Todos temos nossos heróis, pessoas que admiramos, cuja história é capaz de fascinar e servir de inspiração. Um dos meus heróis prediletos é Tony Fauci. Anthony Stephen Fauci, médico e cientista, foi nomeado diretor do NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA) em novembro de 1984 pelo então presidente Ronald Reagan. Permaneceu na função até novembro de 2022, tendo servido a sete presidentes norte-americanos.
Tony Fauci comandou todos os esforços de pesquisa contra o vírus HIV. Ajudou a criar o PEPFAR (President's Emergency Plan for Aids Relief) que salvou milhões de vidas no continente africano. Em 19 de junho de 2008, por seu pioneirismo, recebeu do então presidente George Bush a Medalha Presidencial da Liberdade. Essa honraria é considerada a maior condecoração civil americana e foi uma merecida homenagem pelos esforços de estímulo à pesquisa e ao controle de uma doença emergente.
Todos nós, médicos infectologistas, quando porventura em congressos internacionais ou folheando revistas científicas de renome nos deparávamos com uma palestra ou artigo de Tony Fauci, tínhamos a certeza de uma abordagem inteligente, inovadora e sensata.
Fauci viveu os anos duros da pandemia (2020 a 2022), na primeira administração Trump, teve alguns desacertos com o presidente norte-americano, mas sempre deu o melhor de si para proteger seu povo.
Agora, aos 85 anos, quando merecia novas honrarias, foi submetido a uma humilhação pública no Senado dos EUA, no final de julho, em uma comissão sob a liderança do senador Rand Paul, um republicano do Kentucky, que teve acesso a um diário particular do médico, supostamente nos computadores do NIAID. Fauci recebeu a acusação de ter mentido sobre a origem da Covid-19, que o NIAID teria, no passado, enviado vírus ao laboratório de Wuhan, onde teria sido manipulado e “escapado” para a natureza.
O senador Paul acusou assim Fauci de estar envolvido na origem da pandemia que matou milhões de pessoas. A última vez que peritos internacionais estudaram de forma isenta a origem da pandemia, concluíram que a hipótese de ter surgido da natureza é a mais provável, mas impossível de confirmar até mesmo pelo autoritarismo da China que dificultou estudos a respeito.
Não conseguiram descartar de modo definitivo outras possibilidades. No seu diário, Fauci escreve sobres essas dúvidas e inseguranças. A doença de polarização da nossa sociedade atual hipertrofia essas dúvidas sensatas de modo doentio.
Senadores americanos do Partido Republicano acusaram Tony Fauci de enriquecer com a pandemia e enganar a sociedade americana e por último até mesmo de ter contribuído para a origem da Covid. Logo, até aqui no Brasil, começou a circular nas redes sociais que o Congresso americano tinha comprovado a origem no laboratório da pandemia e desmascarado um pseudocientista americano.
Impossível não lembrar de artigo recente do historiador Niall Ferguson sobre a morte da História. Na era das redes sociais e dos algoritmos, não interessa mais o fato em si, mas a força das narrativas e como elas conseguem conquistar corações e mentes. Quanto mais absurdas e agressivas, mais compartilhadas são. Nosso tributo a Anthony Fauci pelas suas contribuições à ciência!