Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

O que é, o que é?

Entre mágicas e gargalhadas, palhaços transformam rotina de crianças em hospitais do ES

Projeto de voluntariado atua há 25 anos e beneficia pacientes, acompanhantes e os próprios participantes com brincadeiras e interação

Publicado em 27 de Setembro de 2026 às 07:33

Julia Camim

Publicado em 

27 set 2026 às 07:33
A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde
A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde Fernando Madeira

Você sabe a diferença entre um ventilador quebrado e uma cadeira? As crianças que estavam internadas em um hospital em Vitória no último mês de agosto sabem. Isso porque, em uma tarde de sexta-feira, entre rodadas de exames, remédios e dor, os pacientes foram visitados por um grupo de pessoas que decidiu levar piadas, balões e gargalhadas para os corredores e quartos brancos e silenciosos.


A chamada Turma do Dr. Unimed, composta por voluntários que trabalham na Unimed Vitória, faz isso há 25 anos, capitaneada pelo ator e coordenador artístico Rodrigo Campaneli. Por meio do voluntariado, o grupo ajuda a transformar o ambiente hospitalar em um espaço mais leve e divertido, carregando nos bolsos das roupas de palhaços não só esponjas de lavar louças — utensílio de uma das suas piadas mais engraçadas —, mas também a disposição para ajudar a comunidade.


Esse princípio foi o que fez Laís Costa, de 27 anos, analista do Instituto Unimed Vitória — organização sem fins lucrativos da qual a turma faz parte —, se voluntariar pela primeira vez naquele dia. Para ela, dedicar seu tempo para entrar com o rosto pintado e um sorriso largo no Hospital Unimed Vitória é uma forma de ajudar o outro a superar momentos difíceis.


“O intuito principal da turma é esse, né? Levar um pouco de alegria para momentos de dor, momentos difíceis, e trazer um pouco de tranquilidade e felicidade para os pacientes. Isso já está no nosso sangue de colaborador.”

Acompanhando a turma, é possível notar que o objetivo é alcançado com facilidade. De porta em porta, as risadas se multiplicam e os quartos ficam mais coloridos. Aos poucos, mais crianças descobrem "o que o ovo novo disse para o ovo velho", ao passo que os responsáveis, mães e pais, também ficam menos tensos e até dão risada quando a turma responde: “Ô, vô!”.


É o caso de Benira Ravani, mãe do pequeno Guilherme, de 2 anos e 8 meses, internado em razão de um derrame pleural no pulmão direito. Ela, que viu o filho passar por quatro cirurgias em pouco mais de um mês de internação, naquela tarde se sentiu aliviada ao ver o menino sorrir para os palhaços.

A criança fica aqui deitada. Aí, eles chegam trazendo alegria, transmitindo amor, carinho… Acho isso legal, levanta um pouco a autoestima, não só das crianças, mas da gente também, que está aqui cansada há vários dias. Acho que a alegria é muito boa para as crianças. Até eu me diverti.

Benira Ravani, mãe de paciente pediátrico

A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde
A Turma do Dr. Unimed visitou Guilherme, de 2 anos e 8 meses, e fez criança e mãe se divertirem. Fernando Madeira
Do outro lado da cena

O mesmo sentimento de alívio e gratidão tomou conta de Gilcélia Louback, uma mãe que, há 17 anos, com a filha de 2 anos internada para tratar uma leucemia, encontrou nas charadas e truques de mágica um conforto tão grande a ponto de fazê-la querer se tornar uma palhaça que visita hospitais. 


“A minha história com a Turma do Dr. Unimed começa bem antes, quando a minha filha, que hoje tem 19 anos, tratou uma leucemia. O Dr. Unimed vinha fazer as visitas, e isso era reconfortante para a gente, que ficava internada aqui vários dias, num processo tão difícil”.


Naquele momento, porém, a mãe se dedicava 100% ao tratamento da filha e apenas colaboradores podiam se voluntariar para fazer parte da turma. Mas, como em um passe de mágica, a vida deu um jeito de, anos depois, colocar o grupo novamente no caminho de Gilcélia. 


“Um belo dia, surgiu uma oportunidade, há uns dois anos, de eu trabalhar na Unimed. E, na minha entrevista, a minha primeira pergunta foi: como eu faço para ser palhaça?".


Hoje, com a filha transplantada e curada há 12 anos, a voluntária participa das mesmas ações que já havia conhecido no passado, mas se sente ainda mais feliz fazendo as palhaçadas que transformam o clima do hospital e as pessoas visitadas.

A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde
Gilcélia é voluntária da Turma do Dr. Unimed. Fernando Madeira

Poder levar um pouco de alegria para essas crianças que ficam internadas em uma situação tão delicada, já tendo vivido o outro lado da moeda, é muito reconfortante. É muito desafiador também, porque, em vários momentos, a gente se vê naquela situação, mas conseguir arrancar um sorriso da família e da criança nesses momentos é muito gratificante. Ser voluntário não tem preço mesmo.

Gilcélia Louback, voluntária

O caso não é isolado e mostra que o impacto do voluntariado promovido pelo instituto permanece na memória de quem recebe a ação por muito tempo, sendo capaz de transformar realidades anos depois. 


Aos 29 anos, Zaqueu Souza Rodrigues, motorista de aplicativo, é um voluntário externo da turma. A história dele com os palhaços, no entanto, teve início em 2003, quando ele estava do outro lado da cena. Diagnosticado com linfoma de Hodgkin — um tipo de câncer que se origina no sistema linfático — no abdômen aos 5 anos de idade, ele recebeu inúmeras visitas do grupo até o ano de 2006, quando terminou o primeiro tratamento.


Em 2010, o menino foi diagnosticado novamente com a doença, desta vez na coluna, e precisou de um transplante de medula, realizado em 2011 no interior de São Paulo. Apesar da infância marcada por exames, tratamentos e internações longas de até três meses, Zaqueu se lembra exatamente da alegria que sentia ao ver as mágicas de Campaneli no quarto do hospital. 


Foi esse sentimento que fez o rapaz, há três anos, entrar em contato com a equipe para se voluntariar. “Eu falei: 'Eu já fui assistido, agora eu quero trazer alegria para alguém também'. E aí, de lá para cá, sempre venho acompanhando a turma.”

Como paciente, eu sentia que eles retiravam a dor e me traziam alegria. Agora, sou eu quem pego a dor e levo a alegria.

Zaqueu Souza Rodrigues, ex-paciente e voluntário.

A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde
Zaqueu fez tratamento oncológico e hoje atua como palhaço em hospitais. Fernando Madeira
Rompendo o silêncio com gargalhadas

Campaneli, que coordena as palhaçadas desde o início do projeto, em 2001, tem a mesma percepção. Segundo ele, o clima no hospital muda após as visitas, principalmente em relação aos acompanhantes das crianças. 


“O acompanhante tem mais consciência do que está acontecendo e dos problemas que deixou para trás, em casa. Então, a gente trabalha muito com a questão do bem-estar do acompanhante. Eles entendem como é importante lembrar que é uma criança que está ali.”


Por isso, inúmeras interações são feitas com as mães e pais. Os palhaços perguntam, por exemplo, por que o pão não conversa com a batata e respondem, em seguida, que é porque o pão é francês, e a batata... “inglesa”, dizem os acompanhantes. 


Mas a melhor parte dessa brincadeira é a entrega de um prêmio a quem respondeu corretamente: os palhaços, felizes, começam a perguntar se a mãe ou o pai vive em apartamento, se a cozinha é grande e se já possui uma máquina lava-louças. Expectativa criada, é só entregar o presente: uma esponja acompanhada de gargalhadas.

A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde
A Turma do Dr. Unimed é uma iniciativa que utiliza a arte da palhaçaria para promover bem-estar emocional em ambientes de saúde Fernando Madeira
Charadas e bem-estar de mãos dadas

A mudança no ambiente causada pela turma não acontece por acaso. O objetivo do Instituto Unimed Vitória, na verdade, é justamente este, como explica Milene Mello, gerente-geral do instituto.


“O Instituto Unimed Vitória foi criado em 2012 para ampliar a atuação de responsabilidade social da Unimed Vitória. Então, buscamos fazer diferença onde estamos inseridos.”


Também para cumprir essa missão, os projetos e ações voltados para desenvolver um comportamento mais saudável e colaborar para o bem-estar social dos capixabas são levados para hospitais públicos da Grande Vitória, além de outros espaços como escolas e praças.


Segundo Milene, isso amplia o impacto do voluntariado corporativo, que afeta e transforma a vida dos colaboradores tanto quanto a dos pacientes. Só no primeiro semestre de 2026, foram 27 ações realizadas pela turma, com 81 voluntários, 162 horas doadas e mais de 3.300 pacientes beneficiados.


Com resultados e impactos para todos, a palhaçaria hospitalar funciona como um processo terapêutico para os pacientes e seus acompanhantes, segundo Felipe Tabachi, cirurgião oncológico e diretor clínico do Hospital Unimed Vitória. Para ele, a interação com a turma muda o comportamento dos pacientes e, consequentemente, ajuda no bem-estar.


“Quando as pessoas têm o pensamento positivo, a evolução da doença acaba acontecendo de uma forma muito diferente e muito positiva. Com certeza, faz muita diferença a humanização do atendimento aos pacientes”, afirma ele.


E é com essa responsabilidade de levar leveza aos quartos hospitalares, cheios de dor e preocupação, que a turma se despede de mais uma ação, deixando, antes, a resposta para a charada que iniciou esta história: “trinta” — é a diferença entre o ventilador quebrado, que “no venta”, e a cadeira, onde “cê senta”.

Leia mais

Entre mágicas e gargalhadas, palhaços transformam rotina de crianças em hospitais do ES

Colégio do ES é condenado a indenizar aluna autista após exclusão em aulas de Inglês

CBN Vitória ao vivo: enxaqueca tem cura? É mais comum em mulheres? Tire suas dúvidas!

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Risco de guerra pode salvar montadoras europeias?
Imagem de destaque
'Nasci enquanto minha mãe era mantida vida em um pulmão de aço'
Imagem de destaque
Governo Lula vai chamar clubes de futebol para falar de bets

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados