A leucemia é um tipo de câncer que afeta os tecidos formadores de sangue no corpo, incluindo a medula óssea. Ela pode ser qualificada como sendo aguda ou crônica, considerando a velocidade de divisão dessas células e, portanto, a agilidade com a qual a doença se desenvolve.
As Leucemias Agudas podem ocorrer em todas as faixas etárias sendo que a Leucemia Linfóide Aguda (LLA) tem maior incidência na infância e juventude. Já a Leucemia Mielóide Aguda (LMA) é o tipo mais comum de Leucemia em adultos, correspondendo a 80% dos casos neste grupo. A ocorrência de LMA aumenta com a faixa etária (maior incidência acima de 65 anos). Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados 12.220 novos casos de leucemia, sendo 6.540 em homens e 5.680 em mulheres a cada ano do triênio 2026-2028. Apesar de ser altamente curável, ele é o décimo tipo de câncer mais comum no país, sem considerar os tumores de pele não melanoma.
"A Leucemia é desencadeada por mutações genéticas nas células hematopoiéticas, responsáveis pela produção das células sanguíneas (glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas). Estas mutações fazem com que a célula hematopoiética passe a produzir uma grande quantidade de células anormais, que não conseguem amadurecer e desempenhar sua função normalmente, ocupando a medula óssea e impedindo que células normais sejam produzidas", explica Mariana Oliveira, oncohematologista da Oncoclínicas São Paulo.
Segundo a especialista, a doença não se trata de uma condição hereditária, mas sim de alterações genéticas adquiridas e que acabam por desencadear o surgimento do câncer. "Infelizmente, não existe uma forma de prevenção. Porém, é importante estar atento e procurar um médico sempre que tiver algum dos sintomas. Assim, será possível fazer os exames diagnósticos com rapidez e escolher o tratamento mais adequado para cada caso", destaca Mariana.
A leucemia se desenvolve quando células sanguíneas passam a se multiplicar de forma descontrolada na medula óssea. Nos últimos anos, os avanços terapêuticos têm ampliado significativamente as perspectivas para os pacientes. Além do transplante de medula óssea, terapias-alvo e tratamentos celulares, como o CAR-T Cell, vêm transformando o cenário do tratamento das neoplasias hematológicas.
“A onco-hematologia passou por uma verdadeira revolução. Hoje conseguimos personalizar tratamentos, oferecer terapias cada vez mais precisas e alcançar resultados que eram inimagináveis há algumas décadas. Ainda assim, o diagnóstico precoce continua sendo um dos fatores mais importantes para o sucesso terapêutico”, diz o médico Jayr Schmidt Filho, do A.C.Camargo Cancer Center.
Os sinais de alerta
Entre os principais sintomas que merecem atenção estão cansaço persistente, fraqueza, sonolência excessiva, palidez, falta de ar, infecções recorrentes, febre sem causa aparente, surgimento de manchas roxas pelo corpo, sangramentos prolongados e perda de peso involuntária.
No caso das anemias, também podem ocorrer palpitações, alteração do paladar, redução do apetite e formigamento nas mãos e nos pés, especialmente quando relacionadas à deficiência de vitamina B12. “Nem todo quadro de anemia está relacionado ao câncer, mas toda alteração persistente merece investigação médica. O hemograma é um exame simples, acessível e frequentemente o primeiro passo para identificar tanto anemias quanto doenças hematológicas mais complexas”, diz Jayr Schmidt Filho.
Alguns fatores, como a exposição a produtos químicos, principalmente os derivados de benzeno, e à radiação em altos níveis, assim como algumas doenças genéticas como anemia de Fanconi e outras que afetam o sangue, podem elevar o risco de incidência da doença. Ainda assim, estes são apenas fatores que podem contribuir para o surgimento da leucemia, mas não são regra. Diante disso, o principal conselho é que seja dada atenção aos sinais que podem ser indícios da doença.
"Os sintomas das leucemias agudas incluem palidez, cansaço e sonolência, uma das consequências da queda na produção de glóbulos vermelhos (hemácias) e consequente anemia. Manchas roxas que surgem aparentemente sem traumas, pequenos pontos vermelhos na pele e/ou sangramentos mais intensos e prolongados após ferimentos leves também podem surgir em decorrência da diminuição na produção de plaquetas", comenta Mariana Oliveira.
A redução na imunidade ocasionada pela baixa quantidade de glóbulos brancos faz com que a pessoa apresente infecções constantes e febre. "Dores ósseas e nas juntas, que podem dificultar a capacidade de locomoção, e dores de cabeça e vômitos são outros possíveis sintomas que não devem ser ignorados. Outro indício da doença pode ser ainda a perda de peso", afirma.
A onco-hematologista frisa, contudo, que as leucemias crônicas são comumente descobertas por alterações identificadas no hemograma - exame de sangue que deve ser realizado periodicamente como parte da rotina, já que dificilmente apresentarem alterações evidentes à saúde. "Apenas em estágios mais avançados podem ocorrer sintomas similares aos casos agudos", pontua.
Para fechar o diagnóstico, é recomendada a coleta de medula óssea para exames específicos (mielograma, biópsia, imunofenotipagem e cariótipo). Outros estudos complementares podem ser então sugeridos, de acordo com a subclassificação a ser estabelecida e análise de risco, para que seja assim definido o tratamento a ser adotado.
Como funciona o tratamento para leucemia?
Logo de cara, quando se fala em leucemia, é quase inevitável pensar no transplante de medula óssea. Mas, ela é muito mais ampla do que os casos que realmente necessitam desse procedimento. Em muitos pacientes, o tratamento pode ser medicamentoso ao longo de toda vida, ou ainda a partir da própria quimioterapia, capaz de eliminar a doença.
"Isso dependerá de cada caso. Como existem muitos tipos de leucócitos, temos também diversos tipos de leucemias", explica Mariana. Podendo ser agudas (leucemia linfóide aguda e leucemia mieloide aguda) ou crônicas (leucemia linfocítica crônica e leucemia mieloide crônica), elas são definidas da seguinte maneira:
Leucemias agudas: necessitam de internação, exames de classificação e testes da medula óssea para a escolha da quimioterapia adequada ao paciente. Geralmente, a multiplicação das células mutadas é rápida e é mais comum em crianças.
Leucemias crônicas: possui um desenvolvimento lento e pode acompanhar o paciente ao longo de toda a vida, sem maiores complicações. Na maioria dos casos é mais comum em adultos e seu tratamento é realizado com consultas de rotina e prescrição de remédios.
"Temos que lembrar que os avanços nos tratamentos tiveram um salto importantíssimo. Um deles é a terapia car-t cell, em que os linfócitos do tipo T são tratados em laboratório para que possam analisar e reconhecer as células cancerosas, eliminando-as", comenta.
Além disso, a leucemia possui altas chances de cura, podendo chegar a até 90%, no caso das crianças, e 50% em pessoas até 60 anos. "Apesar de não existir cura para alguns casos da doença, os tratamentos são eficazes para oferecer uma maior expectativa e qualidade de vida. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para o controle da leucemia", finaliza Mariana Oliveira.
Doação de sangue
Entre os pacientes que mais dependem dos bancos de sangue estão aqueles diagnosticados com leucemias agudas. Durante o tratamento, especialmente nas fases iniciais da quimioterapia, a produção de células sanguíneas pode ficar severamente comprometida, tornando as transfusões uma necessidade frequente.
“Nas leucemias agudas, a transfusão de sangue faz parte do processo terapêutico. Existem pacientes que, em determinados momentos do tratamento, precisam receber hemácias ou plaquetas praticamente todos os dias. Em outros casos, a necessidade é menor, mas a transfusão continua sendo um recurso essencial”, diz o hematologista Douglas Stocco, do Hospital Vitoria Apart.
Para esses pacientes, os hemocomponentes passam por processos especiais de preparo, como filtragem e, em alguns casos, irradiação, medidas que aumentam a segurança da transfusão para pessoas imunossuprimidas. "Esses procedimentos reduzem a quantidade de leucócitos presentes nos hemocomponentes e ajudam a diminuir reações transfusionais, tornando o sangue mais seguro para quem está com a imunidade comprometida”, acrescenta o especialista.