Contrariando o calendário, entrarão em cena, nos próximos dias, as tradicionais quadrilhas.
Sim! Os agrupamentos que simbolizam os festejos juninos ainda estão, em pleno setembro, a todo vapor e ganharão o chão na final do Serraiá, considerado o maior concurso de quadrilhas juninas do Espírito Santo, que acontecerá em Feu Rosa, Serra, nos próximos dias 18 e 19 de setembro.
A história da quadrilha é algo que, ao meu ver, representa o Brasil popular e sua capacidade de transformação artística a distintas práticas. As narrativas dizem que o embrião das quadrilhas nasceu em comunidades camponesas europeias, mas logo foram aderidas pelas cortes, ganhando ares aristocráticos.
Segundo a professora Ana Valéria Ramos Vicente, pesquisadora de dança da Universidade Federal da Paraíba, as quadrilhas chegaram ao Brasil durante o período colonial e desembarcaram em solo pindorâmico ainda com pompas de nobreza.
Com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808, e a proliferação dos bailes palacianos ofertados pela corte, as quadrilhas passaram a ingressar no cotidiano brasileiro, ainda reclusas a eventos palacianos.
Para quem está estranhando, sim, as quadrilhas que conhecemos têm origem nos chiques salões da nobreza, classe que costuma expurgar e subalternizar práticas do tipo. O próprio nome advém, segundo uma das versões, do francês “quadrille”, que denominava danças de quatro pares, praticadas por nobres franceses.
O pulo do gato para se tornar um símbolo popular aconteceu após 1889. Com a Proclamação da República, elementos ligados à monarquia passaram a ser vistos pelas elites como algo ultrapassado, sendo aderido pelas camadas populares.
As quadrilhas saíram dos salões nobres e baixaram nos chãos batidos das comunidades rurais, tornando-se em um dos principais elos da trama festiva proporcionada pelos festejos juninos.
No Espírito Santo, eram práticas comuns na devoção popular a santos católicos, principalmente nas igrejas de Nossa Senhora da Praia, no Centro de Vitória; São Pedro, da Praia do Suá e Matriz de Santo Antônio, no bairro de mesmo nome. Posteriormente, foram engrossadas pelas levas de nordestinos que vieram para o Estado a partir da primeira década do século 20.
Mas o que eu gostaria de prosear aqui não versa sobre as quadrilhas do “olha a cobra” e dos dançarinos de ocasião, que acontecem de forma improvisada em festas juninas alheias.
Existe um mundo em que as quadrilhas são levadas a sério e representam um pertencimento danado para certos agrupamentos, que empunham a arte da dança e da encenação como rituais identitários.
São grupos com nomes, cores e símbolos próprios. Que se reúnem, ensaiam, ensaiam de novo, ensaiam novamente e, por vezes, dançam sob uma quantidade de holofotes que não condiz com os esforços prestados.
Alguns vão lembrar. Em décadas passadas, muitas comunidades tinham pelo menos um grupo de quadrilha, formado por jovens do território e que se apresentavam pelas festas juninas afora.
Eram tantos, que protagonizavam disputas que mobilizaram um mundaréu de gente, tornando-se em famosos eventos realizados no Sambão do Povo e na anual Festa de São Pedro da Praia do Suá.
Em uma época de menos extremismos e moralismos, tais grupos ocupavam a mesma prateleira de escolas de samba, times de futebol e outros conjuntos que proporcionavam socialização, pertencimento e intenso contato com a cultura para a juventude da época.
Hoje, em um número consideravelmente menor, elas sobrevivem, mas convivem com diversas dificuldades que ainda ameaçam sua existência. Grosso modo, dividem-se em categorias como “salão”, “caipira’’ e “estilizada”. São compostas por segmentos como noivos, casais, brincantes, sinhazinhas, floristas e destaques e ofertam apresentações que demandam intenso preparo com ensaios de coreografia e preparação de figurino.
Ao dialogar com membros atuantes, torna-se visível a dificuldade para manter tais grupos ativos, principalmente no que tange às questões financeiras. Existe, obviamente, um custo considerável para a execução das atividades, cifras que, na maioria das vezes, precisam ser geradas através de esforços dos próprios praticantes.
Para não deixar a peteca cair, fazem rifas, campanhas de apoio e tiram dinheiro do próprio bolso, visando o nobre e dificultoso objetivo de salvaguardar a cultura junina nos dias atuais.
Desejo aos ilustres combatentes quadrilheiros tempos futuros repletos de reconhecimento, valorização e propagação intensa da cultura junina.
Final Serraiá
Data: 18 e 19 de setembro
Local: Praça das Artes, Feu Rosa - Serra
Horário: sexta-feira, das 19h às 23h30; sábado, a partir das 17h
Entrada: gratuita