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Segurança pública

Cidade Integrada no RJ: os vendedores de ilusões da segurança pública

O projeto do Rio de Janeiro é uma mistura de improviso, achismo e interesses eleitoreiros, lançado de forma surpresa e sem a mínima transparência

Publicado em 26 de Janeiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

26 jan 2022 às 02:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

pabloslira@gmail.com

Operação da Polícia Civil no RJ contra o tráfico de drogas no Jacarezinho
Operação da Polícia Civil no RJ contra o tráfico de drogas no Jacarezinho em 2021 Crédito: Vanessa Ataliba/Zimel Press/Folhapress
Esse alerta já foi feito neste espaço de reflexão de ideias: no período de meses que antecedem as eleições surgem inúmeros mercadores do medo e professores de Deus que apresentam remedinhos milagrosos para problemas estruturais brasileiros. Na área de segurança pública, por exemplo, não existe solução mágica!
O projeto Cidade Integrada no Rio de Janeiro é o mais novo produto dos vendedores de ilusões da segurança pública. Lançado de forma surpresa e sem a mínima transparência pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, o projeto até o momento se resumiu a duas operações com centenas de policiais que amanheceram a quarta-feira (19/01) ocupando as comunidades do Jacarezinho e Muzema na cidade do Rio de Janeiro.
No saldo dessas operações não ocorreu a prisão de nenhuma liderança do tráfico ou das milícias cariocas. O pior de tudo, por volta das 14 horas do mesmo dia, os moradores das citadas comunidades relataram não ver a presença das forças policiais nas ruas. Além disso, os moradores, aqueles que conhecem bem as realidades locais e suas especificidades, em nenhum momento foram ouvidos pelo governo estadual.
Foram promovidas duas operações midiáticas de espetacularização da questão da (in)segurança pública sem planejamento baseado em um diagnóstico social, econômico e urbanístico, bem como sem diálogo com as lideranças comunitárias.
Geralmente, esses projetos, como o Cidade Integrada, são vazios de conteúdo e estratégias, apresentam uma suposta ideia revolucionária e simples para problemas complexos enfrentados há décadas pela população e também são movidos por muito improviso, achismo e interesses eleitoreiros.
O atual projeto não se prestou a fazer uma análise de experiências passadas. Diferentemente das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que promoviam de forma planejada a ocupação e saturação das comunidades assoladas pela atuação de grupos criminosos ao menos por meses, o Cidade Integrada não apresentou recursos para permanecer naquelas comunidades ao menos durante um dia. Um bom exemplo de mau emprego de recursos públicos, que já se encontram bem limitados no Rio de Janeiro, uma vez constatado o desequilíbrio das contas públicas daquele Estado.
O Cidade Integrada deveria também proceder um estudo sobre políticas de segurança pública exitosas, referendadas por instituições especializadas internacionais, tais como o Pacto pela Vida que foi implantado em Pernambuco em 2007, o programa Estado Presente que iniciou sua implementação em 2011 no Espírito Santo e o programa Unidos pela Paz que se iniciou na Paraíba em 2011.
Ao invés de enveredar pelo caminho do improviso, o Cidade Integrada poderia se guiar pelo planejamento baseado em diagnósticos e evidências científicas e promover ações de Estado que primam pelos interesses da sociedade.

Pablo Lira

Pós-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve às quartas

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