No mês passado, o arquiteto José Daher Filho publicou um artigo em A Gazeta cujo título já resume bem o conteúdo do texto: “O futuro do Centro de Vitória passa por uma nova Beira-Mar”.
Logo no início ele trazia uma questão essencial: “Como retirar o trânsito de passagem da Avenida Jerônimo Monteiro?”.
De fato, hoje o corredor viário do Centro acaba sendo utilizado majoritariamente por quem transita entre a parte norte e oeste da Grande Vitória, ou seja, um movimento pendular entre a Serra e a própria cidade de Vitória, de um lado, e do outro Cariacica, Viana e até alguns bairros de Vila Velha. A Serra, com distritos industriais, atrai uma massa de trabalhadores, assim como Vitória, com diversas instituições públicas, é destino de uma população que diariamente precisa resolver coisas.
Tal situação provoca congestionamentos que acabam desanimando quem teria como destino exclusivo o Centro da Capital, região histórica dotada de potencial turístico-cultural.
Dias após o artigo de Daher ser publicado, a Prefeitura Municipal de Vitória (PMV) anunciou um ambicioso plano para revitalizar o Centro.
Trata-se do decreto nº 27.034 que instituiu o Programa de Reabilitação da Área Central (ReAC). Tal plano está estruturado em seis eixos: Alvará Automático e Fim da Burocracia, Apoio Financeiro para Reformas, Foco na Habitação de Interesse Social, Tolerância Zero com o Abandono, Proteção da Paisagem Histórica, e, por fim, Gestão Urbana Preditiva.
Não é a primeira vez que uma administração municipal divulga um plano de revitalização para o Centro de Vitória.
É certo que algumas ações foram realizadas, enquanto outras ficaram apenas na intenção. Como no caso das diversas tentativas frustradas em relação à retirada da fiação aérea, que polui a fachada do conjunto arquitetônico histórico do Centro.
Politicamente, todo novo plano ao ser anunciado se apresenta como inovador, e espera-se que assim seja. Estamos, portanto, na torcida para que agora ele dê certo. Mas também é comum planos serem apresentados em períodos políticos sensíveis, como às vésperas de uma eleição, ainda que desta vez ela não seja municipal.
O desafio é grande, e neste ponto cabe dizer que praticamente todas as capitais estaduais brasileiras vivem com o esvaziamento e até a deterioração dos seus centros históricos.
Ao contrário das cidades europeias, cujas áreas centrais são cada vez mais valorizadas, gerando o fenômeno da gentrificação, que é a expulsão da população pregressa de menor renda, a partir dos investimentos públicos e privados que valorizam a região e acabam elevando o preço da habitação local.
O esvaziamento dos centros históricos brasileiros iniciou-se com o zoneamento urbanístico modernista que previa separar a cidade em áreas específicas para moradia, para a indústria e o comércio, para o lazer e para a administração pública. A ideia, que inicialmente parecia boa, mostrou-se com o tempo uma enorme falácia.
Hoje já se sabe que o mix urbano proporciona uma cidade mais inclusiva e com menores deslocamentos diários. Mas na época em que o zoneamento urbanístico foi idealizado não se imaginava que as cidades cresceriam tanto, nem que haveria tantos veículos circulando nelas.
Voltando à questão levantada por José Daher (e também por mim no meu primeiro artigo publicado em A Gazeta em 1999 intitulado “Um futuro para o Centro de Vitória”), ao que parece, nenhuma ação será por si só suficiente enquanto permanecer aquela enorme quantidade de veículos transitando pelo Centro apenas porque não têm outra opção viária.
A PMV decidiu fazer um mergulhão em Jardim Camburi que tem gerado imenso debate, pois muitos, como eu, acreditam que é uma obra desnecessária, afinal, mais adiante, no cruzamento das avenidas Dante Michelini e Adalberto Simão Nader haverá nova retenção de veículos.
Melhor seria, por exemplo, que fizesse um túnel entre o Saldanha da Gama e a Vila Rubim, retirando o tráfego de passagem da região central, algo que transformaria radicalmente o acesso ao Centro para aqueles que apenas querem se dirigir para ali. Tal túnel poderia ser subterrâneo (tal como fez o Rio de Janeiro na região portuária) ou pelo maciço central (opção provavelmente mais econômica).
Trata-se, obviamente, de uma proposta que ainda demandaria estudos técnicos e econômicos, e que não exclui o plano recentemente apresentado pela PMV. Mas o receio é que se gaste muito esforço e não chegue ao ponto nevrálgico da questão.