Efraín Gallego não perde a esperança de que encontrem seu irmão com vida, embora, ao falar dele, preso sob os escombros de um edifício, sua voz fique embargada e ele precise engolir em seco até se recompor.
"É angustiante. Cada vez que há um alerta de que uma pessoa está viva, renasce em mim a esperança de encontrá-lo", me diz Gallego, emocionado.
Seu irmão, de 80 anos, ficou soterrado junto com a esposa quando o edifício Torres del Limonar desabou, em Cali.
Das mais de 180 mortes contabilizadas até o momento no país, pelo menos 95 ocorreram em Cali, segundo informou o prefeito, Alejandro Éder.
Na manhã de sol escaldante de terça-feira (11/08), o Torres del Limonar é uma montanha de escombros, com colchões, móveis e pertences aparecendo entre o concreto.
Sobre os destroços, estão equipes de resgate e voluntários. "Silêncio! Somos bombeiros. Se estiverem nos ouvindo, gritem ou façam qualquer barulho", ordenam as equipes de resgate em direção ao interior dos escombros.
A frase se repete cada vez que as equipes cavam o suficiente para acreditar que podem estar perto de algum sobrevivente.
São os momentos em que Gallego recupera a esperança, mas os segundos passam e nenhuma resposta vem de baixo.
Dezenas de edifícios desabaram
O Torres del Limonar é um entre mais de 50 edifícios que desabaram em Cali.
Fica no sul da cidade, no bairro Capri. Tinha quatro andares e dezenas de apartamentos. Não se sabe o número exato de moradores que estavam no local quando o edifício desabou.
Ao redor, à exceção de algumas rachaduras, os demais imóveis parecem ter escapado da mesma sorte.
Até aqui chegaram equipes de resgate, militares, voluntários, paramédicos, bombeiros, trabalhadores humanitários e jornalistas.
Há mais de uma centena de familiares e pessoas próximas esperando por notícias. De acordo com o prefeito Éder, na noite de segunda-feira estimava-se que 25 pessoas estivessem presas sob os escombros.
Diante disso, o governo municipal decretou toque de recolher durante a noite para agilizar os trabalhos de resgate.
A noite passou. As escavações continuam. Um socorrista que estava no local me disse que haviam conseguido retirar com vida cerca de 10 pessoas dos escombros.
Relatos da imprensa local, como o da rádio Blu Pacífico, falavam em seis sobreviventes, entre eles uma bebê de poucos meses.
Em meio à tragédia e enquanto se aguarda um balanço oficial mais conclusivo, os números costumam ser mais estimativas do que dados definitivos.
"O que posso dizer é que, neste momento, há pelo menos duas pessoas que foram detectadas com vida. Estão sendo feitos túneis para retirá-las. Uma delas precisa ter a perna liberada", me conta o socorrista James Velasco.
O pior terremoto do século
O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia na segunda-feira é o "pior" registrado neste século, segundo o Serviço Geológico Nacional.
Com epicentro em San José del Palmar, na região de Chocó, o terremoto também deixou destruição e mortes em regiões do noroeste do país e no Eixo Cafeeiro.
Em Cali, nos arredores dos destroços das Torres del Limonar, e ao contrário de Gallego, muitos moradores preferem não falar. Eles estão visivelmente abalados.
Alguns dormem exaustos no chão ou em um sofá na rua. Outros se reúnem para fazer companhia uns aos outros à sombra.
As horas se tornam cada vez mais longas, e a angústia aumenta.
Diante disso, Velasco oferece esperança. "No passado, participei de operações em que conseguimos retirar sobreviventes depois de sete dias presos", afirma.
"Quem está destinado a sobreviver, sobrevive. Nada está escrito."
'Queria ajudar desde o início'
Apesar da angústia, Gallego faz questão de reconhecer o trabalho da população.
"É preciso mencionar todas as pessoas que vieram ajudar com água, insumos, ferramentas, equipamentos; há muita colaboração. Os voluntários são numerosos", diz.
Alejandro Mahecha, de 19 anos, é um desses voluntários. Ele decidiu vir ajudar depois de passar a noite em segurança com a família e superar o choque inicial.
"Queria ajudar desde o início. O terremoto afetou minha cidade e as casas de pessoas conhecidas. Vim para este local porque se fala muito sobre este edifício e sobre a necessidade de ajudar aqui."
Junto a vários amigos, Mahecha ajuda a remover escombros, levar água aos socorristas e liberar a rua para facilitar os trabalhos de evacuação.
Ao fundo, ouvem-se martelos e serras que abrem caminhos de fuga em meio à destruição.
Eles só param quando os presentes levantam os braços.
Isso significa que todos devem fazer silêncio. Gallego aguarda. Desta vez, também não houve notícias de seu irmão.