Mudamos das moedas para o papel, depois o cheque e, agora, as digitais e até cripto, mas o dinheiro, em si, está há tanto tempo no nosso cotidiano que nem concebemos como seria a vida sem ele.
Bem, temos aqui no Espírito Santo cidades que produzem milhões de ovos e de frangos. Imaginem se os granjeiros precisassem levar um monte deles para pagar a consulta médica, a conta de eletricidade e até o restaurante... Bem, era assim antes que a Humanidade criasse alguns tipos de equivalentes universais de troca.
Não apenas era preciso transportar sua produção, como negociar cada pequena transação. Claro, hoje isso é muito mais simples: toda a produção é vendida a alguns poucos frigoríficos processadores de carne de ave, atacadistas e redes de supermercado, a preços mais ou menos estáveis com pouca perda de tempo.
No começo, tudo o que servia como padrão monetário tinha valor intrínseco, ou seja, valia por si mesmo: ouro, prata, gado, grãos de cacau etc. Havia uma vantagem óbvia (aquilo sempre significaria uma riqueza e seria aceito em trocas praticamente em qualquer lugar e pela mesma relação de equivalência), mas uma desvantagem gigantesca que nem passa pela nossa cabeça hoje em dia: não havia ouro suficiente para todas as transações que precisavam ser feitas.
Então muito ainda funcionava na base do escambo e, por exemplo, as pessoas frequentemente trabalhavam apenas em troca de casa e comida. Esse negócio de descobrir a América não enriqueceu a Europa apenas pela exploração em si, mas porque aumentou aquilo que chamamos de “base monetária” e, com isso, acelerou as trocas – o comércio permitindo o aumento da produção, o crescimento do “PIB”, embora essa sigla estivesse séculos distante de ser inventada.
Depois acharam mais prático imprimir papel de dinheiro, mas sempre com o compromisso de que haveria exatamente a quantidade equivalente desse metal precioso guardada em um enorme cofre. No século XX, abandonamos o chamado “padrão-ouro” e a moeda rapidamente passou a ser “fiduciária”, isto é, sem qualquer valor intrínseco ou sequer a promessa de te entregarem aquele peso em ouro.
Foi quando os governantes perceberam que podiam aumentar a quantidade de “papel-moeda” não apenas o suficiente para a fluidez da atividade econômica, mas simplesmente para “criar dinheiro” para si mesmos.
Claro, como isso não fazia surgir novos bens, os que já existiam passavam a “valer mais”, criando uma clara diferença entre a carestia propriamente dita (aumento do preço em períodos de escassez) e a inflação, uma espécie de imposto disfarçado, em que o patrimônio da população é transferido para o Rei sem que ninguém precise pagar nada.
Aqui o leitor certamente já percebeu que vai entrar na história um certo Ruy Barbosa, o inteligentíssimo profeta das medidas catastróficas e a sua Política do Encilhamento, da qual, todavia, foi apenas o pai socioafetivo.
Em resumo, autorizaram os bancos não propriamente a emitir dinheiro, mas a lançar títulos de crédito na prática equivalentes. O resultado foi uma gigantesca crise econômica há mais de 100 anos.
Como todos sabem, os economistas são os profissionais mais antigos, pois antes da criação do Universo havia o caos, e foram eles que o inventaram.
Então vamos entender: o dinheiro propriamente dito e o crédito funcionam como lubrificantes da economia, não como combustível. Mesmo os antigos motores de dois tempos consumiam óleo misturado na gasolina para essa finalidade. Maior disponibilidade de meios de transação pode destravar o consumo, mas o que aumenta a produção são os investimentos.
Quando se autoriza alguém a emitir cheques sem fundo indefinidamente, já sabemos o resultado: a tentação é grande demais e só faz crescer. Em algum momento a bicicleta para e não dá mais para rolar a dívida.
É inevitável que um monte de gente tome calote, que as empresas travem até que a fumaça se dissolva e, depois, é como se um tsunami houvesse passado: tudo o que se pode fazer é enterrar os mortos e socorrer os que sobreviveram.