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Internacional

Trump na Venezuela: o império da força versus o império da lei

Reconhecer que Maduro era um ditador, perverso, injusto e violento e que precisaria ser deposto é condição necessária antes de qualquer análise que se queira fazer
Elda Bussinguer

Publicado em 

06 jan 2026 às 04:00

Publicado em 06 de Janeiro de 2026 às 07:00

Ao invadir a Venezuela, sequestrar Maduro e declarar de maneira insolente e arrogante sua intenção de controlar o país e sua principal riqueza, o petróleo, sem qualquer preocupação em mascarar a verdade, Donald Trump demonstrou, mais uma vez, seu total desprezo pela lei, pelos tratados de Direito Internacional, pela democracia, pela Constituição de seu país, pelos cidadãos americanos, por todos os seres humanos, independentemente de suas nacionalidades, e por todos os demais governantes que, ingenuamente, possam imaginar que governam países livres e soberanos.
Trump mandou um recado claro, objetivo e direto a todas as nações do mundo: “Assim como fiz com a Venezuela, posso fazer com qualquer país que se interponha aos meus planos ou que possua os recursos naturais que sejam de meu interesse”.
A mensagem de Trump é límpida e cristalina. Ele está afirmando com serenidade, sem qualquer constrangimento: “Sou o imperador do mundo e administro meu império da forma como quero. Eu tenho a força e não me sujeito a negociações diplomáticas e a nenhuma forma de Direito que não seja aquele que eu mesmo estabelecer.”
U.S. President Donald Trump attends a press conference with Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu
U.S. President Donald Trump attends a press conference with Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu Crédito: Jonathan Ernst/Reuters
Trump conseguiu o seu intento. Impôs-se pelo medo, pela força e pela constatação inequívoca provocada em todos, indistintamente, de que nenhum país, isoladamente ou em aliança, possui o arsenal militar e o serviço de inteligência necessários para fazer o enfrentamento que seria imperioso e urgente, nesse tempo histórico e cronológico.
As poucas manifestações oficiais emitidas, até então, pelos governos de países, independentemente de serem pequenos ou grandes, frágeis ou poderosos, são tímidas, reveladoras de uma prudência amedrontada, carregada de conhecimento acerca das fragilidades políticas, econômicas e militares existentes e da força daquele que viola direitos, produz mortes e segue seu caminho, invadindo países, quebrando as regras mais elementares de soberania e de Direito internacional, sem reconhecer minimamente o valor da vida humana, da verdade, da dignidade e da liberdade.
Onde o Direito não vige e não é respeitado, onde as normas são vistas com desprezo por quem detém a força, não há nada que se possa fazer. Quando a democracia é tratada como secundária por quem conhece a força do próprio poder e se sente no direito de usá-la sempre que lhe aprouver, significa que retrocedemos séculos de conquistas políticas que foram fruto de nosso avanço civilizatório.
A questão que envolve a invasão da Venezuela e o sequestro de Maduro não é difícil de explicar e nem de compreender. Trump sabe o poder que tem, a força de seu poderio militar e de inteligência, domina o jogo político e as artimanhas e estratagemas necessários para alcançar aquilo que deseja e não tem pudor algum em assumir seu intento vergonhoso que rompe não apenas com o verniz político, mas sobretudo ético, que domina as relações internacionais.
Qualquer declaração ou manifestação pública de um governante, em qualquer parte do mundo, que desagrade ou contrarie Trump pode fazer com que o próprio país se torne o próximo alvo, sobretudo se detiver riquezas naturais ou exercer influência relevante na política econômica e nas negociações internacionais ainda fortemente condicionadas pela lógica da dolarização.
Soberania e democracia são palavras esvaziadas de sentido para Trump e para seus seguidores. Para Trump, porque não se importa com o “outro”, representado por todos os que não reconhece como superiores ou como seus iguais. Para seus seguidores, cegos e ávidos de poder, porque se entregam de forma ingênua à política, apoiando aquele que, em breve, os desprezará e os jogará à margem, como fez Trump com Eduardo Bolsonaro e tantos outros que deixaram de lhe ser úteis. Esquecem-se que os poderosos, ao final e ao cabo, sempre desprezam aqueles que usaram para o alcance de seus intentos.
Maria Corina Machado, que dedicou a Donald Trump o Prêmio Nobel da Paz, honraria conquistada em eleição altamente criticada e duvidosa, e que comemorou o sequestro de Maduro e a invasão de seu país, já foi desprezada pelo presidente americano que afirmou com toda singeleza que ela não tem condições de governar o país. Vassalos são humilhados como os bobos da corte o são.
O medo se capilarizou como rastilho de pólvora. Diante do quadro de polarização política instalado em todo o mundo, muitos não conseguem perceber os riscos que a invasão de um país e quebra dos princípios que regem o Direito Internacional, especialmente no que diz respeito ao princípio da soberania, podem significar de agora em diante.
O certo é que, se não conseguirmos interromper a sanha imperialista de Trump, não haverá mais lugar seguro para se viver no mundo.
Reconhecer que Maduro era um ditador, perverso, injusto e violento e que precisaria ser deposto é condição necessária antes de qualquer análise que se queira fazer. Mas, em respeito à soberania e à democracia, quem deveria tê-lo deposto era o povo venezuelano e não um governante estrangeiro tão ditador quanto Maduro e sem qualquer legitimidade para fazer o que fez.
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