um viver a partir dos princípios e diretrizes indicados por Ele.
O compromisso de amar como Cristo amou deveria trazer o amor para a centralidade de nossas vidas, manifestando-se não apenas nas relações que estabelecemos com aqueles com os quais compartilhamos a história cotidiana, seja em casa, nas relações amorosas e de amizade, seja no trabalho, mas, também, com aqueles com os quais não guardamos qualquer relação de conhecimento ou proximidade.
Assumir compromissos firmes de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos é, certamente, revermos a forma como consumimos e nos relacionamos com o planeta, descompromissados com a busca por igualdade, por respeito à diversidade, ampliando nosso espectro de tolerância, respeito e solidariedade.
Vivemos, no Brasil, a contradição de uma sociedade que se afirma cristã, defensora ardorosa, por via discursiva, dos mandamentos bíblicos, mas que se funda em uma perspectiva ética pautada na intolerância, na falta de compromisso ético, político e jurídico com a verdade, com o respeito aos interesses públicos, considerando cada um, parcela de uma sociedade que precisa ser justa, recebendo cada uma aquilo que lhe é de direito.
O cristianismo amoroso, respeitoso e acolhedor ensinado pelo Cristo precisa se introjetar em nossas consciências e em nossa cultura, se capilarizando não como obrigatoriedade de fé única a ser imposta sobre todos, mas de fé viva, que respeita a diversidade de crenças, de escolhas de vida, de posicionamentos políticos. Um amor que liberta ao invés de aprisionar e que acolhe ao invés de rejeitar, verdadeira busca por uma linguagem inclusiva e não intolerante e agressiva, que atrai e não dispersa.
O cristianismo vê a todos como foco destinatário do amor com que fomos amados e não como repositório de um amor que só a alguns deve ser destinado. O amor, como princípio cristão, respeita a laicidade e compreende a política como espaço de garantia de liberdade para que todos encontrem um terreno fértil no qual suas potencialidades possam florescer.
Desejar Feliz Natal, indiscriminadamente, presenteando a alguns com caros ou especiais presentes, não é viver o cristianismo autêntico. Viver o cristianismo autêntico é compreender a centralidade do amor como condição natural do ser cristão no mundo.