BRASÍLIA E WASHINGTON, EUA - Representantes do governo brasileiro disseram aos Estados Unidos nesta segunda-feira (31), na primeira negociação bilateral após o anúncio do tarifaço de julho, que o tratamento dispensado ao país pela Casa Branca é injusto e discriminatório.
Os ministros da Indústria, Márcio Elias Rosa, e das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmaram, na reunião virtual com Jamieson Greer, representante comercial da Casa Branca, "que o governo brasileiro não concorda com as medidas unilaterais impostas contra o país, que não são compatíveis com as regras multilaterais de comércio", segundo nota divulgada pelo governo Lula (PT).
Brasil e EUA concordaram em voltar a se reunir em nível ministerial, em encontro ainda sem data, para revisar o progresso alcançado nas negociações bilaterais e nas reuniões de nível técnico que devem acontecer nas próximas semanas.
"O lado brasileiro reafirmou estar aberto ao diálogo com as autoridades norte-americanas, em linha com os históricos laços de amizade e de comércio mutuamente benéfico que marcam as relações entre os dois países", diz a nota assinada pelo Itamaraty e pelo Ministério da Indústria. Segundo a chancelaria, as próximas reuniões de alto nível podem ser presenciais ou virtuais.
A parte brasileira não esperava grandes avanços a partir da reunião desta segunda, e cabe agora ver se as conversas avançam no nível técnico, segundo um membro do governo ouvido pela reportagem. Para essa pessoa, o encontro ainda assim foi positivo por mostrar que os canais continuam funcionando, já que o governo brasileiro sempre insistiu nas negociações.
O governo Lula teme uma espécie de tarifaço permanente caso o impasse com os americanos se prolongue.
Um auxiliar do presidente lembra que as barreiras comerciais sobre o aço e o alumínio implementadas em 2018, durante o primeiro mandato de Trump, não foram revogadas pelo sucessor, o democrata Joe Biden. O risco seria que as tarifas da Seção 301 implementadas em julho seguissem o mesmo caminho, com impactos ainda mais graves.
São duas as tarifas aplicadas pelos EUA contra o Brasil. Uma primeira, de 25%, por supostas práticas comerciais desleais. E uma segunda, de 12,5%, por supostas falhas no combate à importação de produtos produzidos com trabalho forçado – esta última substituiu a tarifa global de 10% que vigorou até julho.
Essas duas sobretaxas atingem ao mesmo tempo 3.985 produtos, ou US$ 10,8 bilhões (R$ 55 bilhões) em mercadorias brasileiras aos EUA, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria).
Neste mês, o governo brasileiro deu início aos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, que permite à União retaliar medidas comerciais aplicadas por outros países de forma injusta ou desproporcional. Nesta primeira etapa, o governo procurou os EUA e abriu consultas com diferentes ministérios da Esplanada, que se manifestarão sobre o tema.