Por muito tempo, o brega foi tratado como música para ficar do lado de fora das grandes vitrines da indústria. Agora, uma de suas representantes prepara uma entrada que não deve passar despercebida no Rock in Rio: Priscila Senna, 35, sobe ao palco com três figurinos que, juntos, custaram cerca de R$ 500 mil.
"É o poder do brega", diz a cantora pernambucana sobre a dimensão que o gênero conquistou nos últimos anos. Para ela, estrear em um dos maiores festivais do país representa mais do que uma realização individual. É também a chegada de uma música historicamente associada às periferias do Nordeste a espaços que durante muito tempo pareceram distantes.
"Começou a cair a ficha agora", afirma Priscila, que diz ter sido tomada por emoção e ansiedade desde que recebeu o convite. "Agora é hora de cantar e mostrar para o mundo a força do brega nordestino, que é tão gigante."
O show terá como tema "No Alto da Minha História" e pretende transformar a trajetória da artista em parte da própria apresentação. A narrativa passará pela cenografia, pelas músicas, pelas performances e também pelas roupas.
Serão três trocas de figurino, assinadas pelo stylist Luiz Plinio e sua equipe. Segundo Priscila, uma das produções fará referência direta a sua trajetória, ao brega e à cultura nordestina.
"Os looks fazem parte do espetáculo", diz. "Todos foram pensados para o palco e para compor o conceito do show. Como investimos muito para construir um show grandioso, com direção artística e surpresas musicais."
A estreia também será registrada em um documentário sobre a preparação para o festival e o caminho percorrido pela cantora desde o início da carreira.
"Gravamos em Águas Compridas, onde cresci, com depoimentos da minha família e de pessoas que acompanharam tudo desde o início", conta. Entre os entrevistados está Elvis Pires, cunhado da artista e compositor de grande parte das músicas que ela interpreta.
A apresentação no Rock in Rio chega em um momento de expansão do brega nordestino para festivais e palcos que antes pareciam reservados a outros gêneros. Priscila, porém, lembra que essa mudança é resultado de uma trajetória construída por muitos artistas.
"É uma conquista totalmente em conjunto. É um gênero que sofreu muito preconceito e hoje está começando a ser aclamado", afirma.
Ela cita Reginaldo Rossi, conhecido como o Rei do Brega, como uma referência fundamental do movimento. Priscila chegou a dividir o palco com o cantor antes de sua morte, em 2013.
"Estou sendo a primeira, mas espero que outras artistas do brega também tenham essa oportunidade. O nosso brega tem muita gente talentosa."
Para a cantora, o preconceito contra o gênero ainda existe, mas perdeu espaço à medida que a música passou a circular por novos públicos e plataformas. "Hoje, o brega é chique. Brega é falar mal do brega", brinca.
Priscila soma cerca de 2 bilhões de reproduções de suas músicas nas plataformas digitais e, nos últimos anos, também aproximou o gênero de outros universos da música pop e do sertanejo. Entre as parcerias, estão trabalhos com Anitta, Gusttavo Lima, Simone Mendes e Liniker.
VIDA FORA DOS PALCOS
Mãe e casada há 17 anos, ela afirma que a rotina de shows fez com que precisasse abrir mão de datas e momentos importantes com os filhos. "Quem vive de música trabalha no Natal, Ano-Novo, aniversários", lembra. "Por muitos anos precisei abrir mão dessas datas para construir minha carreira e dar uma vida melhor a eles."
Priscila diz que essa cobrança não é exclusiva de artistas e atinge muitas mulheres que tentam conciliar trabalho e família.
"Acho que toda mãe que trabalha, seja artista ou não, conhece esse desafio de equilibrar a vida profissional e a família", afirma. "Eu vim de uma origem muito humilde, de necessidades mesmo. Então, os meus filhos sempre entenderam que eu trabalhava muito para construir uma vida melhor para nossa família."
Seu próximo grande desejo é concorrer ao Grammy Latino. "Eu tenho vivido momentos tão especiais nos últimos anos, pisado em palcos que não poderia imaginar. Com certeza, Deus me deu muito mais do que eu poderia sonhar", diz.
No ano passado, Priscila acompanhou Liniker na premiação. Ela participa da faixa "Pote de Ouro", do álbum "Caju", indicado ao prêmio. "Agora seria incrível concorrer com um trabalho meu."
Veja Também