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Sociedade

Ser mulher está cada vez mais perigoso

Construir uma cultura da igualdade é dever de todos nós, homens e mulheres. Não haverá futuro possível para a humanidade se não alcançarmos a equidade de gênero

Publicado em 14 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

14 dez 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

O sonho de uma sociedade onde sejamos todos livres e iguais, princípio matriz da Constituição, ainda pode ser considerado uma utopia irrealizável no Brasil. Estamos longe, por exemplo, de alcançar a tão desejada equidade de gênero que nos permitiria viver de forma justa em um Estado capaz de garantir a todos e todas as mesmas oportunidades de crescimento, desenvolvimento e felicidade.
A desigualdade entre homens e mulheres permanece, apesar dos avanços decorrentes do movimento e das lutas feministas que nos legaram uma série de conquistas das quais podemos nos regozijar.
As evidências indicam que no rumo e na velocidade em que as coisas caminham ainda demoraremos décadas, talvez séculos, para alcançar condições que nos permitam afirmar haver no país, e também no mundo, um mínimo de paridade e justo tratamento entre homens e mulheres.
A pandemia nos permitiu constatar que essa profunda disparidade provocou ainda mais estragos e vulnerabilidades nas mulheres que sofreram, em todos os campos da vida, as consequências de sua condição de serem mulheres nesse tempo histórico que nos atinge a todos em alguma medida.
Estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concluiu que a pandemia provocou mais danos à vida das mulheres do que à dos homens. A mudança na forma como a vida se organizou a partir do isolamento aumentou nelas a ansiedade, o estresse e a depressão em níveis superiores aos dos homens.
Para as mulheres, o aumento da carga horária dedicada ao trabalho doméstico foi da ordem de 4 horas diárias, ficando sob a responsabilidade delas, além de todas as demais atividades que já acumulavam, de forma injusta e desigual, o acompanhamento dos filhos nas atividades escolares virtuais.
Na omissão do Estado em suprir as condições educacionais adequadas de atendimento às crianças e adolescentes, as mulheres acumularam funções que antes não lhes estavam destinadas e para as quais não estavam preparadas, todas elas geradoras de angústia e sofrimento.
Segundo a pesquisa, enquanto apenas um em cada dez homens (10%) relatou sinais de estresse, 17% das mulheres apresentaram esses sintomas. Enquanto 24% das mulheres apresentaram sintomas de depressão, o percentual entre os homens foi de 17%.
O reconhecimento da existência de uma vulnerabilidade feminina maior do que a dos homens durante a pandemia não pode ser relacionada a uma vulnerabilidade natural, biológica.
Ela diz respeito, sim, a uma cultura estruturalmente consolidada, machista e patriarcal que as coloca em situação de desigualdade com os homens, tendo que assumir tarefas que lhes estão destinadas historicamente para a manutenção de privilégios de um gênero sobre o outro.
Como elemento potencializador dessa triste realidade de vulnerabilidade feminina, com comprometimento da saúde mental na pandemia, necessário considerar ainda que o isolamento alargou as fronteiras da violência doméstica.
É preciso reconhecer que o isolamento transformou muitas mulheres em prisioneiras em suas próprias casas, tendo que conviver com seus algozes, agora de forma continua, sem espaços de liberdade onde pudessem respirar e compartilhar suas dores aliviando-se, no trabalho, na igreja ou nos diversos espaços de socialização comunitária que, ainda que temporários, permitia a elas recuperar as energias e as força para sobreviver.
Depressão, estresse, ansiedade, medo do futuro, convivência com a fome de forma mais persistente, além da coexistência diária com companheiros também vulnerabilizados pelo desemprego e, muitas vezes, pelo uso abusivo de álcool e drogas, levaram as mulheres a se sentirem desamparadas, desprotegidas e angustiadas com medo da violência crescente e do futuro incerto.
A ressignificação do mundo do trabalho, com o direcionamento de muitos trabalhadores para as atividades em home office, que a princípio poderia parecer favorável às mulheres já que, hipoteticamente, teriam mais tempo para si, trouxe, na realidade, ainda mais desafios, sofrimento e trabalho para elas.
As demandas cotidianas e infindáveis de filhos e familiares em geral, confundindo, muitas vezes, vida privada com a vida pública, acabou por produzir vulnerabilidades múltiplas que não foram, e continuam não sendo, preocupação do poder público que persiste em funcionar e organizar as políticas públicas como se o mundo não tivesse passado por uma profunda e trágica revolução que atingiu a todos, mas que foi mais perversa com as mulheres, com os pobres e com os negros.
Com seus espaços de liberdade e de autonomia reduzidos, as mulheres vêm seus sonhos sendo sequestrados e sua imagem e dignidade sendo empobrecidas.
Em casa, convivendo, muitas vezes, com violadores que não apenas as violentam mas que também violentam suas filhas, as mulheres se sentem desprotegidas.
Ser mulher torna-se cada vez mais um perigo.
O risco de serem violadas não se restringe às ruas escuras ou os espaços isolados das periferias das cidades.
Com sua saúde mental comprometida, com a fome se alastrando, com a desigualdade se ampliando, as mulheres perderam também espaço importante de convivência e de posicionamento social. O ultraconservadorismo religioso não atingiu apenas a política. Ele trouxe um silenciamento para as mulheres em espaços onde antes podiam se manifestar, ainda que de forma controlada e subjugada.
O discurso da submissão feminina nas igrejas vem tomando dimensões antes inimagináveis. Pastores e lideranças religiosas, inclusive entre as denominações evangélicas históricas, estão mais preocupados em pregar sobre a necessária submissão feminina aos homens do que pregar o Cristo que afirmam servir.
A desigualdade persiste. A misoginia avança. A constatação da capacidade das mulheres em produzir uma sociedade mais justa e eficaz com maior respeito às diferenças, ao meio ambiente e com maior equilíbrio nos campos da saúde, da educação e até da economia, longe de motivar a busca por uma cultura da igualdade tem produzido recrudescimento e violência, decorrente, muitas vezes de disputas de gênero, incompatíveis com o estágio civilizatório que vivemos.
A liberdade de escolher o próprio destino colocando sua profunda relação com a subjetividade, com a afetividade e com a solidariedade, a serviço da sociedade, poderá ser fundamental para a sobrevivência da vida na terra.
Construir uma cultura da igualdade é dever de todos nós, homens e mulheres. Não haverá futuro possível para a humanidade se não alcançarmos a equidade de gênero, a primeira, mais importante e determinante forma de igualdade.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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