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Carta entregue

O caldo entornou: o que levou Arnaldinho Borgo a sair do Podemos

Prefeito de Vila Velha enviou carta à presidente nacional do partido informando sobre a desfiliação

Publicado em 21 de Março de 2025 às 15:31

Públicado em 

21 mar 2025 às 15:31
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Arnaldinho toma posse
Arnaldinho Borgo na posse no segundo mandato como prefeito de Vila Velha Crédito: Carlos Alberto Silva
Há tempos a coluna ouve de integrantes do Podemos e até de fora do partido que a relação entre o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, e o presidente estadual da legenda, deputado federal Gilson Daniel, não é nada boa. 
Os dois não se falam há mais de um ano e há diversas, porém discretas, escaramuças entre aliados de um e de outro. Publicamente, o prefeito e o parlamentar negam haver qualquer problema. Pessoas ligadas a eles confidenciam à imprensa, inclusive à coluna, mágoas existentes e episódios que levaram a esse quadro, que culminou, nesta sexta-feira (21), na decisão do prefeito de sair do partido.
Na quarta (19), Arnaldinho chegou a Brasília munido de uma carta a ser entregue à presidente nacional do partido, deputada federal Renata Abreu (SP). 
Aliados do prefeito contaram à coluna que a ideia é que Gilson fosse substituído na presidência estadual pelo deputado federal Victor Linhalis. Do contrário, a permanência do prefeito no partido ficaria insustentável. Victor é unha e carne com Arnaldinho, foi vice-prefeito de Vila Velha em 2021 e 2022.
Entre os motivos relatados pelos que são team Arnaldinho estão o estilo centralizador de Gilson Daniel e até insatisfação com valores do fundo eleitoral destinados à campanha do prefeito no ano passado. Já os partidários de Gilson classificam tudo como "invenção da imprensa".
O que é inegável, não só pelas movimentações recentes, é que Arnaldinho e Gilson Daniel não se bicam. Mas, numa queda de braço interna com o presidente estadual, o prefeito não levaria a melhor, como o fato de nem ter sido recebido por Renata Abreu denota. Mesmo em Brasília, ele enviou a carta por WhatsApp.
Gilson preside o partido no estado desde 2017, quando a sigla era ainda o nanico PTN. Sob o comando do deputado federal, o Podemos cresceu e ganhou relevância em território capixaba. Logo, o deputado tem prestígio na cúpula partidária nacional.
No Espírito Santo, o partido tem dois deputados federais (justamente, Gilson e Victor Linhalis) e 11 prefeituras que, somadas, levam o Podemos a governar quase um milhão de pessoas.
Esse número, evidentemente, vai ser reduzido com a saída de Arnaldinho da sigla. Vila Velha tem 502 mil habitantes.  
MOTIVOS
Mas qual o motivo do estremecimento da relação entre o prefeito de Vila Velha e o presidente estadual do Podemos? 
"Gilson filia gente sem conversar com ninguém, decide tudo no partido sozinho, pensando nos aliados dele e não nos de Arnaldinho e do Victor. A gota d'água foi tentar virar secretário estadual, mesmo que isso levasse Coronel Ramalho (PL) a assumir o mandato dele em Brasília como suplente", contou um aliado do prefeito de Vila Velha à coluna.
O estilo centralizador de Gilson Daniel já havia sido criticado outras vezes, nos bastidores, pelos filiados mais ligados a Arnaldinho e Victor. Mas Gilson nunca nem os rebateu publicamente.
Já a história envolvendo Coronel Ramalho ocorreu em janeiro. O ex-secretário estadual de Segurança Pública foi candidato a deputado federal pelo Podemos em 2022 e é o primeiro suplente do partido. Isso quer dizer que, se algum deputado federal se licenciar do mandato, Ramalho assume a cadeira em Brasília, ainda que temporariamente. 
Mas, em 2024, o coronel filiou-se ao PL e disputou a Prefeitura de Vila Velha contra Arnaldinho. Ele pode ainda concorrer a deputado federal em 2026 e tirar votos de Victor Linhalis, já que os dois têm base eleitoral na cidade canela-verde.
Gilson Daniel, mesmo assim, estava disposto a se licenciar para ser secretário do governo Casagrande. O governador é que não topou, uma vez que Ramalho fez críticas duras à gestão estadual na campanha de 2024 e integra um grupo de oposição ao Palácio Anchieta. 
Não seria interessante, para o grupo de Casagrande, dar a Ramalho a visibilidade de um mandato em Brasília.
Para completar, pessoas ligadas ao prefeito de Vila Velha e a Victor Linhalis contaram à coluna que há insatisfação até com o financiamento da campanha de Arnaldinho de 2024.
De acordo com os arnaldistas mais fiéis, entre a verba do fundo eleitoral repassada pela direção nacional ao partido para as eleições de 2024 no estado, R$ 3 milhões deveriam ser distribuídos a candidatos escolhidos por Victor Linhalis e mais R$ 3 milhões ficariam sob os critérios de Gilson Daniel, além de outros R$ 7 milhões que seriam enviados, de qualquer forma.
"Gilson não passou nada para o Arnaldinho dos três milhões que ele podia decidir como destinar. O Victor, dos R$ 3 milhões que cabiam a ele direcionar, colocou R$ 1,8 milhão para o Arnaldinho e, assim, nem pôde ajudar todos os candidatos a prefeito do Podemos que ele gostaria. O Gilson ajudou os que quis e não o Arnaldinho. Há uma insatisfação muito grande com isso. Se não fosse o Victor Linhalis, como o Arnaldinho faria a campanha do ano passado?", questionou um aliado do prefeito de Vila Velha.
Já uma pessoa ligada a Gilson Daniel classificou o relato como "mais uma invenção que surge na imprensa" e garantiu que o Podemos nacional não delega a deputados federais a destinação de recursos de campanhas eleitorais municipais: "É a direção nacional que decide tudo. Nem a direção estadual do partido decide".
A distribuição de dinheiro do fundo eleitoral dentro dos partidos não tem critérios objetivos estabelecidos em lei ou pela Justiça Eleitoral. 
Depois que a direção nacional recebe dos cofres públicos o montante geral (este sim calculado, principalmente, com base na quantidade de deputados federais de cada legenda), a sigla define qual vai ser a fatia a ser enviada a cada diretório estadual ou a cada candidato.
Alguns partidos estabelecem, informalmente, "cotas" para os deputados federais e cada parlamentar aponta para quais candidatos os valores devem ser destinados, em seus respectivos estados. Aliados de Gilson Daniel sustentam, porém, que o Podemos não adota essa metodologia.
O DivulgaCand, site oficial da Justiça Eleitoral, mostra apenas que a direção nacional do partido repassou R$1,8 milhão para a campanha de Arnaldinho em 2024. Mas não há registros sobre qual foi o critério adotado, se o dinheiro foi enviado por indicação de algum deputado federal, por exemplo.
A coluna procurou a presidência nacional do Podemos, via assessoria de imprensa, mas não houve resposta.
E AGORA?
Para qual partido Arnaldinho vai? Ele é um possível candidato ao Palácio Anchieta em 2026, integra o grupo do governador Renato Casagrande (PSB) e teria que se filiar a uma sigla casagrandista. 
Em 2024, o PP, por exemplo, o convidou, mas, faltando seis meses para o pleito municipal, Arnaldinho preferiu continuar no Podemos.
Agora, o cenário é outro. Além das peças a serem movimentadas para as eleições do ano que vem, o PP está em vias de formar uma federação com o União Brasil. É algo que altera a correlação de forças dentro dessas legendas. Além disso, o PP integra a base de Casagrande, mas também a do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), que é pré-candidato ao governo e adversário dos casagrandistas.  
Um movimento desses teria também que passar pelo aval do próprio Casagrande, que é o líder do grupo.
Aliás, o governador preferiu não interferir na briga entre Gilson e Arnaldinho. 
Por enquanto, o prefeito vai ficar sem partido.
O QUE DIZ ARNALDINHO
Em uma nota sucinta enviada à imprensa, Arnaldinho agradeceu a convites que tem recebido para se filiar a outras legendas, mas não mencionou quais e confirmou que não há definição sobre em qual sigla deve ingressar:
"Nesta sexta-feira, comuniquei à presidente nacional do Podemos, deputada federal Renata Abreu, a minha decisão de deixar o partido. Também agradeci pelo tratamento respeitoso e cordial que sempre recebi da direção nacional do Podemos. Quanto ao futuro partido, vou avaliar, junto ao meu grupo político, o que é melhor para Vila Velha, para o Espírito Santo e para o Brasil. Agradeço aos convites que tenho recebido. Neste momento, não há definição nesse sentido."
O QUE DIZ GILSON DANIEL
O presidente estadual do Podemos, Gilson Daniel, foi procurado pela coluna na tarde desta sexta-feira, mas não se manifestou a respeito da desfiliação do prefeito de Vila Velha.
Carta desfiliação Arnaldinho Borgo
Carta desfiliação Arnaldinho Borgo Crédito: Reprodução

Letícia Gonçalves

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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