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Obesidade e uso de anabolizantes podem afetar a fertilidade masculina? Entenda a relação

Excesso de peso pode contribuir para alterações nos níveis de testosterona, enquanto o uso indiscriminado de hormônios pode comprometer a produção de espermatozoides

Publicado em 09 de Setembro de 2026 às 16:14

Portal Edicase

Publicado em 

09 set 2026 às 16:14
A testosterona desempenha funções importantes no organismo masculino (Imagem: Cagkan Sayin | Shutterstock)
A testosterona desempenha funções importantes no organismo masculino Crédito: Imagem: Cagkan Sayin | Shutterstock

Segundo um estudo apresentado durante o encontro anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), os níveis de testosterona tiveram uma queda aproximada de 54% nos últimos 50 anos entre os homens, acarretando uma diminuição significativa da fertilidade em escala global. A pesquisa reuniu informações de 118.593 homens de Israel, Estados Unidos, Brasil, Finlândia e Dinamarca, acompanhados entre 1972 e 2019. De acordo com os autores, a redução foi superior a 1% ao ano e se intensificou a partir dos anos 2000.

As evidências apontam que mudanças no estilo de vida da população podem estar relacionadas a essa tendência. De um lado, está o aumento da obesidade, associado a fatores como o consumo elevado de alimentos ultraprocessados e o sedentarismo. Do outro, chama atenção o uso de esteroides anabolizantes, especialmente entre homens que buscam mudanças na composição corporal, uma prática que pode comprometer a produção de espermatozoides e afetar a fertilidade masculina.

Enquanto a terapia de reposição de testosterona (TRT) prevê acompanhamento profissional e dosagem calculada para o tratamento de uma deficiência hormonal comprovada laboratorialmente e clinicamente, os anabolizantes são utilizados, clandestinamente, para fins estéticos e/ou melhora de desempenho físico, por meio de dosagens suprafisiológicas e perigosas, sem nenhuma segurança.

“Em vigência do uso de anabolizantes, o cérebro percebe que há excesso desses hormônios circulando e reduz a liberação dos estímulos necessários à produção endógena de testosterona. Aos poucos, o corpo passa a ter cada vez mais dificuldade para produzir sozinho esse hormônio fundamental para a fertilidade”, afirma a Dra. Bruna Pedrosa, endocrinologista da Casa de Saúde São José.

Reposição de testosterona e impacto na fertilidade

De acordo com a médica, a interferência sobre a fertilidade pode acontecer até mesmo nos casos em que a reposição de testosterona possui indicação adequada: “Mesmo em doses corretamente calculadas e bem indicadas para suprir a necessidade fisiológica do organismo masculino desse hormônio, a TRT pode levar à infertilidade, já que, ao fornecer ao corpo qualquer fonte de testosterona externa, a regulação hormonal fisiológica inibe a produção de testosterona endógena. Com isso, há queda abrupta na produção de espermatozoides, causando infertilidade.”

Diante desses casos, a especialista comenta que é importante conversar com o paciente sobre os benefícios e possíveis riscos da TRT, considerar seus planos de ter filhos e avaliar alternativas para aumentar os níveis de testosterona, em vez de recorrer apenas à reposição hormonal.

Mesmo diante do possível impacto sobre a fertilidade, a terapia hormonal continua ganhando popularidade entre os homens . Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), a venda legal desses medicamentos subiu 700% entre 2018 e 2026.

Uso de anabolizantes e os riscos à saúde

Em casos de uso de esteroides anabolizantes, o problema é maior ainda, ultrapassando as questões de fertilidade. Com doses que podem chegar a dezenas de vezes a quantidade produzida pelo corpo, o uso indiscriminado dessas substâncias possui outros efeitos, que incluem hipertensão arterial, alterações do colesterol, doenças cardiovasculares, lesão hepática, acne importante, ginecomastia e alterações psiquiátricas, como irritabilidade, impulsividade e transtornos do humor.

Como muitas outras drogas, esses hormônios também podem gerar dependência. É a chamada “síndrome de abstinência de esteroides”. “Nessa fase, são frequentes sintomas como perda da libido, disfunção erétil, fadiga intensa, redução da força e da massa muscular, desânimo e sintomas depressivos. Por isso, se faz necessário acompanhamento médico especializado para lidar com esse desmame”, completa a Dra. Bruna Pedrosa.

A busca pela “masculinidade” e pelo “corpo perfeito” pode, ironicamente, provocar os mesmos sintomas e inseguranças atrelados à baixa testosterona, levando à diminuição geral da fertilidade entre homens.

Alterações nos níveis de testosterona podem afetar a libido, a massa muscular, a saúde óssea e a fertilidade masculina (Imagem: New Africa | Shutterstock)
Alterações nos níveis de testosterona podem afetar a libido, a massa muscular, a saúde óssea e a fertilidade masculina Crédito: Imagem: New Africa | Shutterstock

Testosterona: como atua o hormônio no organismo masculino?

Por que a presença excessiva ou a ausência da testosterona são tão impactantes na saúde masculina? Principal hormônio sexual dos homens, a testosterona é responsável pelo desenvolvimento dos caracteres sexuais masculinos (com aumento da massa muscular, crescimento dos pelos e mudança da voz) e pela manutenção da libido , da função sexual, da densidade óssea e do bem-estar físico geral.

“Em situações normais, após o estímulo dos hormônios FSH e LH (produzidos pela glândula hipófise), os testículos produzem testosterona. E a partir de concentrações fisiológicas desse hormônio a nível testicular, acontece a produção de espermatozoides, garantindo também a função reprodutiva”, explica a endocrinologista.

No entanto, em casos de deficiência hormonal (hipogonadismo), podem surgir sinais como: redução da libido, disfunção erétil, fadiga persistente, diminuição da força e da massa muscular, aumento da gordura corporal, perda da massa óssea, alterações de humor e redução da fertilidade. Sintomas como esses, porém, não são exclusivos da falta de testosterona. Estresse, depressão, obesidade, privação de sono, sedentarismo e diversas doenças crônicas também podem causar manifestações semelhantes nos homens.

“O diagnóstico nunca deve ser feito apenas com base nos sintomas ou em um único exame de sangue. A deficiência de testosterona deve ser cuidadosamente comprovada em duas etapas de exames, além de exigir uma série de cuidados prévios no preparo para coleta, que devem ser orientados pelo médico assistente, somados a sintomas relevantes”, alerta a endocrinologista.

Obesidade e mudanças no estilo de vida

Existem também evidências consistentes de que mudanças no estilo de vida da população têm uma influência grande na tendência global de queda de testosterona, como apontado pelos pesquisadores da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia.

Segundo a Dra. Bruna Pedrosa, o aumento da obesidade é o principal fator envolvido nessa tendência. Isso acontece porque o excesso de gordura corporal interfere diretamente na produção hormonal, junto a outros fatores como: sedentarismo, alimentação rica em alimentos ultraprocessados, privação crônica de sono, estresse persistente, consumo excessivo de álcool e doenças metabólicas, como o diabetes tipo 2.

Portanto, nem todo caso de testosterona baixa depende apenas do tratamento hormonal. Alguns casos podem ser reversíveis por meio do controle metabólico com a adoção de práticas como exercício físico constante, alimentação equilibrada e mudanças de estilo de vida.

“Nem todo homem com testosterona baixa precisa imediatamente de reposição hormonal. Muitas vezes, tratar a obesidade e melhorar o estilo de vida é a abordagem mais eficaz e segura, com impacto direto na causa do problema”, conclui a endocrinologista da Casa de Saúde São José.

Por Camila Parreira

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