O uso de drogas psicoativas e a consequente dependência química constituem um grave problema de saúde pública. Fonte de renda para o crime organizado, o tráfico tem frustrado os resultados até aqui alcançados em seu combate. Vacinação poderia ser um caminho?
Pesquisadores em drogadição têm tentado e falhado por décadas no esforço de pesquisas em imunizações para cocaína ou mesmo nicotina. Pois agora está para entrar em ensaios clínicos uma vacina contra o fentanil. Este é um opióide sintético, 50 vezes mais potente que a heroína e 100 vezes mais potente que a morfina, que pode ser letal em doses pequenas como 2 mg.
No Brasil ainda não tem carácter epidêmico como outras drogas, embora estudo da Fiocruz de 2023 alertasse já para o uso crescente do fentanil no Brasil. Aliás, a primeira apreensão de fentanil ilícito no Brasil ocorreu em Cariacica, na região metropolitana de Vitória, em fevereiro de 2023, pela Polícia Civil capixaba. Nos EUA, a overdose por fentanil é a principal causa de morte em pessoas entre 18 e 44 anos, ocorrendo 38 mil óbitos em 2025.
O fentanil chega ao cérebro com extrema rapidez, não dando tempo hábil para diagnóstico de overdose e uso de antagonistas. Testes em camundongos para essa nova vacina iniciaram-se na Universidade de Houston há 10 anos, sob liderança do professor Colin Haile.
Os resultados mostraram que as mesmas doses de fentanil aplicada em roedores não vacinados, tornando-os rígidos e incapacitados, quando aplicadas em animais previamente vacinados não provocavam nenhuma ação. Os cientistas usaram um fragmento de fentanil sintético – um pedaço da molécula sem suas propriedades “viciantes” e o ligaram a uma toxina diftérica inativa (CRM 127), já usada em vacinas disponíveis no mercado.
Depois ligaram também a um adjuvante derivado da bactéria Escherichia coli, também já usada em ensaios clínicos de vacinas. Quando o sistema imune de um animal encontra esta “molécula fabricada”, passa a produzir anticorpos antifentanil, que bloqueiam e impedem a passagem do fentanil na barreira hemato-encefálica. São moléculas grandes para penetrar no cérebro, de modo que os camundongos ficam imunes ao fentanil.
Os pesquisadores de Houston acompanharam os camundongos vacinados por 6 meses e eles continuaram imunes à drogal. Estudos em seres humanos serão necessários para avaliar também a duração da imunidade.
Pesquisadores do Baylor College of Medicine, também no Texas, estão pesquisando uma vacina para cocaína. Enfim, são novidades na ciência que podem trazer novas opções ao tratamento da drogadição.