Foi no Natal de 2024 que a produtora Renata Borges teve a ideia de transformar em musical a vida do ator Paulo Gustavo, morto por complicações de Covid em 2021. Acostumada a pôr em cena grandes espetáculos da Broadway, ela buscava sua primeira produção de uma obra nacional. O único senão era que a história precisaria justificar o investimento.
Borges procurou o empresário da mãe do humorista, Déa Lúcia, e apresentou a proposta a ela. A dúvida inicial era se a homenagem não chegava cedo demais. Déa não viu problema. "Tudo do Paulo Gustavo era para ontem. Comigo é igual", diz.
O resultado é "Meu Filho É um Musical", que chega ao Teatro Renault, em São Paulo, depois de uma temporada no Rio de Janeiro. Mais do que emprestar a história do filho à produção, Déa tratou de cercá-la de gente que participou dela. Chamou João Fonseca, diretor de "Minha Mãe É uma Peça" e de "Vai que Cola", para dividir a encenação com a filha Ju Amaral. Fil Braz, amigo e parceiro de Paulo no teatro, no cinema e na televisão, assina o texto com a roteirista e antropóloga Beatriz Coelho.
Para Fonseca, o convite carregava uma ironia difícil de ignorar. "Eu comecei dirigindo o filho fazendo a mãe e agora estou dirigindo a mãe fazendo a peça do filho", diz. O diretor afirma que hesitou justamente pela proximidade com Paulo. "No fundo, a última peça que eu queria fazer era essa. A gente não queria estar aqui fazendo isso."
Déa também acabou na homenagem. Inicialmente, não participaria da montagem, mas, em uma brincadeira durante os ensaios, terminou incorporada ao espetáculo. Ela canta "Fascinação", uma das canções favoritas do filho. É, como a própria descreve, uma "participação afetiva". "O público gosta de me ver ali. Eles se sentem abraçados também", diz Déa, que não estará presente em todas as sessões devido aos compromissos com o Domingão do Huck.
No palco, quem a interpreta é Stella Maria Rodrigues, atriz que já havia trabalhado com Paulo Gustavo no cinema. O ator chegou a dizer que gostaria de vê-la interpretando sua mãe em um projeto futuro. Agora, Stella constrói a personagem tendo a própria Déa a poucos metros de distância, dividindo o camarim.
"Não sou parecida, não sou uma imitadora", afirma. "Eu fico olhando para ela, vendo o que tenho dela, o que não tenho, o que posso colocar." Para a atriz, a convivência se transformou em uma espécie de laboratório permanente e também numa situação incomum depois de 42 anos de carreira. Pela primeira vez, tem a chance de interpretar alguém que pode entrar no camarim e comentar a própria representação.
A montagem acompanha Paulo desde a infância em Niterói até a transformação de "Minha Mãe É uma Peça" em fenômeno do teatro e do cinema. Pierre Baitelli e João Pedro Chaseliov se alternam no papel principal, evitando, segundo eles, transformar o trabalho numa competição de imitação.
"O público quer ver Paulo Gustavo no palco, mas o Paulo que ele conhece não é o mesmo Paulo antes da fama", diz Chaseliov, que sempre teve no humorista uma inspiração. "Eu cresci vendo o Paulo e me tornei ator com a influência dele, então poder interpretá-lo é fechar um ciclo", diz.
Para Baitelli, a figura do humorista era mais distante, mas, à medida que estudou para a personagem, foi descobrindo suas nuances. "O Paulo era um gênio. Ele tinha um humor que formou gerações e isso é muito impressionante. Ninguém fazia como ele, talvez por isso seja tão difícil esse trabalho".
Essa diferença ajuda a explicar o recorte escolhido por Fil Braz. O musical interessa-se menos pela sucessão de sucessos do que pelo ambiente em que eles foram construídos. A mãe transformada em Dona Hermínia, a família convertida em matéria-prima e o teatro como lugar onde Paulo aprendeu a transformar observação em personagem.
Fonseca lembra que a exposição pública do humorista também produziu consequências para além da bilheteria. Depois de "Minha Mãe É uma Peça", diz ter sido procurado por homens gays que contavam que assistir à obra com os pais havia mudado a relação dentro de casa. Paulo aparecia publicamente como homem gay, casado e depois pai, sem transformar isso numa tese.
"Ele trabalhou bastante para que isso fosse mais bem visto", diz o diretor. Talvez por isso "Meu Filho É um Musical" funcione menos como a biografia convencional e mais como uma reunião de sobreviventes.
MEU FILHO É UM MUSICAL
- Quando Qui. e sex., às 20h; sáb., às 15h e 20h; dom., às 14h30 e 19h30
- Onde Teatro Renault - av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, República, São Paulo
- Preço A partir de R$ 50
- Autoria Ju Amaral e João Fonseca
- Elenco Déa Lúcia, Stella Maria Rodrigues, João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli