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Mercado de trabalho

Fim da escala 6x1 exige aumento de produtividade para ser sustentável

Debate sobre redução da jornada de trabalho precisa considerar os impactos sobre custos, empregos e competitividade

Publicado em 17 de Junho de 2026 às 08:22

Públicado em 

17 jun 2026 às 08:22
Felipe Storch

Colunista

Felipe Storch

fdamasceno@fucape.br

A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal recoloca no centro do debate brasileiro uma questão legítima: como melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores sem comprometer a capacidade das empresas de produzir, contratar e competir? O governo federal tem defendido a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial, com dois dias de descanso remunerado, enquanto uma proposta alternativa apresentada no Senado busca flexibilizar a jornada por meio de um regime baseado em horas trabalhadas.


O tema não deve ser tratado como uma disputa simples entre trabalhadores e empresários. De um lado, é evidente que jornadas muito extensas produzem desgaste, reduzem o bem-estar, afetam a vida familiar e podem comprometer a própria produtividade. De outro, também é verdade que uma redução de jornada sem reorganização produtiva pode elevar custos, pressionar margens, reduzir contratações ou ser repassada aos preços. A pergunta central, portanto, não é apenas se a jornada deve ser menor. A pergunta mais importante é: como financiar economicamente essa mudança?

Carteira de trabalho: 12% da população sem emprego Arquivo

Toda economia enfrenta uma restrição básica. Se uma empresa passa a dispor de menos horas de trabalho, mas precisa manter o mesmo nível de produção, ela terá de compensar essa diferença de alguma forma. Pode fazer isso com mais tecnologia, melhor gestão, treinamento, reorganização de escalas, redução de desperdícios, maior previsibilidade regulatória ou ganhos logísticos. Quando esses elementos estão presentes, uma jornada menor pode ser compatível com produtividade maior. Quando não estão, o ajuste tende a aparecer em algum lugar: no preço final, no lucro, na informalidade, na redução do quadro de funcionários ou na piora do atendimento.


Por isso, o debate brasileiro precisa amadurecer. Melhorar as condições de trabalho é um objetivo desejável. Mas transformar esse objetivo em realidade sustentável exige discutir produtividade com a mesma intensidade com que se discutem direitos. Países que conseguiram reduzir jornadas ao longo do tempo o fizeram apoiados em ganhos acumulados de eficiência, capital humano, tecnologia, infraestrutura e organização empresarial. A redução da jornada foi, muitas vezes, consequência de economias mais produtivas. No Brasil, o risco é tentar antecipar o benefício sem construir integralmente as condições econômicas que o sustentam.


Esse ponto é especialmente relevante para pequenas e médias empresas. Grandes empresas podem ter mais capacidade de automatizar processos, redesenhar turnos, contratar sistemas de gestão e absorver custos de transição. Já negócios menores, especialmente em comércio, alimentação, serviços pessoais, saúde, hotelaria e atividades que funcionam em horários estendidos, têm menos margem de manobra. Para esses setores, a escala não é apenas uma escolha administrativa. Muitas vezes, ela decorre da necessidade de manter atendimento contínuo, operar aos fins de semana e lidar com demanda concentrada em determinados horários.

A realidade dos setores no Espírito Santo

No Espírito Santo, esse debate também precisa ser regionalizado. A economia capixaba combina comércio forte, serviços urbanos, turismo, logística, indústria, rochas ornamentais, construção civil e atividades portuárias. São setores com realidades muito diferentes. Uma regra desenhada de forma uniforme pode gerar impactos bastante distintos. Uma empresa administrativa, com jornada convencional, pode se adaptar de forma mais simples. Um restaurante, uma loja de shopping, uma pousada, uma transportadora ou uma operação portuária podem enfrentar desafios bem mais complexos. A política pública precisa reconhecer essas diferenças.


Isso não significa abandonar a discussão. Significa qualificá-la. Uma transição bem desenhada deveria combinar proteção ao trabalhador com previsibilidade para as empresas. Mudanças bruscas tendem a gerar resistência, judicialização e repasses de custos. Mudanças graduais, negociadas por setor, acompanhadas de ganhos de produtividade e adaptadas às características de cada atividade, têm maior chance de produzir bons resultados. O objetivo não deve ser simplesmente reduzir horas no papel, mas melhorar a relação entre tempo, produção, renda e qualidade de vida.


Há também um risco macroeconômico que não pode ser ignorado. Se a redução da jornada elevar custos de forma disseminada em setores intensivos em mão de obra, parte desse aumento pode chegar aos preços. Em um país que convive com inflação resistente, juros elevados e expectativas sensíveis, qualquer medida que pressione custos precisa ser avaliada com cautela. Evitar o repasse para preços é importante não apenas para proteger as empresas, mas para não onerar a sociedade como um todo, especialmente as famílias de menor renda, que sentem mais rapidamente o aumento de alimentos, transporte e serviços.


O caminho mais promissor é associar a discussão da jornada a uma agenda ampla de reformas microeconômicas. Isso inclui simplificação tributária bem implementada, redução da burocracia, melhoria da infraestrutura, segurança jurídica, qualificação profissional, digitalização de processos, modernização da gestão pública, abertura comercial responsável e estímulo à inovação. Produtividade não nasce de decreto. Ela depende de um ambiente institucional que permita às empresas produzir mais com menos desperdício, investir com menor incerteza e reorganizar suas operações com flexibilidade.


Também é preciso reconhecer que a produtividade não é apenas tecnologia. Muitas empresas brasileiras ainda perdem eficiência por falhas básicas de gestão, baixa profissionalização, pouca integração de dados, processos mal desenhados e dificuldade de planejamento. Em vários casos, antes de discutir robôs, inteligência artificial ou automação sofisticada, é necessário melhorar escala, treinamento, controle de estoques, atendimento, compras, logística e gestão financeira. Uma jornada menor pode até estimular empresas a se reorganizarem, mas isso exige tempo, capital e capacidade gerencial.

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O debate sobre a escala 6x1, portanto, pode ser uma oportunidade. Ele pode abrir uma conversa mais ampla sobre como queremos organizar o trabalho no Brasil. Mas essa conversa não pode se limitar a slogans. Uma economia de baixa produtividade não consegue sustentar, simultaneamente, salários maiores, jornadas menores, preços estáveis, empresas competitivas e mais empregos formais. Para que todos esses objetivos avancem juntos, é necessário elevar a eficiência da economia.


A boa política pública é aquela que melhora a vida das pessoas sem ignorar as restrições da realidade. Reduzir jornadas pode ser um avanço civilizatório, desde que venha acompanhado de uma estratégia econômica consistente. Caso contrário, o risco é transformar uma pauta legítima em mais uma fonte de custo, conflito e inflação.


O Brasil precisa discutir menos a oposição entre capital e trabalho e mais a construção de uma economia capaz de gerar prosperidade compartilhada. Jornada menor é desejável. Mas ela será sustentável apenas quando vier acompanhada de produtividade maior. Esse deveria ser o centro do debate.

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Felipe Storch

Felipe Storch Damasceno e economista com mestrado e doutorado em Administracao e Contabilidade. E professor de Economia e pesquisador dos impactos sociais e economicos de politicas publicas. Tambem e consultor, palestrante e comentarista na CBN Vitoria

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