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Religião

O direito ao livre pensar e a inquisição nos dias de hoje

Recentes notícias divulgadas pelo Estadão envolvem igreja no episódio/documento que vem sendo chamado de “Inquisição Presbiteriana”

Publicado em 26 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

26 jul 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Li com tristeza e vergonha, mas sem nenhuma surpresa, a entrevista do presidente do Supremo Concilio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), reverendo Roberto Brasileiro, em sua manifestação acerca da posição da igreja no que respeita as recentes notícias divulgadas pelo Estadão envolvendo a IPB no episódio/documento que vem sendo chamado de “Inquisição Presbiteriana”.
O documento foi apresentado para análise e deliberação na 40ª Reunião do Supremo Concilio que está acontecendo em Cuiabá e deverá traçar os rumos da IPB para os próximos quatro anos.
A Igreja Presbiteriana do Brasil, denominação protestante que se autoqualificava como equilibrada e discreta, sem maiores repercussões na mídia ou polarizações políticas, com atuação mais interna do que externa, ligada à educação e tendo o Mackenzie como seu carro-chefe. Uma igreja que se vangloriava de sua ortodoxia, base doutrinária sólida, com consistente formação teológica de seus pastores, garantidora dos preceitos calvinistas de liberdade de consciência e de respeito ao Estado laico, a IPB encontra-se hoje em uma lastimável condição de exposição pública e negação, por parcela de sua liderança e membros, de todos os pressupostos e diretrizes que constituíram sua identidade pública por décadas.
Apoiadora de primeira hora do atual governo e incondicional defensora do presidente e de seu modus operandi, que trata sem qualquer constrangimento, como “o melhor presidente que o país já teve”, a IPB, por meio de parcela significativa de sua liderança e membros, abriu mão de sua credibilidade, respeitabilidade, honra e dignidade, em um esforço “institucional”, não se pode negar, de sustentar e manter no poder um brasileiro avesso a qualquer ordem, norma, princípio ou diretriz seja ela de caráter jurídico, seja ético.
Múltiplas são as justificativas encontradas, à guisa de explicação, para o atrelamento orgânico da IPB com o atual governo. Para muitos, o simples fato de o presidente declarar-se cristão, ter sido batizado no rio Jordão (ainda que o pastor que o batizou esteja preso), ser defensor da família e das pautas moralizantes, atualmente abraçadas pela igreja, já é razão suficiente para o comprometimento visceral, surdo e cego, por parte de seus membros, independentemente das evidências de seu distanciamento dos princípios basilares do cristianismo.
Depois de ter enfrentado em silêncio, sem qualquer pronunciamento oficial, as denúncias de corrupção e prisão de seu pastor ministro da Educação, Milton Ribeiro; depois de ser acusada de transformar seus púlpitos e igrejas em redutos partidários de apoio irrestrito àquele que consideram “mito”, “messias”, “profeta”, a Igreja Presbiteriana do Brasil, por meio de seu presidente, se apressou a vir a público dar explicações acerca das denúncias referentes ao projeto institucional que propõe a criação de uma Comissão de Inquisição Presbiteriana, para caça aos esquerdistas, marxistas, feministas e demais desafetos que ousam pensar diferente, e ter a coragem de não abrir mão de sua liberdade de consciência e política, contrapondo-se à diretriz institucional e aos riscos de se verem eliminadas da denominação.
Em entrevista-resposta às denúncias de perseguição religiosa aos esquerdistas, marxistas ou não, o atual presidente do Supremo Concílio, o STF da IPB, veio a público afirmar, peremptoriamente, que a igreja não interfere nas opções políticas de seus membros.
A afirmativa, que poderia ser comemorada como um pronunciamento oficial da IPB, afastando qualquer crítica a instituição religiosa de que estaria cometendo violações éticas, jurídicas e religiosas a seus pastores e membros, com perseguição, linchamento moral e exclusão, em um verdadeiro retrocesso histórico e ruptura com o estágio civilizatório em que vivemos, trouxe vergonha àquele que a pronunciou.
A Igreja Presbiteriana do Brasil não apenas tem intenção de promover aquilo que nega, como, na realidade, no mundo dos fatos, ela já possui essa prática implementada hoje. 
Ainda bem que a instituição IPB é maior do que sua liderança atual. Voltar às origens e resgatar os avanços da Reforma Protestante é uma possibilidade concreta, apesar de difícil e dolorosa caminhada a ser empreendida.
Pedir perdão e reconhecer os erros, avaliar as práticas e considerar se estão compatíveis com os ditames da fé que afirmam professar e defender, é dever de todos aqueles que se assumem não apenas cristão nominais,  mas praticantes de um cristianismo vivo e que produz resultados na vida das pessoas e da sociedade.

Elda Bussinguer

Elda Bussinguer Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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