O recente anúncio feito pelo governo de Donald Trump sobre o controle de 65 bilhões de barris de petróleo na Venezuela evoca um fantasma que a América Latina acreditava ter enterrado no século passado.
Conforme detalhado em reportagem do Valor Econômico, em edição digital de 1º de setembro, as negociações bilaterais nebulosas e a pressa da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, em alterar leis para reduzir o controle estatal sobre o recurso configuram uma assustadora reprise do neocolonialismo.
O cenário atual não é apenas um arranjo comercial assimétrico. Trata-se da modernização do conceito histórico de “República das Bananas”, agora baseado no petróleo e cujo tabuleiro de xadrez geopolítico ganhou a complexa roupagem de disputa contra a China.
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No início do século XX, corporações estadunidenses como a United Fruit Company exerciam controle quase absoluto sobre as nações da América Central. Sob a égide da Doutrina Monroe, ditadores locais entregavam terras férteis, isenções fiscais de cem anos e infraestruturas nacionais em troca de sustentação política. O destino econômico e social dessas populações era decidido nos Estados Unidos.
Cem anos depois, o roteiro desenhado em Caracas, Houston e Washington segue a mesma cartilha extrativista, sendo que agora como uma contraofensiva cirúrgica à expansão da China na América Latina.
Pequim consolidou-se como credora e parceira comercial de diversos países sul-americanos, utilizando investimentos maciços em infraestrutura para ocupar espaços crescentes no antigo “quintal” dos EUA.
A investida agressiva de Trump funciona, portanto, como uma barreira geopolítica: ao abocanhar as maiores reservas de óleo cru do mundo por meio de concessões diretas e controle acionário atrelado ao Pentágono, Washington expulsa a influência asiática de sua zona de segurança hemisférica. Bom para quem?
Essa submissão escancara o trágico ciclo latino-americano de dependência do modelo de exportação de commodities, no qual a região atua como um peão na disputa entre as superpotências. A partir do início das sanções estadunidenses de 2006, a Venezuela se endividou com os chineses, pagando os empréstimos diretamente com barris de petróleo.
Sob o pretexto de estabilizar o país e se livrar da órbita de Pequim e Moscou, o governo interino de Rodríguez repete o erro, apenas mudando o credor. A outorga de concessões diretas a petrolíferas estrangeiras bem relacionadas, sem concorrência transparente ou devido processo licitatório, assemelha-se ao período da antiga ditadura de Juan Vicente Gómez, que satisfazia interesses externos em detrimento do desenvolvimento de uma cadeia produtiva interna.
Reduzir a Venezuela a um protetorado energético estadunidense pode até gerar um alívio econômico artificial de curto prazo devido à injeção de investimentos externos em infraestruturas sucateadas.
Entretanto, a experiência centro-americana nos ensina que a riqueza gerada por esse tipo de enclave colonial nunca irriga a economia real. Ela enriquece oligarquias locais e alimenta os lucros das matrizes estrangeiras. O acordo de Trump não soluciona a crise estrutural venezuelana.
O Brasil está passando por um período eleitoral. Nesse sentido, destaco o artigo de opinião de Fernando Abrucio publicado no Valor Econômico, na edição de 4 de setembro. Para o professor, o debate público está em um patamar abaixo do necessário e tal fato se explica pela nova oligarquização da política brasileira, que é condizente com a nossa trágica tradição.
De acordo com o cientista político, essa oligarquização “é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais”. Em síntese, as pessoas deixam de se interessar pela política quando acreditam que ela só serve aos ricos.
Afinal, corremos o risco de sermos atropelados pela atualização da Doutrina Monroe? Riquezas naturais não garantem bem-estar social e estabilidade política. Queremos, por acomodação, apenas repetir ciclos extrativistas e escândalos financeiros que geraram uma sociedade brutalmente desigual e injusta?