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Fim da espera

Navio fantasma vai ser retirado de porto no ES, após 10 anos de abandono

Embarcação, que chegou a ser denunciada por contrabando de armas e munição, foi vendida como sucata; operação de retirada terá início nesta quinta-feira (17)

Publicado em 16 de Abril de 2025 às 10:00

Públicado em 

16 abr 2025 às 10:00
Vilmara Fernandes

Colunista

Vilmara Fernandes

vfernandes@redegazeta.com.br

Iron Trader - navio
Crédito: Camilly Napoleão com Adobe Firefly
Após dez anos de abandono, o Iron Trader vai deixar o Porto de Vitória. A embarcação turca de bandeira panamenha, que chegou a ser denunciada por contrabando de armas e munição, parece hoje um “navio fantasma”. Está atracado no berço 902 do Cais de Capuaba, em Vila Velha desde 2015. Vendido em um leilão, como sucata, seguirá para o complexo portuário de Itajaí, em Santa Catarina.
Em agosto de 2020, o Iron Trader foi penhorado em favor da Sudeste Soluções Ambientais Eireli. O valor desembolsado foi de R$ 400 mil para pagamento de encargos trabalhistas dos tripulantes. A decisão foi do juiz trabalhista Marcelo Tolomei Teixeira, da 7ª Vara do Trabalho de Vitória.
Os trabalhos estão previstos para esta quinta-feira (17), em horário que depende das condições de mar e vento, nos locais de origem e destino. Quatro rebocadores vão ser utilizados na retirada e manobra do navio do Cais de Capuaba e vão acompanhá-lo até a saída do canal do Porto de Vitória. A partir deste ponto segue viagem até o porto catarinense.
Um trajeto que deverá durar sete dias, com uma velocidade de navegação de quatro nós, o que equivale a menos de 8 quilômetros por hora. “A embarcação seguirá com dois rebocadores, um deles na frente, efetivamente puxando o Iron Trader, e o outro, na retaguarda, fazendo o apoio e monitoramento”, explicou o coordenador de Serviço de Tráfego de Embarcações da Vports, Agostinho Sobral.
Não haverá transporte de passageiros, carga ou qualquer tipo de combustível para minimizar os riscos. O navio foi preparado para a viagem e contará com um comandante liderando a operação.
“Teremos o que chamamos de ‘tow master’, um comandante especializado contratado para a função, que será o líder da operação de reboque do início ao fim da travessia. Estão sendo cumpridas todas as normas marítimas — nacionais e internacionais — junto aos órgãos competentes”, completa.
Houve ainda a contratação de um serviço de acompanhamento meteoceonográfico para informar as condições climáticas e de navegabilidade, em tempo real, além de um seguro marítimo especializado. 
De acordo com a empresa que administra o Porto de Vitória, a Vports, foram tomadas providências legais, técnicas e estruturais para garantir a retirada da embarcação com segurança, com um plano de reboque, aprovado pela Marinha do Brasil.
O objetivo é viabilizar, assim, a retomada da atividade comercial ao berço 902. “Trazendo mais desenvolvimento econômico para o porto e o nosso Estado”, informou o diretor de Infraestrutura e Operações da Vports, Alsimar Damasceno.
Por meio de nota, a Sudeste Soluções Ambientais nega que o navio estivesse abandonado e afirma que, desde que foi arrematada, a embarcação vinha recebendo vigilância privada permanente, durante 24 horas, além da manutenção necessária, sob a supervisão da Vports. A empresa também destaca que não tinha conhecimento de qualquer fato ilícito em que, no passado, o Iron Trader esteve envolvido.

As armas e o Boko Haram

Entre as denúncias que envolveram o Iron Trader estava o contrabando de armas e munições até para o grupo terrorista Boko Haram, da Nigéria, em cuja costa ele teria ficado retido entre janeiro e novembro de 2014, antes de seguir para Vitória. Em relato à Justiça do Trabalho, um dos tripulantes declarou que dois colegas chegaram a ser presos naquele país.
No Brasil, um auditor da Receita Federal fez a identificação de uma carga de munição que estaria armazenada em 27 caixas de madeira e endereçadas à Benners’s International – Comando General del Ejercito – SMA – Montevideo.
Mas a tripulação relatou que, ao atracarem na cidade portuária nigeriana de Harcourt, a carga teria sido retida pelas autoridades locais por informações equivocadas do que havia no container. Esperava-se 100kg de explosivos e 800kg de cartuchos, mas haveria somente cartuchos. O comandante e o superintendente ficaram presos por 37 dias.
No Brasil o navio foi inspecionado diversas vezes, por autoridades variadas, incluindo peritos, e as armas e munição não foram localizadas.
A Justiça do Trabalho concluiu que a situação envolvendo o navio resultou na exposição das vidas em razão do abandono do navio pelo proprietário e pelo armador, com a necessidade de intervenção das autoridades brasileiras para que os tripulantes recebessem assistência humanitária e o navio atracasse para desembarcar a carga e seus tripulantes.
*A produção do texto e obtenção das informações contou com a colaboração de Dina Sanchotene.

Atualização

18/04/2025 - 4:39
Esta coluna foi atualizada com nota enviada pela Sudeste Soluções Ambientais, empresa que arrematou o navio em leilão.

Vilmara Fernandes

É jornalista de A Gazeta desde 1996. Antes atuou em A Tribuna. Foi repórter nas editorias de Política, Cidades e Pauta. Foi Editora de Pauta e Chefe de Reportagem. Desde 2007, atua como repórter especial com foco em matérias investigativas em diversas áreas.

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