O presidente
Jair Bolsonaro é fã de bananas. Em uma de suas primeiras “lives de quinta-feira”, em março de 2019, indignou-se com o fato de alguns brasileiros importarem a fruta do Equador. Em agosto, declarou que não seria um “presidente banana”. Cultiva o péssimo hábito de fazer o gesto que leva o nome para jornalistas, diante de questionamentos que ele prefere não ouvir nem responder. E parece estar determinado, sinceramente disposto, a transformar o Brasil na sua particular
República das Bananas. Fala muito em “pátria” e “patriotismo”, mas não demonstra muita noção da grandeza do país e da cadeira ocupada por ele.
O presidente Bolsonaro, com inquietante frequência, parece estar à frente de outro governo ou de outro país, tamanho o seu grau de alheamento voluntário em relação às pautas prioritárias para o Brasil e para a sua própria equipe de governo, contrastando com a relevância desproporcional que ele não raro confere a questões comezinhas.
Qual foi o projeto mais importante enviado por ele ao Congresso em 2019? O da
reforma da Previdência. Mas enquanto o projeto de
Paulo Guedes superava a duras penas as etapas na Câmara e no Senado, o presidente se mostrava muito mais interessado, por exemplo, nos seus decretos para flexibilização da posse e do porte de armas (sustados no Congresso), os quais, em dado momento, teriam permitido até a aquisição de fuzis por civis e dificultado imensamente o trabalho policial na elucidação de crimes cometidos com armas de fogo.
Bolsonaro nunca soube, aliás, explicar a contento a reforma da Previdência, ficou alheio às discussões e à articulação política para a aprovação da matéria no Congresso e, na única vez em que entrou de verdade no debate, foi para atrapalhar a tramitação: fez questão de atrelar o projeto a um reajuste para membros das Forças Armadas, detonando, assim, o principal argumento político para a aprovação do texto: igualdade de condições para todos.
Em agosto, teve início a crise do aumento da devastação da Amazônia. A preocupação central de Bolsonaro: reduzir o desmatamento? Não. Após desmantelar órgãos de proteção ambiental, o presidente desautorizou o Inpe e meteu-se em polêmicas inócuas com tudo e com todos, de Angela Merkel a Emmanuel Macron, do ator Leonardo DiCaprio até a jovem ativista sueca Greta Thunberg.
O primeiro ano de governo Bolsonaro foi marcado por um MEC paralisado, mergulhado em caos ideológico (situação que persiste), um desemprego ainda muito elevado e a economia quase estagnada (
com crescimento muito tímido, de 1,1% do PIB em 2019). Mas Bolsonaro passou o ano muito mais interessado em questões completamente periféricas, como determinar o comercial que pode ir ao ar ou o filme que pode ser financiado; tentar acabar com radares nas estradas, com a obrigatoriedade das cadeirinhas e de exames toxicológicos para motoristas profissionais.
Porém, enquanto alardeia um medicamento, o presidente sabota sistematicamente os esforços de governadores, do próprio Ministério da Saúde e de outras autoridades constituídas no sentido de prevenir, por meio do isolamento social, uma explosão ainda maior do número de contagiados, cuja consequência inevitável será a implosão do SUS por insuficiência de leitos de UTI e de equipamentos para atender a tantos pacientes em estado crítico simultaneamente.
A atitude usual de Bolsonaro como presidente da República já não era a de um autêntico líder político, mas a crise do coronavírus realçou essa constatação.
Em 29 de abril, o presidente se esquivou: “Não vão botar no meu colo uma conta que não é minha”. Por óbvio, a pandemia não é culpa nem responsabilidade do presidente. Agir para conter seus estragos, sim; minimizar a mortalidade causada por ela, também. Aliás, como presidente da República, ninguém teria mais poder que ele para tomar medidas práticas e direcionar os esforços coletivos no rumo certo. O que ele prefere fazer, no entanto? Dar declarações e exemplos equivocados; tomar decisões ainda piores.
Um dia antes,
Bolsonaro já avisara: “Sou Messias, mas não faço milagre”. À parte o gracejo fora de hora e lugar, ele não precisa fazer milagres. Passar a agir como presidente já seria um belo começo. Sentados àquela cadeira, não se esperam salvadores da pátria nem milagreiros. Nem foi para isso que ele foi eleito. De um presidente, na verdade, espera-se um verdadeiro líder. E liderar o país de verdade é algo que ele se recusa a fazer.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Quantas e quantas vezes, desde antes da campanha, já não ouvimos Bolsonaro evocar essa passagem do Evangelho de João? Na prática, porém, o presidente não tem demonstrado tanto apreço pela revelação das verdades, doa a quem doer, especialmente sobre si mesmo, sobre o próprio governo e sobre a própria família.
Em matéria de administração pública, algumas questões são tão óbvias que é inacreditável que ainda estejamos tendo algumas discussões. Exemplo: por que ainda estamos discutindo se os cidadãos têm o direito de conhecerem o estado de saúde de seus governantes? Não há “direito à privacidade” que prevaleça quando o que está em jogo é o interesse público.
E a “privacidade” evocada por Bolsonaro, como se fosse ainda um cidadão comum, acabou no dia em que ele foi eleito presidente da República – em outros países, como nos Estados Unidos, teria acabado no dia em que se tornou candidato. Surreal, portanto, a resistência de Bolsonaro em tornar públicos os laudos dos exames que ele realizou, em março, para a Covid-19. Inacreditável que, no ano 2020,
um presidente precise ser forçado por decisão do STF a revelar o que os cidadãos têm o direito de saber.