Bolsonaro candidatou-se e elegeu-se em 2018 com um forte discurso de tolerância zero em face da corrupção. Com ele, “a mamata ia acabar”. A retórica de campanha resistiu muito pouco à realidade do governo. Rapidamente, sucumbiu ao peso dos fatos, em uma série de episódios que, mais que revelar novidades, só realçaram pontos marcantes da trajetória política de Bolsonaro e de seus filhos:
As investigações sobre esquema de candidaturas laranjas pelo PSL em 2018 (e o ministro do Turismo segue lá); as fortes suspeitas de existência de nepotismo e da existência de funcionários fantasmas nos gabinetes dos filhos e dele mesmo quando era parlamentar; a obscura ligação com Fabrício Queiroz; as relações estreitas (e elogiosas) com grupos milicianos no Rio de Janeiro; os indícios de prática continuada de rachadinha no gabinete do filho Flávio Bolsonaro, na Alerj...
O discurso era (e é) contra o establishment, contra as “velhas práticas políticas”, diferente de tudo e de todos. Mas nada pode ser mais velho e mofado na política que nepotismo e esquemas envolvendo assessores parlamentares.
E o
Moro? Convidado para assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, supostamente como um símbolo do compromisso do governo entrante com o combate à corrupção, foi sendo cozido, cozido, cozido... até pular da panela! Muito longe de atender à expectativa de que lhe daria
status de superministro, Bolsonaro cortou logo seu orçamento e suas asas, não mostrou o menor empenho em manter a promessa de lhe “dar” o Coaf e cansou-se de desautorizá-lo em público.
“Não queremos negociar nada!”, anunciou Bolsonaro, falando de improviso a manifestantes pró-golpe, em frente a um quartel do Exército, no dia 19 de abril.
Bem, já está negociando… Entre os novos interlocutores, dirigentes do PP (sócio do PT e do MDB no petrolão)
e o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson. Sim, aquele mesmo: ex-presidiário, amigo de Collor, beneficiário e depois denunciante do mensalão no primeiro governo Lula (PT), esquema pelo qual foi condenado e cumpriu pena de prisão em Niterói (RJ).
Entre discurso e prática, há uma diferença abissal. E esse filme é tão velho quanto as práticas que o candidato Bolsonaro jurou não reeditar.