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A nova e implacável tática russa contra moradores da capital da Ucrânia

Ataques cada vez mais frequentes e intensos contra a capital da Ucrânia têm deixado moradores apreensivos.

Publicado em 21 de Setembro de 2026 às 08:34

BBC News Brasil

Publicado em 

21 set 2026 às 08:34
Imagem BBC Brasil
Daria deixou seu apartamento em Kiev neste verão depois que os ataques russos contra a cidade se intensificaram Crédito: BBC News Ukraine

Durante boa parte do tempo desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, Daria não tinha medo dos bombardeios.

Mesmo nas noites de ataques mais intensos, a jovem de 27 anos conseguia dormir apesar das explosões perto de seu apartamento, em Kiev, capital da Ucrânia.

Como muitos ucranianos, ela seguia a chamada "regra das duas paredes": procurava ficar em um ponto da casa protegido do exterior por pelo menos duas paredes.

Mas neste ano isso mudou.

Nos últimos meses, os ataques russos contra a capital ucraniana se tornaram mais frequentes e intensos.

Só nos dez primeiros dias de julho, a Rússia lançou dezenas de mísseis balísticos em três grandes ataques, que mataram quase 60 civis, segundo dados oficiais. Ataques de proporções semelhantes voltaram a ocorrer em agosto e setembro.

Uma análise da BBC Verify, serviço de verificação da BBC, com base em dados do governo mostrou que Kiev recebe hoje mais alertas de ataques aéreos por dia do que em qualquer outro período desde o início da invasão russa, em 2022.

Foi durante um ataque, em uma noite de maio, que Daria percebeu que já não se sentia segura em casa.

Ela e o namorado estavam no corredor do apartamento, no nono andar, assistindo a uma luta de boxe enquanto explosões sacudiram a região. As ondas de choque fizeram as janelas abrir e bater repetidamente.

"Quando a luta acabou, eu já não tinha nada para me distrair", diz Daria. "Foi aí que percebi que estava com muito medo."

A princípio, ela pensou em começar a usar um abrigo antiaéreo próximo de casa durante os ataques.

Mas, em junho, depois que uma jovem mãe morreu enquanto corria para um abrigo em Kiev, Daria decidiu deixar a cidade.

Ela voltou para a casa de campo da família, em Romankiv, a 30 km de Kiev. Agora, passa quatro horas por dia no trajeto entre a casa e a capital, onde trabalha no setor de defesa.

Imagem BBC Brasil
Foto do Serviço Estatal de Emergência mostra os danos causados por um ataque russo em julho Crédito: Serviço Estatal de Emergência da Ucrânia

O caso de Daria está longe de ser isolado.

Moradores de Kiev que dizem ter se acostumado aos ataques russos com mísseis e drones contaram ao Serviço Mundial da BBC que a nova escalada dos bombardeios os levou a repensar a forma como vivem.

Antes, o sistema de defesa aérea e os serviços de inteligência militar da Ucrânia davam aos moradores alguma possibilidade de se preparar. Grandes ataques muitas vezes podiam ser identificados com antecedência, o que permitia passar a noite em abrigos, deixar a cidade ou tomar outras precauções.

Desde o verão, no entanto, a Rússia mudou de estratégia.

O país passou a depender menos de aviões, cujos movimentos podem ser identificados com antecedência, e a usar mais mísseis balísticos, que viajam em altíssima velocidade e deixam pouco tempo para reação.

Em alguns casos, os alertas de ataque aéreo começam apenas instantes antes de os mísseis atingirem o alvo ou até juntos com as primeiras explosões.

Daria consegue ver da janela do apartamento o abrigo mais próximo. Ela ainda mantém o imóvel alugado, mas leva cerca de dez minutos para chegar até lá. Durante um ataque com mísseis balísticos, diz, pode receber o alerta apenas quatro minutos antes, ou até menos.

Ela decidiu deixar Kiev em junho, depois de passar férias no exterior neste verão e ver pessoas levando uma vida "normal". Desde então, passou apenas uma noite em Kiev.

Imagem BBC Brasil
Mísseis balísticos são difíceis de detectar com antecedência Crédito: BBC

Mas, para muita gente, sair da cidade não é uma opção.

Olha Vlasova, de 62 anos, mora no sétimo andar de um prédio com a mãe, Nadia Tsybina, de 98 anos.

Apesar da idade, Nadia continua muito atenta ao que acontece no mundo.

Da cama, acompanha as notícias da Ucrânia e de outros países e conversa sobre assuntos que vão das políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos protestos anticorrupção em Kiev e aos arquivos do caso Epstein.

Nadia também aprendeu que muitas vezes consegue perceber apenas pelo som se um míssil ou drone russo foi interceptado ou conseguiu atingir o alvo.

Neste verão, diz ter ouvido menos interceptações.

"É angustiante quando não há nada para derrubá-los", diz Nadia. "Dá para ouvir que estão atirando com o que têm: fuzis, metralhadoras."

Imagem BBC Brasil
Nadia, de 98 anos, continua acompanhando os acontecimentos no mundo mesmo da cama Crédito: BBC News Ukraine
Imagem BBC Brasil
Olha passou a colocar um colchão na janela para proteger a si mesma e a mãe dos estilhaços de vidro Crédito: BBC News Ukraine

Como Nadia não consegue sair da cama, ela e sua filha Olha não têm como ir para um abrigo, por mais grave que seja o ataque. Assim que soa o alerta de ataque aéreo, Olha cobre a mãe com um cobertor, encaixa um colchão na janela e depois se esconde dentro de um guarda-roupa, onde fica protegida do exterior por duas paredes.

Nadia coloca um travesseiro sobre a cabeça para proteger o rosto de estilhaços de vidro.

Dentro do guarda-roupa, Olha muitas vezes passa a noite acordada, acompanhando as notícias.

"Eles vêm, bombardeiam a gente", diz Nadia. "Você nem teve tempo de pegar no sono e já soa outro alerta. Eles vêm de novo, derrubam de novo. E isso continua a noite inteira. "As pessoas não dormem e depois ficam andando por aí como zumbis."

Imagem BBC Brasil
O novo ano letivo começou em Kiev com muitos alunos assistindo às aulas em abrigos, enquanto um alerta de ataque aéreo estava em vigor pela manhã Crédito: Global Images Ukraine via Getty Images

Com o aumento dos ataques durante o dia, a rotina em Kiev passou a ser interrompida por alertas de ataque aéreo a qualquer hora.

No início de setembro, quando as crianças voltaram às aulas depois das férias de verão, dezenas de alertas foram acionados, seguidos por explosões e incêndios.

Segundo o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, duas crianças ficaram feridas nos ataques de 31 de agosto. Com isso, muitas crianças ficaram em casa, enquanto outras passaram horas nos porões de escolas e creches.

Imagem BBC Brasil
Passageiros em Kiev se acostumaram a longas esperas por causa das interrupções no metrô Crédito: Reuters

Quando os alarmes soam, o comércio e o transporte também são afetados. Os shopping centers fecham e as estações de metrô que ficam na superfície suspendem o funcionamento. Com isso, as ligações de transporte público entre as margens esquerda e direita de Kiev, separadas pelo rio Dnieper, muitas vezes ficam interrompidas por horas.

Para tentar melhorar a situação, estão sendo adotadas novas regras para o funcionamento do metrô durante os alertas de ataque aéreo.

Para Olha, isso significa ver menos a neta de oito anos, que mora do outro lado da cidade.

Ela sabe que, se a neta for visitá-la, pode ter dificuldade para voltar para casa. Quando o metrô para de funcionar, a única alternativa de Olha são os táxis, que são caros. Segundo ela, uma corrida para atravessar o rio pode custar até 1.000 grívnias ucranianas (cerca de R$ 120), pouco menos de um oitavo do salário mínimo mensal da Ucrânia.

A situação aumentou sua frustração com o que vê como hesitação de alguns países parceiros da Ucrânia em fornecer mais mísseis para a defesa antiaérea do país.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tem pedido repetidamente aos aliados mais sistemas de defesa antiaérea e mísseis interceptadores.

"Eles [os aliados da Ucrânia] ficam esperando, pensando: 'E se nós formos atacados?'", diz Olha. "É como se você se recusasse a dar um remédio a um paciente com câncer porque pensa: 'E se um dia eu ficar doente?' Talvez você não fique. Dê o remédio antes que o câncer vença!".

Imagem BBC Brasil
Nem Natalia nem a filha conseguem dormir durante os ataques noturnos Crédito: Natalia Bushkovska

Em outra parte da cidade, Natalia Bushkovska, mãe de dois filhos, repassa todas as noites três planos diferentes.

O plano A é colocar colchões e cobertores no corredor, atrás de duas paredes internas. O plano B é levar a família para o corredor compartilhado do prédio. E o plano C é descer para o porão.

Mesmo lá, admite, ela não se sente totalmente segura.

"Deixo uma mochila pronta com itens essenciais", diz Natalia, de 37 anos. "Tem um torniquete para casos de hemorragia grave. Também deixo um apito, por precaução.

"Se acontecer o pior, os socorristas poderão nos encontrar debaixo dos escombros."

A filha de nove anos também tem sua própria bolsa de emergência, com brinquedos, protetor labial e um torniquete. Assim como o irmão, de 12 anos, ela aprendeu a usar o torniquete em um curso de primeiros socorros.

Natalia diz que os ataques constantes são exaustivos.

Enquanto o filho muitas vezes continua dormindo durante os bombardeios, ela e a filha acordam quase sempre.

"Por causa dos ataques, não consigo dormir o suficiente", diz. "Agora, no quinto ano da guerra, está cada vez mais difícil me recuperar depois de noites assim."

Segundo Natalia, a intensificação dos ataques também está afetando a saúde mental dos moradores da cidade.

"As pessoas estão exaustas. Não têm tempo suficiente para se recuperar."

Na quinta-feira, 17 de setembro, a Rússia lançou um ataque com mísseis balísticos contra Kiev. Segundo o prefeito Vitali Klitschko, 20 pessoas ficaram feridas. Entre elas estavam duas crianças, de 10 e 12 anos.

Reportagem adicional de Janet Ball

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