O FGTS ficou mais atraente, mas isso não significa que virou um bom investimento. A proposta que está sendo analisada pelo Conselho Curador nesta terça-feira (28) prevê distribuir R$ 13,04 bilhões referentes ao resultado de 2025. Se aprovada, levará a rentabilidade das contas a cerca de 6,9% no ano, acima do IPCA de 4,26%. Atenção: os 6,9% são retrospectivos, não uma taxa garantida para os próximos anos.
Desde a decisão do STF, a remuneração total do FGTS, composta pela TR, juros de 3% ao ano e distribuição de resultados, passou a ter o IPCA como piso. Na prática, isso significa que o saldo não pode render menos do que a inflação. Em 2024, por exemplo, o FGTS rendeu 6,05%, ante uma inflação de 4,83%, proporcionando ganho real de aproximadamente 1,16%. A nova regra ajuda a preservar o poder de compra do trabalhador, mas não elimina o custo de oportunidade de manter os recursos no fundo.
Hoje, com a Selic em 14,25% e o CDI perto de 14,15% ao ano, aplicações pós-fixadas levam vantagem. Mantidas as taxas, um CDB de 100% do CDI renderia perto de 11,7% líquidos de IR em um ano. A poupança está em torno de 0,67% ao mês, cerca de 8,4% anualizados. No Tesouro IPCA+, as taxas atingiram a marca de IPCA + 8% ao ano em julho. Vale ressaltar que o preço do título oscila em caso de resgate antecipado.
Para quem tem dívida, porém, a comparação muda. Em maio, dados do Banco Central apontaram 15,09% ao mês no rotativo do cartão, 7,50% no cheque especial, 6,81% no crédito pessoal não consignado e cerca de 2,08% no consignado. Frente a um FGTS que rendeu 6,9% no ano, o contraste é enorme. Quando o custo efetivo da dívida supera o retorno esperado do dinheiro aplicado, amortizar costuma ser mais vantajoso.
No financiamento imobiliário, vale a mesma lógica. Em junho, taxas reguladas ligadas à TR apareciam aproximadamente entre 8% e 12% ao ano nas principais instituições. Para muitos contratos, usar o FGTS para reduzir o saldo pode economizar mais juros do que deixá-lo rendendo. Essa conta, no entanto, muda para quem tem financiamentos altamente subsidiados: com taxas de juros muito baixas, usar o FGTS para amortizar a dívida pode não ser a escolha mais vantajosa.
Também é preciso separar rendimento de liquidez. O FGTS não é reserva de emergência: o saque depende das situações previstas em lei. Dinheiro para uma emergência precisa estar acessível. Se o trabalhador já tiver direito ao saque, usar parte para eliminar dívida cara ou formar uma reserva líquida pode ser racional.
No fim, a pergunta correta não é apenas “quanto rende o FGTS?”, mas “qual problema esse dinheiro resolve?”. Juros evitados, liquidez e disciplina financeira podem valer mais do que alguns pontos de rentabilidade.