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Perda de movimentos

Lito Sousa: entenda por que o diagnóstico da rara doença de Creutzfeldt-Jakob é difícil

Doença rara e de progressão acelerada pode apresentar sintomas neurológicos inespecíficos; caso do influenciador chama atenção para os desafios de identificar a condição

Publicado em 21 de Agosto de 2026 às 13:16

Da Redação*

Publicado em 

21 ago 2026 às 13:16
Lito Sousa
Lito Sousa foi diagnosticado com doença rara Reprodução @lito

O diagnóstico divulgado recentemente do influenciador Lito Souza (59), do canal Aviões e Música, chamou atenção para uma doença rara e de evolução rápida: a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade priônica que provoca degeneração progressiva do sistema nervoso. 


Segundo a esposa do influenciador, Mila Seidl, o diagnóstico foi confirmado após o surgimento de sintomas neurológicos e uma sequência de exames. Em julho, Lito havia anunciado que estava em tratamento contra um câncer de próstata e, posteriormente, relatou dormência no braço esquerdo, que evoluiu para perda de movimentos.


A DCJ está entre as doenças priônicas humanas, grupo de enfermidades causadas pelo acúmulo de proteínas anormais no sistema nervoso central. A manifestação pode incluir alterações cognitivas, problemas de coordenação, distúrbios do movimento e outros sintomas neurológicos que evoluem rapidamente.


Para Caio Bruzaca, médico geneticista da Centogene e membro titular da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), a combinação entre a evolução rápida do quadro e os achados neurológicos é um dos elementos que pode levar à suspeita da doença. 


"Trata-se de uma doença priônica. A palavra prion vem do termo ‘proteína infectante’, e está intimamente ligada ao nosso sistema nervoso central. Os sinais e sintomas são muito inespecíficos, como distúrbios do movimento, alterações de memória e do sono. Por conta disso, a doença é frequentemente confundida com condições mais comuns, como Parkinson e Alzheimer, e o diagnóstico é muito difícil de ser estabelecido”.


Embora a doença seja rara, a DCJ faz parte de um grupo para o qual existem critérios diagnósticos específicos. Segundo o CDC, a investigação de um caso suspeito considera a apresentação clínica e pode envolver ressonância magnética, eletroencefalograma e análise do líquido cefalorraquidiano. Em casos prováveis, a detecção da proteína priônica por meio do exame RT-QuIC no líquor é um dos critérios utilizados.

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Por que o diagnóstico pode ser difícil

No caso de uma doença com progressão neurológica rápida, a investigação precisa considerar diferentes possibilidades diagnósticas. A ressonância pode contribuir para a suspeita de DCJ, enquanto exames do líquido cefalorraquidiano, como o RT-QuIC, podem fornecer evidências adicionais. Uma revisão publicada em 2024 destaca que o desenvolvimento do RT-QuIC representou um avanço importante no diagnóstico da doença, embora o desempenho do exame possa variar conforme o subtipo da DCJ.


Segundo o especialista, a ressonância é uma etapa importante. "Para suspeitarmos de doença de Creutzfeldt-Jakob, nós necessitamos primeiramente de uma ressonância nuclear magnética com aspecto esponjiforme. A doença deixa esse aspecto de esponja no nosso cérebro e é o primeiro sinal que vamos suspeitar dessa condição".


Quando há suspeita de uma forma hereditária, a investigação também pode se estender aos familiares. Nas doenças priônicas associadas a variantes patogênicas no PRNP, o padrão de herança de determinadas condições é autossômico dominante, o que significa que familiares de primeiro grau podem ter risco aumentado e podem se beneficiar de aconselhamento genético quando houver uma variante familiar identificada.


O especialista ressalta ainda a importância do aconselhamento genético diante de uma possível forma hereditária: "Quando estamos falando das formas de doença de Crotesfield-Acobi, nós temos que falar, em especial, da forma hereditária, aquela que é passada de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto, do que chamamos de padrão de herança autossômico-dominante, onde nós temos uma mutação no gene PRNP."

Onde entra a genética

Embora a maior parte dos casos de DCJ seja classificada como esporádica, existem formas hereditárias associadas a alterações no gene PRNP. De acordo com o MedlinePlus Genetics, variantes patogênicas neste gene estão relacionadas a formas familiares de doenças priônicas, incluindo a DCJ familiar, a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker e a insônia familiar fatal. As formas familiares seguem padrão de herança autossômica dominante.


É nesse contexto que a investigação genética pode ajudar a esclarecer a origem do quadro e a identificar situações em que familiares também possam estar em risco. Para Caio Bruzaca, o teste deve ser considerado dentro de uma investigação clínica mais ampla. "Além da ressonância, o teste genético vai ser primordial para o diagnóstico correto".


O médico explica ainda que a análise do gene PRNP pode ser realizada por múltiplas abordagens de investigação. "Essa pesquisa pode ser feita por diferentes estratégias de sequenciamento genético, a partir do sequenciamento de exoma ou até mesmo por NGS do gene PRNP. Ou seja, temos várias formas de investigar o gene relacionado à doença priônica. No entanto, essa pesquisa é mais bem indicada quando temos um paciente com sinais e sintomas neurológicos, distúrbios do movimento, alterações de memória e do sono, associados a uma ressonância alterada, o que indica a necessidade de investigação genética".


A identificação de uma variante patogênica no PRNP também pode ter implicações para a família. Nas formas hereditárias, uma pessoa que carrega uma variante causadora da doença tem, em geral, 50% de chance de transmití-la a cada filho.


Por isso, o aconselhamento genético faz parte da investigação quando existe suspeita de uma forma hereditária. "Mais do que apenas fazer o teste genético, essa família precisa ser avaliada por um médico geneticista. Isso porque estamos diante de uma doença que pode ser hereditária e familiar, e temos a possibilidade de prevenir e diagnosticar precocemente mutações nos genes PRNP, contribuindo para melhorar a qualidade de vida do paciente."


A DCJ também pode ocorrer de forma adquirida, embora essa seja uma categoria distinta das formas hereditárias e esporádicas. A variante da doença relacionada à encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença da vaca louca, é uma forma específica e extremamente rara de DCJ adquirida. A literatura médica também descreve formas iatrogênicas, relacionadas a determinadas exposições médicas.


A diferenciação entre essas formas é importante porque o resultado de um teste genético não deve ser interpretado isoladamente. “Por isso, é tão importante fecharmos o diagnóstico diferencial e avaliarmos tanto o quadro clínico quanto os exames de imagem, em especial a ressonância nuclear magnética", comenta o especialista.


Apesar dos avanços na investigação, a doença ainda não possui tratamento capaz de interromper ou curar sua evolução. O cuidado é direcionado principalmente ao controle dos sintomas e ao conforto do paciente.


Para o médico, a investigação genética tem importância não apenas para o paciente, mas também para a compreensão do risco familiar quando uma forma hereditária é identificada. "Tudo isso deve ser feito dentro do contexto do aconselhamento genético. É importante lembrar que se trata de uma doença sem tratamento específico. O tratamento é sintomático e, muitas vezes, paliativo, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente”, finaliza Caio Bruzaca.

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