Um relacionamento abusivo começa de forma sutil. Os primeiros sinais de controle podem ser ciúmes disfarçados de cuidado. Com o tempo, a série de ataques corrompe a relação e pode culminar até em feminícidio.
Para detalhar essa escalada, Todas Elas conversa com a PhD em Psicología Forense Arielle Sagrill, que explica como identificar o ciclo da violência e os traços de que uma relação é potencialmente perigosa. A especialista afirma que é possível perceber os sinais de alerta de agressividade durante ou até antes de a relação começar.
“O primeiro sinal é o controle excessivo: questionamentos invasivos sobre onde ela está, com quem ela está ou como ela se veste, mesmo no início da relação. São os ciúmes disfarçados de cuidado. Frases como ‘eu faço isso porque eu te amo’, ‘ninguém te ama mais do que eu’, ‘só eu vou te amar’, ‘só eu te conheço o suficiente’ são sinais de alerta para nós”, menciona a psicóloga.
Outro aspecto que deve ser observado é quando o outro quer pular etapas a todo custo e não respeita o tempo de evolução do namoro.
“Há falta de respeito por limites e insistência em avançar as etapas da relação, assim como ignorar os desejos dessa possível parceira. Há aquele atropelamento de fases, aquela pressa em fazer essa relação atingir um nível de maturidade que ela ainda não tem e que precisa de tempo para que isso ocorra”, alerta Arielle.
Além disso, é importante conhecer o passado daquela pessoa para saber se há históricos de atitudes violentas. A psicóloga explica que devem ser considerados sinais inclusive de maus-tratos a animais.
“Um histórico de agressividade, relatos de explosões de raiva, violência com outras pessoas e até mesmo violência com animais... Temos literatura mostrando que a violência contra animais é um fator de risco para violência doméstica."
Comportamento violento não tem justificativa
Uma atitude observada nas vítimas de violência doméstica é a relativização dos ataques. A mulher tenta justificar as ações do agressor, acreditando que o comportamento violento está sendo causado por algum motivo externo, e não que seja uma característica dele.
“Muitas vezes, no racional dessa mulher, ele tá fazendo isso porque está estressado, porque está com raiva ou porque bebeu um pouco a mais. Ela justifica as ações sempre acreditando que essa violência não seria direcionada a ela no futuro e pensa: ‘Comigo ele não faria nada’. É muito comum esse relato, principalmente quando essas mulheres estão grávidas”, adverte Arielle.
A profissional relata que, apesar de algumas mulheres acreditarem que a gestação pode ser um fator que transforme o comportamento do agressor, o que acontece de fato na prática é bem diferente.
“A gravidez é fator de risco para violência. A mulher muitas vezes está indisposta, não está disponível para o sexo, tem alterações de humor, alterações hormonais. Passa a demandar desse sujeito alguns comportamentos que ela entende que são mais adequados para esse momento da vida", afirma a psicóloga.
De forma nenhuma é responsabilidade dela, mas existe uma mudança na dinâmica dessa relação que torna esse homem, já violento, ainda mais agressivo
Arielle Sagrillo PhD em Psicología Forense
A psicóloga destaca que esse padrão é composto por três fases: tensão, ato de violência e lua de mel. A primeira etapa é marcada pelos sinais de que o agressor está mais irritado e começa a ter explosões de raiva.
“É um clima de hostilidade crescente. A vítima tenta evitar conflito. Tem a sensação de que há algo errado, mas não sabe exatamente o que é. Há uma tensão que tende a crescer, e a mulher passa a tentar evitar conflitos”, afirma a psicóloga.
Arielle explica que a segunda fase é a consumação do ato de violência, seja psicológica, seja física, seja moral, seja sexual, seja patrimonial. O terceiro e último estágio é a lua de mel, quando o agressor diz estar arrependido de suas atitudes. ”Nessa fase, o agressor pede desculpas, promete mudar e demonstra afeto. É o momento que a vítima sente esperança." Mas não há mudança, e o ciclo recomeça.
A especialista alerta que o maior perigo de se estar dentro de um ciclo de violência é que os acontecimentos passam a se repetir com mais rapidez e de forma cada vez mais violenta, com chances de evoluir até para um feminicídio.
“A gente observa que o intervalo entre as agressões tende a diminuir e a intensidade da violência tende a aumentar. Por isso, eu prefiro falar em espiral da violência a dizer ciclo da violência. É uma espiral que vai diminuindo, justamente em razão desse encurtamento do tempo e desse agravamento das agressões”, disse Arielle.
A psicóloga enfatiza o quanto é relevante tratar todos os tipos de violência com a mesma importância. “Não devemos tratar a violência psicológica como se fosse um antecedente da violência física. Não necessariamente teremos uma escalada da violência que comece na violência psicológica e chegue à violência física, Na verdade, a violência psicológica não é um sinal de alerta, ela já é uma violência por si só”, frisa a especialista.
De acordo com a psicóloga, mulheres presas a um relacionamento abusivo e que vivem o ciclo de violência costumam relatar diversos sentimentos que são comuns em vítimas de violência doméstica.
“Muitas sentem medo constante de que aconteçam outras violências. Outros sentimentos muito presentes são a vergonha e a culpa. Muitas mulheres acreditam que merecem essa situação, por acreditarem que são responsáveis pelo que está acontecendo. Esses sentimentos acabam sendo neglicenciados”, relata.
É comum também confusão emocional, caracterizada pelo misto de esperança de mudança na relação e o desejo de sair dela, o que torna o processo de rompimento muito difícil. "Constatamos baixa autoestima e sensação de incapacidade para reconstruir a vida. Isso ainda pode vir acompanhado de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e ideações suicidas. Temos uma série de adoecimentos que são consequências dessa situação violenta”, completa a psicóloga.
Arielle explica que um outro relato muito comum é a sensação de “pisar em ovos”. “Qualquer coisa que ela fale ou faça vai deflagrar uma crise nessa relação. Ela não pode fazer nada, está sempre em alerta, muito cuidadosa e sempre se desculpando muito por qualquer coisa."
As mulheres precisam se atentar a alguns sinais para identificar o perigo de uma possível agressão. “Quando o controle começa a se intensificar, surgem essas ameaças de agressão, de perseguição, de monitoramento e de vigilância. A alternância entre comportamento violento e pedidos de desculpas também é um sinal de que a situação pode evoluir para alguma coisa mais grave”, frisa a especialista.
Ameaças de morte, de agressão física, de tirar os filhos, de destruir os bens, muitas vezes, são subestimadas por essas mulheres, que não acham que a violência vai se materializar.
As vítimas do ciclo da violência enfrentam sofrimento psicológico causado pelo relacionamento. Segundo a especialista, no longo prazo, isso pode ter consequências na saúde mental da vítima.
“Elas vão apresentar mudanças de humor, isolamento social, insônia, queixas físicas frequentes sem causa médica clara. Além disso, podem demonstrar desânimo, perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas, ansiedade, tristeza profunda, irritabilidade, insegurança e autocrítica severa”, menciona.
Ao identificar os sinais da violência doméstica, denuncie. O Disque 180 funciona 24 horas por dia e está preparado para fazer o atendimento de mulheres em vulnerabilidade. Além disso, é importante buscar apoio psicológico e social com o objetivo de romper permanentemente com o ciclo de violência.