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Longa caminhada

A evolução da última sobrevivente a ter alta após ataques em Aracruz

Thais completou 15 anos e celebrou a vida em bela festa de debutante; a luta após ser baleada na cabeça é longa, mas já conseguiu avanços significativos na mobilidade e comunicação

Publicado em 06 de Outubro de 2023 às 17:05

Maria Fernanda Conti

Publicado em 

06 out 2023 às 17:05
Thais Pessotti, uma das sobreviventes do atentado em Aracruz, completou 15 anos
Festa de aniversário de Thais foi repleta de emoções Crédito: Reprodução | ‎Foto Niposs 
Comemoração marcante para muitas adolescentes, a festa dos 15 anos de Thais Pessotti — última sobrevivente do atentado a escolas em Aracruz a ter alta médica — foi ainda mais especial. Quase um ano após o crime que chocou o Brasil, ocorrido em novembro de 2022, ela se recupera de um tiro na cabeça e mostra evolução que surpreende a família e até profissionais.
O aniversário da jovem foi celebrado para os mais íntimos no dia 2 de setembro, em um clube de Coqueiral, também em Aracruz, na região Norte do Espírito Santo. A data de nascimento de Thais é 11 de agosto, mas a comemoração precisou ser adiada devido a um acidente ocorrido com os avós paternos dela. 
"No ano passado, em uma conversa com o pai, ela disse que queria uma festa de aniversário como presente – ao invés de uma viagem. Mesmo diante de tudo o que aconteceu, conseguimos nos organizar para realizar esse desejo da Thais. Foi uma corrente entre amigos e família. Todo mundo se envolveu e ajudou", afirmou a mãe da adolescente, a professora Juliana Pessotti, de 43 anos.
A mãe lecionava na mesma escola particular que Thais estudava e viu a filha ser socorrida. Após levar um tiro na cabeça, a menina ficou internada por 122 dias e foi a última sobrevivente a receber alta. No ataque, quatro pessoas morreram e mais de 10 ficaram feridas. O atirador, à época com 16 anos, foi julgado e obrigado a ficar internado por três anos. 
"Hoje é festejar, agradecer e buscar forças para continuar. Houve tempo em que a gente lamentou, chorou... Não vou falar que às vezes esse sentimento não volte em mim, como mãe, mas estamos mais confiantes "
Juliana Pessotti - Professora e mãe da sobrevivente
Até mesmo a própria Thais se envolveu com a arrumação do evento, que ficou do jeitinho que ela gosta: com muito brilho, família reunida e direito a um dia de princesa. Em certo momento da festa, devido às dificuldades que ainda enfrenta para falar, ela agradeceu aos presentes por meio de cartazes. Veja abaixo:

(Re)aprendizado

Segundo familiares, a palavra que melhor define o tratamento de Thais é reaprendizado. Juliana contou para A Gazeta que a filha ainda está com a bala alojada na cabeça — por decisão médica e, em casa, tenta restabelecer os movimentos e a fala por meio de atendimentos profissionais que o plano de saúde da empresa onde o pai trabalha permitem à jovem, como fonoaudiólogo, nutricionista e psicólogo.
"Tudo que podia ser feito foi feito, mas a bala não foi possível retirar. O projétil está atrás do olho esquerdo e atingiu uma região que compromete a fala e a compreensão. Thais está falando algumas palavrinhas e relembrando os conteúdos de escola, leitura e escrita", contou a mãe.
Atualmente, o principal desafio da família é a parte cognitiva da menina, que está reaprendendo a ler e fazendo exercícios que estimulam a comunicação.  "A Thais até reconhece alguns sons e algumas letras. Em relação à fala, precisamos de um estímulo ainda maior. Mas ela se comunica. Se você se encontrar com ela, vai dizer 'Ei' e sorrir. Ela interage muito bem, de um jeito próprio. Desenvolveu a própria língua", ressalta.
Thais e a mãe durante um exercício para reaprender a ler
Thais durante um exercício para reaprender a ler Crédito: Acervo Pessoal

Melhora na mobilidade

Apesar dos atuais obstáculos, a adolescente apresenta um avanço expressivo na mobilidade e na coordenação motora, que também foram comprometidas devido ao tiro. Para isso, ela conta com a ajuda do personal trainer Ronaldo Sepulchro, com quem faz fisioterapia especializada há cerca de três meses. De acordo com ele, o lado direito da menina foi o mais comprometido.
Thais e o personal trainer Ronaldo Sepulchro, que a acompanha há 3 meses
Thais e o personal trainer Ronaldo Sepulchro, que a acompanha há 3 meses Crédito: Acervo Pessoal
"Quando a Thais chegou aqui, o caminhar dela era um pouco limitado; o movimento do braço direito não era tão bom; e tinha muita dificuldade para deitar. Hoje em dia, ela desenvolve a andada dela com mais controle e equilíbrio. O agachar e levantar também já faz com maior facilidade", citou.
Outra melhora observada foi na autoestima da sobrevivente, conforme aponta o especialista. "A atividade física também ajudou muito no lado psicológico. Não é que antes ela não sorrisse, mas hoje ela está muito mais feliz e alegre. Dá para ver que ela ama treinar, e tem socializado muito melhor", afirma Ronaldo.
Com o apoio de amigos, a família da menina ainda conseguiu montar uma estrutura em casa com banheiro acessível, quarto adaptado com ar-condicionado, televisão mais moderna e ajustes nas portas.
"Em casa, a Thais anda com a toda a independência. Ela pega água na geladeira; vai ao banheiro sozinha – só às vezes que ainda supervisionamos. Quando a gente sai para algum lugar diferente, ficamos ali conduzindo, mas a mobilidade dela está muito boa. Também conseguiu desenvolver a escrita com a mão esquerda; come direitinho..."
Juliana Pessotti - Professora e mãe da sobrevivente

O futuro

A expectativa da família é que Thais volte a estudar no próximo ano para "encarar a vida com as possíveis e necessárias adaptações", segundo pontuou a mãe. Profissionais orientaram que ela não retornasse ainda em 2023, devido aos esforços exigidos pelo tratamento. 
"Eu quero acreditar que não há limites para a minha filha. Todo o tempo, as expectativas não eram boas. Os pareceres e opiniões médicas vinham contra toda a nossa esperança. Não é uma reabilitação fácil, mas ela é muito forte e vai conseguir passar por isso", frisou Juliana. 
A evolução da última sobrevivente a ter alta após ataques em Aracruz-

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