O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) apontou que a escavação da obra onde morreram soterrados o empresário Vanderson Santana André, de 35 anos, e os pedreiros Ronival Moreira de Jesus, Ruan Moreira da Luz e Valdomiro Moreira de Jesus era executada fora das normas técnicas. Imagens (veja acima) mostram o momento do deslizamento.
Os quatro morreram na tarde de sexta-feira (31), após um barranco ceder durante a ampliação de uma distribuidora de bebidas em Nova Rosa da Penha II, em Cariacica, na Grande Vitória. O dono da obra era o empresário que também morreu no local. A família dele não quis falar com a reportagem.
Após vistoria realizada no último sábado (1º), técnicos do Crea-ES concluíram que o terreno havia sido escavado com um corte praticamente vertical, de 90º, situação considerada incompatível com as normas de segurança para esse tipo de obra.
Segundo o engenheiro fiscal do Crea-ES, Giuliano Battisti, cortes para aterros, taludes ou construção de muros de arrimo precisam obedecer a inclinações, ou seja feita em níveis, previstas em normas técnicas.
Um corte feito totalmente reto, com 90º , coloca totalmente em risco tanto os imóveis acima quanto quem está trabalhando abaixo. Esse tipo de intervenção segue normas que determinam as inclinações dos cortes. O que vimos foi um corte de 90º, totalmente fora das normas de segurança e das normas técnicas
Giuliano Battisti Engenheiro fiscal do Crea-ES
Durante a fiscalização, o Crea-ES também identificou indícios de que a obra era executada sem responsável técnico.
De acordo com Battisti, existia um projeto inicial para a construção do muro de arrimo, mas ele não teve continuidade. A partir disso, segundo o engenheiro, a obra teria avançado sem acompanhamento técnico.
Existiu um projeto no início, mas ele não foi aceito da maneira como foi proposto pelos contratantes. O profissional não deu continuidade ao projeto e o trabalho foi desenvolvido sem responsabilidade técnica, nem de execução nem de projeto. Até o momento, essa é a informação que conseguimos levantar. Pelas informações apuradas, o objetivo era aproveitar melhor o terreno
Giuliano Battisti Engenheiro fiscal do Crea-ES
A Defesa Civil Municipal informou que a obra havia sido embargada cerca de um ano antes do acidente, com determinação de paralisação imediata dos serviços.
Em nota, a Prefeitura de Cariacica afirmou que não houve falha na fiscalização e que o responsável retomou a obra de forma irregular cerca de uma semana antes do desabamento.
Dono da distribuídora, Vanderson tinha mais de 150 mil seguidores nas redes sociais. Horas antes da tragédia, ele publicou vídeos mostrando a rotina da empresa e o andamento da obra de ampliação do estabelecimento.
Em algumas das publicações, o empresário aparecia ao lado dos três pedreiros que também morreram no acidente. Ele deixa a esposa e um filho pequeno.
A família do empresário, responsável pela obra, preferiu não falar com a reportagem durante o velório. O g1 não conseguiu contato com a esposa de Vanderson.
As outras três vítimas eram da mesma família e moravam em Nova Rosa da Penha II, bairro onde aconteceu o desabamento.
Ronival havia trabalhado por muitos anos como taxista antes de atuar na construção civil. O filho dele, Ruan, havia deixado o emprego na Central de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa) para trabalhar ao lado do pai. Valdomiro, tio de Ronival, também integrava a equipe.
Segundo familiares, os três costumavam trabalhar juntos e eram conhecidos na comunidade.