De modo geral, os governos têm em suas agendas prioritárias a educação, a saúde e a segurança, esquecendo, porém, que a mobilidade não só é um direito fundamental do cidadão, como uma questão de sobrevivência, afinal ele precisa trabalhar ou estudar, ir ao médico ou ao posto de saúde, e se sentir seguro na sua rotina de deslocamentos, ou seja, em tudo isso se encontra transversalmente o ato de mover-se. E só para reforçar essa questão, citamos aqui o Art. 6º da Constituição Federal que diz: “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, O TRANSPORTE...”
Contudo, as manifestações populares de 2013, surgidas após o aumento da tarifa do transporte público, pegaram de surpresa os governos federal, estaduais e municipais que nem sequer imaginavam a prioridade dada pelos cidadãos das médias e grandes cidades ao tema da mobilidade.
Até aquele período, porém, o Brasil ainda usufruía de um ciclo econômico estável e até mesmo otimista com a proximidade da Copa do Mundo de 2014. Para preparar o país para o evento, várias obras de infraestrutura, principalmente de mobilidade, estavam previstas, oferecendo um cenário de transformações urbanas, e não só nas cidades-sedes.
No entanto, 2014 chegou e o que vimos foi não só a derrota da Seleção, mas também o começo da pior crise econômica da história recente. E assim, cinco anos após às manifestações de 2013, não houve melhoras significativas em termos de mobilidade urbana, a não ser uma leve reduzida no fluxo diário de veículos em circulação devido a uma conjunção de fatores: pessoas que tinham carros financiados e não quitaram e tiveram que devolvê-lo; o recuo no emprego que deixa pessoas em casa; a perda de renda que reduz compras e, portanto, também deixa pessoas em casa; ou até mesmo os sequentes aumentos no preço dos combustíveis.
Apesar disso, cidades como o Rio de Janeiro, que ainda conseguiu inaugurar o VLT (veículo leve sobre trilho) na região central da cidade, ou Salvador, que agora já conta com metrô, principalmente passando pela via Paralela indo até o aeroporto, tiveram algum avanço, ao contrário do que ocorreu na Grande Vitória.
Aqui o governo do Estado por diversas vezes apresentou o projeto do BRT (bus rapid transit) como o novo modal de transporte capaz de melhorar o tempo médio de viagem dos cidadãos que se locomovem pela região metropolitana. Ainda que seja de média capacidade, pois se considera como alta capacidade trem e metrô, o BRT é mais viável do ponto de vista econômico, pois requer investimentos bem abaixo dos dois outros sistemas sobre trilhos.
Eis que agora esse mesmo governo desiste do projeto, anuncia sua adaptação para o BRS, um sistema mais simplificado em relação ao BRT, porém menos eficaz, o que mostra como ainda estamos longe de um transporte adequado às aspirações e necessidades da população capixaba.
E, enquanto isso, trabalhadores e estudantes terão mesmo que se contentar com o velho Transcol, e suas estações cheias de problemas e ônibus lotados.